O premiado documentário de Joaquim Pinto passou pelo Festival de Locarno e, em Portugal, pelos certames Queer Lisboa e Doclisboa. Agora, chegou ao circuito comercial de distribuição e é também um dos dois filmes de estreia do novo Cinema Ideal.

O realizador, produtor e engenheiro de som Joaquim Pinto convive há quase 20 anos com o HIV e o VHC, o vírus da hepatite C. A progressão da doença fez com que Pinto se tivesse de afastar do trabalho e, após um período intenso de luta e medicação, decidiu regressar com este documentário onde analisa, em jeito de um diário ou um caderno de apontamentos, a confissão dos seus problemas, das suas dúvidas e da sua opinião sobre os mais variados assuntos, seguindo um ano de ensaios com medicamentos experimentais iniciados em 2011.

Naquele tempo, depois da aclamação com prémios de renome internacional, o novo filme de Joaquim Pinto começou a dar que falar por esse mundo fora. Chegou a Portugal primeiro pelos festivais, e agora, que está já disponível em várias salas do país, a crítica foi à projeção e entrou em êxtase, encontrando genialidades inexistentes em cada frame, e o júbilo povoou por toda a Terra (ou pelo menos, era o que parecia). Muitos cantaram e gritaram, com alegria, ousando dizer: “Bendito o que vem em nome da salvação sempre inglória do cinema português. Hossana! Hossana nas alturas!”.

Serve esta pequena brincadeira de linguística (e que vai de encontro a um dos pontos centrais do documentário, a fé e a crença nos dogmas) para abrir esta análise a E Agora? Lembra-me, e para ironizar com a maneira, quase divina e religiosa, com que a obra tem sido recebida por vários especialistas da Arte. Mas isto também serve para alertar os leitores do seguinte: se o que estão prestes a ler for tão esclarecedor como a não-existência destas linhas (ou a série de epítetos majestosos que a imprensa tem atribuído ao conteúdo do documentário), não se preocupem, porque talvez seja esse o efeito desejado de um filme como este.

Difícil de classificar e incomparável com qualquer outro título de 2014 (no bom e no mau sentido da coisa), E Agora? Lembra-me coleciona um conjunto de fragmentos sobre a vida, a morte, a religião, o cinema, o estado da humanidade, cães, sexo e tantas outras coisas mais. Ah, e os tratamentos infindáveis dos vírus, claro. Numa mistura de sentimentos acolhedores e repelentes, o documentário avança entre os devaneios de Joaquim Pinto, e pela construção mais ou menos harmoniosa que o cineasta decidiu atribuir-lhe.

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O tema delicado da sinopse que tem suscitado debate na imprensa é apenas um chamariz para os sketches mais ou menos relevantes dos outros capítulos da existência atual do protagonista. Mas é um filme ao qual ninguém pode ficar indiferente, sem sombra de dúvidas, pelo seu cariz desconcertante e pela completa independência do realizador, que mostra aquilo que quer mostrar, como o quer mostrar – e aqui voltamos a referir que isto tem também dois sentidos. Tal como as referências cinéfilas, ao trabalho de Pinto e às pessoas que conheceu ao longo da sua carreira, este seu testemunho de vida, que se perde sempre no meio de tantas ideias, pensamentos e problemas, é todo ele um filme fragmentado que versa sobre as peças da vida que são difíceis de voltar a colocar no lugar certo.

E se há quem veja aqui uma reflexão adequada para o estado atual da nossa sociedade, e se há igualmente quem prevê que esta é uma obra prima, nós vamos com mais calma: o que há de melhor em E Agora? Lembra-me, e que não fica afetado pela (por vezes desnecessária) divagação, são as ideias, a liberdade de se fazer aquilo que se quer, tal como a liberdade do espectador de gostar ou não daquilo que vê, e ser erradamente julgado e desprezado por isso. Por isso, pode o filme implicar alguma paciência, para os que gostam de julgar apressadamente aquilo que veem sem o terem feito na sua totalidade?

Sim, mas a nossa disposição poderá ser recompensada, ao menos, com elementos filosóficos e existencialistas que nos darão que pensar durante muito tempo, mesmo que nos tornemos fãs, detratores ou simples opinadores neutrais da película, cujo ponto culminante se encontra no amor de Joaquim Pinto pelo seu companheiro de há quase 20 anos, Nuno Leonel, e nas relações humanas que estabelecem com o oculto e o sobrenatural (com espantosas referências a Cristo e à Bíblia), vizinhos, com amigos, com desconhecidos, e com os fantasmas desta vida.

E Agora? Lembra-me não é a “salvação” do nosso cinema (como se isso fosse realmente um conceito palpável e que o dignificasse), nem Joaquim Pinto é o seu Messias. Mas se todos os filmes nacionais tivessem, pelo menos, um terço das ideias que são evidenciadas ao longo destas 2h44, as coisas estariam mais bem encaminhadas.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título: E Agora? Lembra-me

Realizador: Joaquim Pinto

Argumento: Joaquim Pinto

Elenco: Joaquim Pinto, Nuno Leonel

Género: Documentário

Duração: 164 minutos