O terceiro dia do MUVI Lisboa’14 ficou marcado pela bipolaridade: foi passado tanto o melhor como o pior filme de todo o festival até agora , e o concerto de PZ no final da noite teve tanto de divertido como de desinteressante.

Tomar o Castelo (Sudar U Dvorcu) – Arsen Oremovic (2014)

O melhor filme do MUVI até ao momento! Tomar o Castelo tem apenas meia hora mas não deixa de ser um documentário fascinante que, à partida, até parecia vir a ser aborrecido.

O realizador Arsen Oremovic acompanhou o compositor croata Matej Meštrović e a Orquestra de Percussão SUDAR na gravação de um álbum no castelo de Sv. Križ Začretje. À primeira vista Tomar o Castelo soa a tédio, mas em vez disso acaba por ser um fascinante e divertido registo de um grupo de talentosos músicos e do tempo que passaram no frio (as temperaturas chegavam aos 10 graus negativos) e maravilhoso castelo da Croácia. Meštrović é uma figura muito curiosa, que para além de ter um talento musical incrível é igualmente um cómico, sempre a brincar com as pessoas à sua volta. É a boa disposição que rodeia o processo de gravação do disco que nos atrai para os pontos mais técnicos do filme, como a recolha dos sons e dos ecos do castelo para a construção de cada tema. Oremovic dá ainda atenção ao desinteresse que há pelo património cultural e histórico croata através de Mirne Floegl, a dona do castelo. A simpática e idosa mulher queixa-se da atitude do governo e da forma como é divulgado o seu e outros castelos no estrangeiro, num irónico mas revoltado discurso. Somos assim alertados para os problemas que a cultura na Croácia sofre e para a própria situação deficitária de Floegl.

Tomar o Castelo não é apenas um documentário sobre a gravação de um disco num castelo. É, isso sim, um registo da cumplicidade e mestria que Matej Meštrović e a Orquestra de Percussão SUDAR têm (visíveis na fantástica banda sonora e nas imagens finais do filme, rodadas no concerto de apresentação do trabalho) que critica ainda o desinteresse que há por verdadeiros tesouros históricos por parte das maiores entidades da Croácia (e que acontece também noutros países…).

Nota – 9/10

Castle_Crash_04

Voluta – Mariana Belo (2013)

A curta que deu início à sessão dupla de final de tarde do MUVI acompanha Carlota, uma estudante da Academia de Música de Santa Cecília que toca o contrabaixo. Este mini documentário não serve senão para demonstrar os sacrifícios e a dedicação que alguns jovens possuem para dar asas aos seus sonhos e paixões, neste caso a música. Mas se ninguém pode ficar indiferente ao testemunho de Carlota, também poucos serão aqueles que ficam agarrados a Voluta, um pequeno filme indiferente à boa história que quer contar, ganhando assim o título de pior trabalho apresentado no festival até agora.

Nota – 4/10

Voluta

True – Paulo Segadães (2013)

À semelhança de Tomar o Castelo, True acompanha a gravação de um álbum musical, neste caso o último trabalho de The Legendary Tigerman, o alter ego de Paulo Furtado, que dá nome ao documentário.

Iniciadas em janeiro de 2013, as filmagens acompanham de perto o músico português enquanto este vai compondo e gravando alguns dos temas de True. É engraçado observar como ele vai criando as diferentes melodias e tocando vários instrumentos separadamente para depois os juntar todos num tema só. Mas ver isto durante quase uma hora torna-se cansativo. Tirando um ou outro discurso curto de Paulo Furtado, Paulo Segadães fez do seu documentário um entediante conjunto de imagens de The Legendary Tigerman a tocar guitarra, a concertar os aparelhos de gravação e a dizer umas quantas palavras impróprias. O que salva True é a excelente fotografia a preto e branco e a banda sonora, que nunca poderia ser má, visto que é composta por canções de um dos melhores discos portugueses do ano. Mas vindo da dupla que na quinta feira apresentou a magnífica curta Oblivion, esperava-se muito mais.

Nota – 5/10

True

A Sétima Vida de Gualdino – Filipe Araújo (2013)

A merecida homenagem a Gualdino Barros chega em forma de um documentário íntimo e forte, que aviva a memória aos mais esquecidos e apresenta aos mais distraídos uma das personalidades mais marcantes da música em Portugal.

Gualdino foi um baterista de jazz que lançou as carreiras de alguns dos mais importantes artistas portugueses como Jorge PalmaBernardo Sassetti. Nos dias de hoje, a maior personalidade do jazz em Portugal está desgastada, após uma vida repleta de muitas aventuras e vivências únicos, que levam o próprio a afirmar ser “mais velho que o Manoel de Oliveira e que o Papa”, já que considera ter vivido aquilo que mais ninguém viveu e que nem pode contar. As câmaras de Filipe Araújo começaram a filmar Gualdino após este ter tido uma AVC que o paralisou parcialmente. Mas a teimosia do músico leva-o a erguer-se novamente, iniciando um processo de fisioterapia composto por aquilo que mais gosta: tocar bateria, lançar novos músicos, conviver com velhos amigos e viajar a Paris, cidade onde viveu há mais de 40 anos e onde tocou com a lendária Nina Simone.

