E se fosse dada uma oportunidade para viver uma segunda vez ao lado da pessoa que ama? É este um das questões colocadas por Raquel Ochoa no seu sexto livro, Mar Humano, publicado pela Marcador. A luta pela liberdade expressão, as consequências de determinados sentimentos e o impacto da ciência na evolução do ser humano são alguns dos temas escritos e lançados pela escritora.

Mar Humano está longe de ser a estreia de Raquel Ochoa no mercado literário. Não se ouvia falar nada desta escritora, reconhecida pelo Prémio Agustina Bessa-Luís em 2009, há pelo menos dois anos. Mas talvez tenha sido a sua entrada nas redes sociais este ano – pelo menos no Facebook – que a levou a chegar a uma parcela do público que faltava. Se as viagens a levaram a escrever alguns dos seus livros, como é o caso de O Vento dos Outros da ou Sem Fim à Vista, este novo romance dá a conhecer a história de amor entre Samuel e Ema e tem um toque histórico com o retratdo do Estado Novo ao longo das páginas.

Samuel é apresentado como um homem que obteve tudo de mão beijada. A viver num país em que muitos dariam para serem jornalistas, Samuel não tem gosto no seu cargo. A trabalhar no Diário de Notícias, vê o seu país a definhar pela ausência de liberdade imposta em todos os cantos devido às ordens de Oliveira de Salazar, a comandar um país cada vez mais ignorante. Encontra a frescura e a sensação de liberdade nos livros que escreve como escritor-fantasma para uma outra pessoa, que alcançam o sucesso. Em tempos negros, quando tudo podia estar certo para ele, a sua personalidade complexa acaba por colocar as garras de fora e encontra unicamente sentido no sentimento que tem por Ema. Um sentimento que é escondido com unhas e dentes do leitor e da própria Ema mas sentido ao longo das páginas.

Mulher independente e sem medo do que tem pela frente, é assim sentida Ema. Completamente contrária à imagem da mulher nova pronta para casar, estar em casa a cuidar dos filhos e à espera do marido e sem necessidade de aprender crochet e outras inutilidades que as raparigas aprendiam naquele tempo. Interessa-se por física quântica, por todos os artigos publicados fora de Portugal na área das ciências e deseja saber mais. Mas, questiona-se o leitor, porque é que não confronta Samuel, nas diversas ocasiões oportunas, com o amor que sente por ele? Tal como se pode ler no livro, se o amor existe, porquê esperar uma vida inteira para o encontrar?

mar humano

Por mal-entendidos, por erros e também por medo. São algumas das sensações mostradas pelas personagens ao longo da história. Todo o amor entre os dois protagonistas, neste Mar Humano, é fruto de mal-entendidos. Não há entendimento entre os protagonistas, um avanço por nenhuma das partes por interpretações falsas dos compartamentos. Num tempo em que não há liberdade em qualquer campo, seja de expressão ou de ideias, Raquel Ochoa decidiu retratar com clareza os medos do ser humano no que toca ao amor: o de rejeição, de não ser correspondido quando o sentimento está presente nas duas partes.

O pano de fundo, a história de Portugal e os bastidores do jornalismo, são uma relíquia para quem deseja saber um pouco mais e de uma forma suave sobre o nosso passado. São retratados também temas como a amizade, representada pelo grupo de amigos de que fazem parte Samuel e Ema, a culpa no ser humano, pelas ações que uma das personagens tem por fazer parte da PIDE, entre outras que mexem com o interior de qualquer ser humano.

A suavidade é uma das boas qualidades na escrita de Raquel Ochoa. Apesar do tom negro sobre o tema que escreve, há uma escolha cuidada das palavras a serem utilizadas e da construção das frases para não existir um choque com os leitores. Uma suavidade que é contrastada pelas pequenas frases de intervenção que vão surgindo ao longo do livro.

Mar Humano encontra-se, neste momento, em segunda edição em todas as livrarias. Compreende-se o sucesso desta escritora portuguesa no mercado literário. Ao apresentar este novo livro, deu a conhecer uma obra com caraterísticas familiares para uma grande porção dos leitores no nosso país. Quem nunca enfrentou um mal-entendido que lhe custou uma pessoa por quem sentia amor? Para não falar de todos os pormenores históricos em relação ao jornalismo português, com capacidade para abrirem o apetite a todos os que se interessem pelo assunto.

Mar Humano é uma surpresa. Não é brilhante, nem me parece que seja essa a intenção da autora, mas mostra o talento que os portugueses podem mostrar no mercado literário. Samuel e Ema podem ser qualquer casal português, perdido no meio da multidão de Lisboa ou de qualquer outra parte de Portugal e é nesse pormenor que se encontra todo o encanto.

Nota final: 8/10

Podes ver, mais abaixo, uma entrevista dada por Raquel Ochoa para o programa Inferno: