Iniciou-se ontem a primeira edição do MUVI Lisboa, o primeiro festival de cinema em Portugal totalmente dedicado à música. Foi um primeiro dia onde a qualidade dos filmes ainda não se revelou muito alta, mas onde já deu para perceber que até ao próximo domingo não vão faltar animação e agradáveis melodias no Cinema São Jorge.

Marina – Stijn Coninx (2013)

A primeira longa-metragem exibida no novo festival foi Marina, um filme biográfico que retrata a juventude e adolescência de Rocco Granata, músico italiano que alcançou o sucesso no final da década de 50 com apenas 21 anos de idade com o tema Marina, que dá nome a esta produção belga realizada por Stijn Coninx.

A história inicia-se com a família Granata ainda no seu país, Itália, na véspera da viagem de Salvatore, pai de Rocco, para a Bélgica. Não dura muito até o resto da família imigrar também para o país que pensam ser o mais rico da Europa. Mas cedo descobrem que é na verdade um sítio frio e cinzento, onde Salvatore se vê obrigado a trabalhar todos os dias nas minas para sustentar os seus e onde a discriminação se sente na pele. Rocco, apaixonado pela música, arranja um acordeão e com ele vai dando início a uma carreira que não agrada ao pai mas que conquista Helena, uma jovem belga com a qual terá uma complicada relação.

Marina tem na base um enredo que poderia ser muito interessante e comovente, mas por várias razões o filme não se consegue descolar dos seus clichés e fracos valores de produção. Coninx roda o seu trabalho de forma muito convencional e televisiva, dando ideia de que estamos a ver um telefilme, e os cenários não são nada de especial, nomeadamente as minas onde Salvatore trabalha que são notoriamente filmadas dentro de um estúdio. Ao longo de toda a fita somos bombardeados com alguns clichés típicos de dramas familiares e muitos estereótipos italianos estampados nas personagens, o que não lhe dá um grande tom de originalidade ou autenticidade.

Mas se em Marina se encontram alguns defeitos, também se descobrem aspetos muito positivos. Luigi Lo Cascio, no papel de Salvatore Granata, tem aqui uma performance incrível e muito bem conseguida. Os momentos mais emotivos do filme não seriam tão eficazes sem ele, e mesmo nas cenas de comic relief (que são, de facto, muito cómicas) Lo Cascio mostra ser um ator bastante versátil. Matteo Simoni desempenhou o protagonista de forma eficaz, embora a sua interpretação tenha sido por vezes um pouco exagerada nas partes mais dramáticas. A banda sonora é também excelente, em particular as músicas que Rocco Granata tocava na sua juventude, e consegue por o público a bater o pé. São estes fatores que acabam por equilibrar a balança do que é bom e do que é mau em Marina, tornando-o num filme agradável de se ver.

Nota – 6/10

Our Vinyl Weighs a Ton – Jeff Broadway (2013)

O documentário sobre a editora discográfica Stones Throw, por onde passaram grandes nomes do rap e do hip hop, foi o filme escolhido para passar na Sessão de Abertura do MUVI Lisboa.

Our Vinyl Weighs a Ton (que ficou marcado pela ausência de legendas), mostra-nos, ao longo de cerca de hora e meia, entrevistas, concertos e imagens inéditas de personalidades que fizeram da Stones Throw o que ela é hoje. O documentário tem início na década de 90, altura em que Chris Manak a.k.a. Peanut Butter WolfMC Charles Hicks a.k.a. Charizma formavam um duo que terminou em 1993, quando Charizma foi assassinado. Wolf acabou por se tornar num produtor musical e fundou a Stones Throw anos depois.

Our Vinyl Weighs a Ton (em homenagem ao álbum My Vinyl Weighs a Ton de Wolf) acompanha a evolução da Stones Throw com entrevistas bastante interessantes recheadas de histórias e episódios caricatos que alguns dos intervenientes viveram. Entrevistando o próprio fundador e nomes como Questlove (com quem o público português estará mais familiarizado graças às suas participações nos programas de Jimmy Fallon) ou o rapper Common, o realizador Jeff Broadway mostra igualmente a difícil jornada dos músicos e da própria editora até ao topo. O documentário é até bastante eficaz nos pontos mais sensíveis da história da Stones Throw, como a morte de Charizma e de J Dilla, tornando estes momentos bastante emotivos graças aos testemunhos de familiares e amigos próximos dos músicos.

Há no entanto alguns fatores menos felizes no filme. As entrevistas a Kanye West, Snoop Dogg e Diva, por exemplo, foram feitos para, ao que parece, possibilitar uma melhor campanha de marketing. É apenas por breves segundos que os vemos no ecrã a dar testemunhos que não acrescentam nada ao que já foi dito anteriormente, tendo passado praticamente despercebidos no meio de tantos outros entrevistados bem mais interessantes. A montagem de Our Vinyl Weighs a Ton é igualmente infeliz, ao passar, por vezes demasiado rápido, de uma entrevista para a outra sem deixar o público reter o que se acabou de dizer. Não obstante, o documentário é um registo muito curioso sobre a Stones Throw, que não só mostra o difícil caminho que teve de atravessar como também aviva a memória em relação a alguns nomes marcantes da música que entretanto caíram no esquecimento.

Nota – 7/10

Showcase com NBC

NBC esteve presenta no primeiro Showcase do MUVI. O músico oriundo de Torres Vedras que conta já com uma carreira de 20 anos prendou uma sala bem composta com um incrível concerto. A sua energia em palco foi contagiante, e difícil era estar quieto na cadeira enquanto ia tocando alguns dos seus maiores êxitos, incluindo os temas Neve e Mudar o Castigo do seu mais recente trabalho, EPidemia, junto da sua espetacular banda. As suas qualidades vocais não deixaram ninguém indiferente, a cumplicidade entre ele e os seus colegas de palco era fantástica e nunca ao longo de largos minutos parou de mexer-se, saltar, andar à volta do palco puxando pelo público, etc. NBC estava claramente a desfrutar do momento, e os aplausos efusivos do público no final de cada música mostraram que as pessoas também o estavam a adorar.

Entre as suas atuações, NBC desabafava num discurso emotivo sobre como teve que “sair do meu lugar seguro” e “fazer-me à estrada” para singrar no mundo da música e afirmou não conseguir definir o seu estilo musical, pois é uma mistura de tudo aquilo que ouve, desde hip hop e rock até ao heavy metal. Pela altura em que o público começou a fazer as suas perguntas, o músico mostrou por vezes uma onda peace & love, como quando falava de não ver televisão para não ouvir as notícias más e que todos temos uma escolha e várias opções no nosso caminho. Contudo, mudava depois de tom, criticando os media e a forma como na década de 90 ele e muitos outros músicos underground portugueses já faziam música de intervenção a sério mas que só agora com bandas mais reconhecidas (NBC referiu os Deolinda e o seu tema viral Parva que Sou) é que o género voltou à ribalta.