A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Uma rápida leitura da biografia de Gena Rowlands basta para nos questinonarmos se não estamos a ler o argumento de um daqueles filmes clichés em que a típica rapariga bonita, apaixonada pelo teatro e pelo cinema, se rebela e decide lutar pelo seu sonho, o de se tornar atriz e tomar Hollywood como sua.

Nasceu em Madison, Wisconsin, em 1930, e os pais deram-lhe o nome de Virginia Cathryn Rowlands. O pai era bancário, a mãe dona de casa. Devido ao trabalho do seu progenitor, Virginia e a sua família viram-se obrigadas a mudar várias vezes de casa e de estado: de Madison foram para Washington, D.C., voltaram ao Wisconsin alguns anos mais tarde, e ainda passaram por Minneapolis, Minnesota. Virginia voltou ao Wisconsin para frequentar a Universidade, onde estudou durante três anos. A jovem, popular pela sua beleza, acabou por se mudar, mais uma vez, para Nova Iorque, a fim de estudar teatro na American Academy of Dramatic Arts.

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A partir daqui, os papéis começaram a chover: primeiro em pequenos teatros locais; depois na Broadway, tendo feito uma tour pelo país com a peça O Pecado Mora ao Lado (que mais tarde recebeu uma adaptação ao cinema, protagonizada por Marylin Monroe e conhecida pela famosa cena em que a atriz segura o seu vestido cor de marfim ao passar por um respiradouro do metro); participou em televisão, como atriz convidada em várias séries, entre as quais Bonanza, The Alfred Hitchcock Hour e Peyton Place.

Gena e o marido, John Cassavetes

Gena e o marido, John Cassavetes

Mas foi a trabalhar com o marido, John Cassavetes, que Gena conseguiu as suas melhores interpretações. No total, fizeram dez filmes juntos. Casados desde 1954, o par trabalhou em várias produções, tanto contracenando lado a lado, como com John por trás da câmara. Uma Criança à Espera (1963), Rostos (1968), Tempo de Amar (1971), Uma Mulher Sob a Influência (1974) e Glória (1980) são alguns dos filmes realizados por Cassavetes e protagonizados por Rowlands. A actriz recebeu a nomeação para o Oscar de Melhor Actriz pelos dois últimos títulos, não tendo conseguido arrecadar a estatueta dourada. No entanto, conseguiu o Globo de Ouro na mesma categoria com Uma Mulher Sob a Influência.

Gena Rowlands A Woman Under the Influence

Em “Uma Mulher Sob a Influência”

Mas não era só no grande ecrã que Rowlands dava cartas. Em 1985, a atriz participou no aclamado filme televisivo Um Gelo Súbito, a primeira produção norte-americana a abordar o tema VIH/SIDA. Em 1987, ganhou o Emmy para Melhor Atriz em Mini-Série ou Filme pelo seu papel em A História de Betty Ford (com o qual também ganhou um Globo de Ouro), voltando a repetir a proeza em 1992 com Face of a Stranger, e em 2003 com Hysterical Blindness.

Foi seleccionada por Woddy Allen para participar no filme Uma Outra Mulher (1988), cuja performance foi imensamente aclamada e, mais recentemente, interpretou Allie no muito conhecido O Diário da Nossa Paixão (2004), cuja realização ficou a cargo do filho da atriz, Nick Cassavetes. No mesmo ano, sobe novamente ao palco para receber o Daytime Emmy de Melhor Actriz pelo seu papel em The Incredible Mrs. Ritchie. Em 2005, ao lado de Kate Hudson e Peter Sarsgaard, participou no filme de terror A Chave, e em 2007 trabalhou com a sua filha Zoe Cassavetes, também realizadora, interpretando um papel secundário na produção independente Uma Americana em ParisRowlands participou ainda em séries como Monk e NCIS (em 2009 e 2010, respetivamente).

Em "O Diário da Nossa Paixão", ao lado de James Garner

Em “O Diário da Nossa Paixão”, ao lado de James Garner

Quase tão grande quanto o seu currículo na televisão e no cinema é a lista de nomeações que a atriz foi recebendo ao longo da sua carreira, de entre os quais para dois Oscars, oito Emmys, oito Globos de Ouro, e um Screen Actors Guild Award. E com 84 anos, Gena Rowlands está longe de se reformar, continuando a representar, se bem que de forma mais contida, tendo participado este ano em duas produções cinematográficas: Parts Per Billion e Six Dance Lessons in Six Weeks, sendo que este último ainda está por estrear.

Acarinhada pelo público e pelos colegas do mundo do cinema (o realizador Pedro Almodóvar dedicou o seu filme Tudo Sobre a Minha Mãe (1999) a Gena Rowlands, Bette Davis e Romy Schneider), a actriz é considerada como uma das melhores da sua geração, ao nível de Judy Garland e Marylin Monroe. A sua performance em Uma Mulher Sob a Influência permanece como umas melhores interpretações da história do cinema.