O quarto dia do MUVI Lisboa’14 começou com o anúncio dos vencedores da primeira edição do festival, que receberam os seus prémios no início da sessão de encerramento. Por isso todos os filmes que passaram no penúltimo acorde tocado no Cinema São Jorge estiveram fora de competição, mas nem isso impediu alguns deles de se tornarem nos mais interessantes de todo o certame. Houve também tempo para ficarmos a conhecer os novos temas dos TOCHAPESTANA e para nos despedirmos dos excelentes concertos do Showcase com os magníficos First Breath After Coma.

Festivais de Música

Uma das mais concorridas sessões especiais do festival foi totalmente dedicada a festivais de música nacionais e internacionais (alguns deles cobertos pelo Espalha-Factos). A sessão, com um bom número de espetadores de todas as idades (o dia chuvoso talvez tenha ajudado a trazer mais gente ao São Jorge), abriu com Do Mississipi ao Tejo, um mini documentário sobre a terceira edição do BB Blues Festival. O realizador Sérgio Diamantino e outras personalidades ligadas ao filme e ao festival estiveram presentes na sala e disseram que estão a pensar em fazer uma longa metragem para o ano.

Depois da curta Do Mississipi ao Tejo, houve espaço para outros grandes festivais mostrarem os melhores momentos das suas últimas edições. Mêda+, Bons Sons, Fusing e os internacionais Primavera Sound Barcelona e Bonnaroo foram apenas alguns dos festivais com direito a promos e retroespetivas, mas os eventos musicais mais bem representados foram o Optimus Primavera Sound e o Sziget Festival. O documentário de 25 minutos Driving Without License, realizado por João Diogo Marques e produzido pelo Canal 180 (um dos parceiros do MUVI) contou com várias e divertidas entrevistas a músicos que passaram pelo palco de um dos maiores eventos em Portugal de 2013 e foi sem dúvida um dos pontos altos da sessão. Já o estrondoso festival de música da Hungria fez-se representar por um conjunto de imagens coloridas e animadas que captaram perfeitamente o ambiente que se vive na chamada Ilha da Liberdade.

Cure For Pain – The Mark Sandman Story – Rob Gordon Bralver (2011)

Uma excelente homenagem a Mark Sandman, nome incontornável da música rock e líder dos Morphine, uma das bandas mais originais de sempre cujo último concerto completo foi dado em Portugal.

Realizado por Rob Gordon Bralver, o documentário conta com entrevistas aos outros dois membros dos MorphineDana ColleyBilly Conway, bem como a familiares e amigos próximos de Sandman e algumas gravações com fraca qualidade de imagem de concertos e discursos típicos do baixista norte americano. Cure For Pain (nome de uma das mais icónicas músicas da banda) acompanha não só a carreira de Sandman, que teve o seu término com a sua morte em palco em 1999 na pequena terra italiana de Palestrina, mas também retrata a sua vida pessoal e os dramas pessoais por que passou, como a morte dos seus dois irmãos. Ficamos a conhecer melhor a personagem peculiar que foi, bem como a marca que deixou em muitas pessoas próximas dele.

Um dos melhores aspetos do filme é não idolatrar Sandman, fingindo que era uma pessoa perfeita sem defeitos, coisa que acontece em alguns documentários de outras personalidades cuja imagem tenta ser limpa através de longas metragens. Os testemunhos de Cure For Pain, embora na maior parte do tempo sejam muito emotivos e apresentem o lado mais talentoso do músico, não estão desprovidos de um ou outro “insulto” ao falecido baixista vindos dos seus amigos que o consideravam por vezes chato, casmurro e teimoso (e mais uns outros adjetivos que não se podem escrever). A banda sonora, composta não só pelos Morphine mas também por outras bandas como Treat Her Right e Hypnosonics, é outro dos pontos essenciais da fita, onde cada tema parece demonstrar o estado de espírito de Sandman em cada segmento.

No final da sessão, Nuno Calado subiu ao palco e respondeu a algumas perguntas sobre Mark Sandman, ele que sempre que vinha a Portugal fazia questão de se encontrar com o radialista da Antena 3 para conversarem e passarem tempo juntos. Foi num emocionado e saudoso diálogo com um dos membros do MUVI que Calado contou alguns episódios do músico em território português, para prazer dos presentes na sala.

Nota 8/10

Cure For Pain

TOCHAPESTANA apresentam Música Moderna

No mínimo… surreal. É assim que se pode descrever a apresentação do primeiro álbum dos TOCHAPESTANA, a dupla portuguesa formada por Gonçalo Tocha e Dídio Pestana, no final de tarde do MUVI.

Foram sete os videoclips apresentados em primeira mão a um público impressionado com o que estava a ver. Para além do já conhecido Pratica a Tua Fé, assistiu-se aos temas Português Verdadeiro, Lírico, Religioso, Lisboa, Macho Masoquista, Gasolina e Plástico, todos eles bastante peculiares, não só pelas letras estranhas e humorísticas mas também pelos vídeos musicais verdadeiramente únicos e ridículamente hilariantes que os acompanham. Gonçalo Tocha, vocalista e porta voz da banda, respondeu depois a algumas questões do público, que queriam saber um pouco mais sobre este projeto musical. Mas as respostas dadas nunca foram totalmente conclusivas, dado que era difícil perceber até que ponto Tocha estava a ser sério ou irónico, mas tudo isto só contribuiu para criar melhor a caricatura dos dois músicos, vestidos desleixadamente e portadores de um estilo e penteados muito retro.

Música Moderna, o primeiro álbum dos TOCHAPESTANA, vai ser lançado no próximo dia 15 de setembro.

TOCHAPESTANA

Anyone Can Play Guitar – Jon Spira (2009)

Radiohead, Supergrass, Ride, Foals e Candyskins são apenas algumas das bandas que nasceram em Oxford, Inglaterra, e que partilham neste documentário de 2009 os sucessos e falhanços por que passaram nas suas carreiras.

Anyone Can Play Guitar quase que faz de Oxford uma Seattle inglesa, fazendo passar a ideia de que qualquer grupo de jovens dali oriundos conseguiam fazer uma banda. Para isso, Jon Spira vai entrevistando inúmeras bandas, algumas que conseguiram alcançar enorme sucesso continuando a lançar álbuns até aos dias de hoje, como os Radiohead, outras que por diversas razões e azares ficaram pelo caminho. Exemplo disso sãos os Candyskins, o grupo mais azarado de Oxford que nunca tiveram um timing perfeito para “explodir”. As entrevistas aos músicos são engraçadas, a forma como o documentário está feito em termos visuais é também muito apelativo e, obviamente, a banda sonora é muito boa. Mas há algo que não funciona a dado momento de Anyone Can Play Guitar. Lá pelo meio do filme começa-se a perder o interesse porque algumas cenas são muito aborrecidas e totalmente dispensáveis, fazendo com que o filme perca o ritmo e se torne menos cativante.

Nota – 7/10

Showcase com First Breath After Coma

Os concertos do Showcase do MUVI Lisboa chegaram ontem ao fim com um fenomenal concerto dos portugueses First Breath After Coma, a primeira banda a pisar o palco do festival. Formado pelos jovens mas talentosos Roberto Caetano, Telmo Soares, Pedro Marques, João Marques e o “intruso” Hugo Domingues, dos Nice Weather for Ducks, que substituiu o habitual baixista Rui Gaspar, o grupo entrou em palco e mal agarrou nos seus instrumentos espalhou magia pela sala inteira. Tocando originais e ainda um maravilhoso cover dos M83, os FBAC encantaram o público com um conjunto de melodias muito típicas, que começam sempre de forma calma e tranquila passando depois a um clímax de guitarra, bateria e teclas, sob as cinco belas vozes dos jovens músicos.

Durante o diálogo com o público e dois dos membros da organização do MUVI, os dois guitarristas Roberto e Telmo foram os porta vozes da banda e falaram sobre as suas referências musicais e a origem do seu nome. Fizeram também um grande elogio ao festival, dizendo que é uma ideia fantástica e é impressionante como ninguém havia ainda pensado em realizar um evento que aliasse música e cinema, coisas que os próprios First Breath After Coma gostam de juntar como se pode ver pela excelência dos videoclips que acompanham as suas canções. Com todas as questões esclarecidas, os cinco jovens abandonaram o palco do último Showcase do MUVI Lisboa’14 com sensação de dever comprido, já que presentearam o Cinema São Jorge com um dos mais mágicos concertos do festival.

Foto: First Breath After Coma no Muvi Lisboa'14