A Sétima Vida de Gualdino não acompanha apenas esta nova jornada na vida do baterista, mas dá-nos também a conhecer alguns dos músicos lançados por ele. Filipe Araújo filma estes “pupilos” de Gualdino sentados em redor de mesas de cafés, partilhando episódios marcantes e caricatos da sua vida, como o último beijo que deu com os seus próprios dentes antes de ter mergulhado num lago de crocodilos ou o dia em que foi pintado da cabeça aos pés por um grupo de raparigas com quem passou a noite. Estas pequenas vivências, simuladas por umas animações bastante boas, conseguem atenuar um pouco os momentos mais fortes do filme, aqueles em que são mais notórias as fragilidades de Gualdino, que se mostra muito magro, doente e com muitas dificuldades em falar. É pena que só agora se faça um documentário sobre ele, especialmente porque a última imagem que fica de uma dos grandes nomes da música portuguesa é a de um velho acabado e desgastado, depois de uma vida digna de um filme de rockstars.

Nota – 8/10

Shape – Johnny Kelly (2014)

Outra das curtas do dia. Shape é uma animação adorável, que através de desenhos animados simples mas muito originais conseguiu pôr toda a sala a sorrir. Para além de divertir toda a gente com uma história muito curiosa (e uma música de fundo bastante apropriada), o realizador Johnny Kelly coloca ainda uma questão no final do filme: “What would you change?“. (“O que mudarias?“), que nos leva a pensar um pouco mais sobre a divertida curta que acabámos de ver.

Nota – 9/10

Shape

The Winding Stream – Beth Harrington (2014)

A família Carter foi seguramente uma das maiores e mais importantes dinastias musicais da história dos EUA, e o objetivo de The Winding Stream é mostrar, através de entrevistas e algumas imagens antigas, o impacto que estes tiveram na cultura norte-americana, bem com dar a conhecer a vida mais íntima dos seus constituintes.

Embora como documentário o filme não seja nada de especial, mantendo-se a um nível mediano digno de um pequeno programa de canal por cabo, a história que conta compensa em muito a sua fraca qualidade. Beth Harrington entrevista descendentes da família Carter que começou a ter sucesso na primeira metade do século XX, altura em que A.P., Maybelle e Sarah Carter gravaram algumas músicas country. Viajamos então por quase 100 anos de história com a ajuda de imagens antigas, gravações das vozes dos membros fundadores da Carter Family e testemunhos de alguns sobreviventes desse tempo, como Johnny Cash, falecido em 2003 mas que foi ainda a tempo de ser entrevistado. The Winding Stream pode ser um pouco superficial, não indo mesmo às raízes nem explorando na totalidade a história dos Carters. Mas continua mesmo assim a ser um registo simpático que aposta ainda num humor não muito usual em documentários (visível nas reconstruções dos concertos e das gravações que fazem lembrar os bonecos dos Monty Python), o que lhe dá um tom mais descontraído que consegue soltar uma ou outra gargalhada.

Nota 7/10

The Winding Stream

Showcase com PZ

Foi com um concerto peculiar que PZ, nome artístico de Paulo Zé Pimenta, fechou a terceira noite do MUVI. O portuense entrou em palco vestido com um pijama (pantufas incluídas) e tocou algumas das suas músicas mais conhecidas. Mas enquanto que o público recebeu muito bem os temas Cara de Chewbacca e Croquetes (a mais bem recebida que conseguiu pôr o público mais idoso, não tão familiarizado com o reportório de PZ, a rir e a bater o pé), as restantes canções foram desprovidas de qualquer interesse ou entusiasmo. Nunca conseguindo descolar-se da versão de estúdio e com uma presença em palco pouco cativante, cantou durante largos e aborrecidos minutos músicas muito monótonas (à exceção das duas referidas anteriormente) que “adormeceram” uma Sala Montepio com pouca gente. O cantor nunca ganhou a afeição do público como NBC e Noiserv ganharam nos dia anteriores quando contavam pequenas histórias sobre si, visto que o melhor que PZ fazia era dizer o nome da música que acabara de tocar e o título da que iria cantar a seguir.

A difícil relação que teve com o público refletiu-se quando chegou a altura de responder a perguntas feitas pelos espetadores. Ou, neste caso, pergunta, já que apenas uma pessoa se mostrou curiosa para saber mais acerca do músico que acabara de dar o pior concerto no Showcase do festival. Não fosse o moderador do debate a fazer mais uma ou outra questão, poderia apelidar-se de trágico o que se assistiu ontem, já que foram alguns os momentos de silêncio constrangedor que se viveram (mesmo PZ parecia algo chateado pela fraca adesão e curiosidade do público). Ficámos no entanto a saber duas coisas. A primeira é que não faltam projetos futuros na sua carreira, desde lançar um novo álbum em dezembro ou janeiro até fazer concertos com uma banda. A segunda é que PZ é um artista com temas engraçados para ouvir no YouTube ou com os amigos para nos rirmos um bocado, mas em cima de um palco pura e simplesmente não resulta.