E se chegasse à conclusão dos sentimentos e sensações que sente por determinadas pessoas na sua vida ou mesmo por familiares? E se sentir um ódio inexplicável pelo seu irmão mesmo tendo-lhe tanto amor? É essa a permissa d’O Chão de Pardais, publicado primeiramente em pelas Edições ASA. 

Desde a mudança para a Tinta da China, algumas das obras da autora estão a ser reeditadas como é o caso deste terceiro livro de Dulce Maria Cardoso. Mesmo não sendo uma das obras mais badaladas da carreira desta escritora revela-se uma óptima surpresa à venda nas livrarias portuguesas.

O enredo da obra traz personagens com vitórias e desgraças a misturarem-se ao mesmo tempo. Temos Afonso, um homem de sucesso aos sessenta anos, quase inatingível a não ser pelo tempo e pelas falhas biológicas provocadas por essa passagem, a sua esposa Alice, típica dona de casa e sem emprego pelo dinheiro que o marido traz para casa. Tudo poderia ser cor-de-rosa não fossem as mentiras que reinam no seu casamento. Mentiras que passam pela falta de amor e comunicação entre os dois, desde o primeiro momento em que se conheceram. E por essa falta de tudo no casamento supõe-se a alimentação de amantes na vida de Afonso e, desta forma, o leitor conhece Sofia.

Sofia tem uma vida que ama e odeia ao mesmo tempo e é tão bem retratada esses dois sentimentos em simultâneo. Ama Júlio mas há momentos em que o odeia, não se imagina sem ele mas sai com homens mais velhos e com dinheiro para ser um pouco mais rica, para lhe pagarem tudo. É no ódio que mantém uma relação com Afonso.

chão dos pardais

Os filhos de Alice e Afonso são peculiares. Clara, tão atormentada pela constação bem cedo de que aprecia e gosta de mulheres, e apaixona-se pela empregada ilegal Elisaveta. Manuel, que depois de um casamento falhado estabelece uma relação à distânica – pelas redes sociais, supõe-se. Pode ler-se que este Chão dos Pardais dá a conhecer as forças que atiram as personagens umas contra as outras e esta a frase perfeita para descrevê-lo. É exatamente isso que acontece a todas as personagens neste livro de Dulce Maria Cardoso: são atiradas umas contra as outras por acontecimentos, comportamentos e sentimentos e quando se choca contra outro ser humano podem nascer, repentinamente ou não, sensações de amor ou ódio.

Ao quase chocar com Elisaveta, Clara apaixona-se freneticamente e quer estar mais tempo com ela. Ao encontrar-se com Afonso, a esposa Alice fecha-se numa concha e conserva-se como uma pérola pura para dar lugar a um ser humano vazio, nos momentos em que se encontra vazia. Em cada página há uma reflexão sobre os seres humanos, caraterizados a meu ver como animais tão complexos pelas palavras desta escritora portuguesa. Digamos que Dulce Maria Cardoso dá a conhecer um leque de personagens tão ricas a todos os leitores, por uma linguagem tão rica e bem estruturada – talvez seja aqui que se nota a obsessão que a escritora diz ter em todas as entrevistas que dá.

Digamos que há duas partes n’O Chão dos Pardais: antes do acontecimento trágico oferecido por Júlio, noivo de Sofia, e depois disso. Reflete-se sobre cada personagem, já que cada capítulo conta e explora a história pessoal de cada um e aí entende-se os sentimentos pelas outras personagens da história. Um dos pormenores mais ricos da obra é a sua atualidade, mesmo publicado há já alguns anos atrás e tendo em conta que tudo passa de moda em poucas semanas, especialmente no meio literário. Ao serem expostas a um momento trágico, quer Alice quer Afonso e todas as outras personagem mudam suave ou drasticamente.

É essa impressionante mudança, reveladora de algumas surpresas no final do livro, que coloca esta obra como um dos melhores livros de uma escritora portuguesa atualmente à venda, apesar de ainda não ter lido O Retorno. Talvez nem seja necessário nos próximos tempos, a prova do talento de Dulce Maria Cardoso está presente neste livro.

O Chão dos Pardais, publicado pela Tinta da China, é uma delícia para todos os que apreciam histórias sobre os seres humanos. Todas as personagens colocadas e retratadas podem ser protagonistas, cada uma tem o mesmo “tempo de antena” e cada uma é uma peça fundamental para se entender o enredo. Somos o que queremos ser? Modificaríamos algo no nosso passado para preparar o futuro?

Nota final: 9,5/10

Podes ver, mais abaixo, um vídeo sobre o processo de escrita de Dulce Maria Cardoso: