Se a adolescência é o preto e branco pelos gumes emotivos e pela sua visão retrospetiva como se de um distante clássico cinematográfico se tratasse – o início da idade adulta é a gradual consciencialização das vastas gamas de cinzento nesta coisa de estar vivo. Os tempos em que podias vir a ser qualquer letra do alfabeto tornam-se nos tempos em que podes vir a ser x, e os tempos em que pensavas ser o centro do mundo tornam-se nos tempos em que sonhas ser o centro do mundo de alguém.

À beira do recomeço oficial das aulas, o Espalha-Factos propõe-te uma lista de séries em que os corredores das escolas e das faculdades são um elemento nuclear. Por eles passam protagonistas adolescentes e jovens adultos. No seu estilo e abordagem singulares, estas obras retratam personagens em períodos existenciais de horror ao vazio. Umas decidem beber batidos de tudo e mais alguma coisa na companhia dos amigos, outras optam por chacinar vampiros. Claro está, há ainda aquelas cuja decisão é a indecisão, mergulhando numa introspeção lamacenta em que só encontram oxigénio para o auto-desprezo.

Ser estudante é uma experiência universal e acompanhar o crescimento destas personagens ao longo de vários episódios pode muito bem ser um espelho que colora o teu preto e branco, e os teus cinzentos.

Veronica Mars (2004-2007)

Kristen Bell encarna a personagem que dá título a uma das séries teen mais criativas de sempre. Teve o condão de trazer o legado do film noir para a televisão e de abanar com alguns dos seus preceitos. Aqui o detetive/protagonista é feminino – numa obra convencional Bell seria a femme fatale, um objeto de paixão masculina e o seu raio de ação parte da escola e, mais tarde, da universidade. O coração do noir/neo-noir constata-se nas temáticas de homicídios, sexo e drogas, nas personagens inteligentes, sarcásticas e solitárias ou nos constantes flashbacks narrados pela protagonista. Veronica Mars apelará bastante aos fãs de Lynch: este está na intriga narrativa, nos cenários noturnos, na iluminação de alto contraste e nos sinais neon.

Dawson’s Creek (1998-2003)

Talvez recordes com nostalgia a série em causa pela sua transmissão na TVI há cerca de uma década (com péssimas dobragens). Dawsons Creek é o epítome da palavra ‘drama’ no género teen. Jen (Michelle Williams), Joey (Katie Holmes), Dawson (James Van Der Beek) e Pacey (Joshua Jackson) passam por uma miríade de acontecimentos (e sentimentos) trágicos ao longo de seis temporadas. O vocabulário elaborado das personagens e o desenvolvimento corporal das mesmas é incongruente com a imaturidade que estas vão revelando, e com os 15 anos de idade com que começam na ficção. Apesar de muitos defeitos, lugares-comuns, Dawson’s Creek já é um clássico. A beleza cénica da pequena cidade de Capeside e das águas calmas que a banham confere à série uma aura transcendente. As presenças musicais são o retoque derradeiro. São reminiscentes do final da década de 90 através de hits românticos como Kiss Me (Sixpence None The Richer) ou do tema de abertura I Don’t Want To Wait (Paula Cole).

Buffy The Vampire Slayer (1997-2003)

A caçadora de vampiros Buffy Summers (Sarah Michelle Gellar) é um dos maiores ícones do universo das séries. Deparamo-nos aqui com um dos primeiros exemplos televisivos de uma fusão hoje bem comum: teen + sobrenatural. Este trabalho revelou o criador Joss Whedon ao mundo, todo o seu conhecimento histórico e domínio do meio. Raras vezes uma estética campy foi tão consciente e efetiva. Por detrás da aparência de “pastilha elástica” estão arcos narrativos complexos e personagens desenvolvidas, de fácil empatia. Há humor (a desconstrução do estereótipo de herói é inteligentemente hilariante), drama, romance, ação e terror. Buffy The Vampire Slayer atreve-se a ser tudo. Nessa senda há que destacar Once More, With Feeling, um brilhante episódio musical influenciado pelos elaborados e tecnicistas clássicos do género em Hollywood.

The O.C. (2003-2007)

Em The O.C. seguimos a adoção do problemático adolescente Ryan Atwood (Benjamin McKenzie) por uma família de classe alta de Orange County, California. No seio de um círculo social rico, luxuoso, de grandes mansões, há seres humanos repletos de segredos, corrupção e mágoa, vidas tão imperfeitas como quaisquer outras. Não obstante muitas ocorrências violentas e as dificuldades de expressão dos jovens protagonistas, a série tem um tom mais comedido e adulto do que é habitual dentro do seu género, o que se explica em parte pelo desenvolvimento concedido aos pais e a outros familiares mais velhos. A banda sonora exprime The O.C. como um produto da primeira década do novo milénio, ajudando a catapultar bandas alternativas emergentes para a proeminência. The Killers e Death Cab For Cutie foram os exemplos máximos.

Felicity (1998-2002)

Ao contrário das outras séries expostas neste artigo, Felicity dedica-se em exclusivo ao percurso universitário das personagens. A protagonista homónima (interpretada por Keri Russell) decide, à última hora e contra a vontade dos pais, ir estudar para Nova Iorque em detrimento de ficar em casa, na Califórnia. O que começa por ser uma perseguição a Ben, secreta paixão do secundário, torna-se para a própria Felicity na necessidade de crescer e de se descobrir a si mesma. É explicitamente um trabalho sobre a emancipação de uma jovem que procura sentido na vida. À semelhança de Dawson’s Creek, a série tem clichés e problemas profundos (entre os quais a superficialidade). É a estrutura narrativa singular que ‘melhora’ Felicity: enquanto as obras high school abundam, fazer corresponder cada temporada a um ano letivo de ensino superior é um fenómeno raro.

Freaks And Geeks (1999-2000)

Esta period piece introduz-nos aos tempos de secundário em 1980-1981 numa escola estadunidense e demonstra-nos que para lá da evolução tecnológica e de um afrouxamento do conservadorismo, nada mudou no que é ser adolescente. Poucas séries tentaram ou conseguiram retratar com tamanha precisão essa mesma fase. O balanço entre comédia e drama é tão equilibrado, acolhedor e subtil que Freaks And Geeks podia ser a realidade de qualquer um de nós. Lindsay Weir (Linda Cardellini) e o irmão mais novo Sam (John Francis Daley) são a porta de entrada nas subculturas dos freaks e dos geeks respetivamente. Atores como James Franco, Seth Rogen e Jason Segel tiveram aqui a sua rampa de lançamento, estando inseridos naquele que é possivelmente o melhor elenco de sempre numa série teen. O único ponto fraco de Freaks And Geeks é não poder ter durado mais tempo (e o minúsculo facto de não se ter ouvido a quintessencial Thirteen dos Big Star em nenhum dos 18 episódios).

Quando, como neste caso, te fazem sentir nostalgia por um período e por uma atmosfera em que não exististe, fica no ar a questão: será que estar nostálgico é tanto a projeção do romântico em todos os detalhes que já esqueceste como é a visualização do banal em todos os outros que, sabes, viveste?