As autoridades chinesas impediram o arranque do Festival de Cinema Independente de Pequim no passado sábado, cancelando a sua 11ª edição. Esta é a mais recente ação do governo de Xi Jinping contra a cultura independente na China, e a última contra o mais importante festival de cinema independente do país.

É conhecida a histórica repressão chinesa sobre os seus artistas e arte independente, mas sob Xi Jinping o cerco à arte e aos artistas desalinhados com o regime tem sido crescente, exercendo uma censura preventiva e uma atuação musculada.

A 11º edição do festival em Pequim estava prestes a começar quando uma força policial cercou a sede do evento no seio da zona artística de Songzhuang e obrigou pessoal e público a dispersar. Li Xianting Wang Hongwei, organizadores do festival, foram detidos e obrigados a declarar que não iriam dar continuidade ao festival.

A censura do governo central fez-se sentir em praticamente todas as edições do festival, cancelando sessões públicas e obrigando alguns dos filmes a serem mostrados em recintos pequenos e privados, cortando o abastecimento de luz ao festival, e ainda confiscando material da organização.

Encerramento do festival

O cancelamento da edição deste ano é até agora a ação mais radical do governo contra este festival e contra o cinema independente chinês, em parte devido à sua importância e relação com a produtora Li Xianting Film Fund, que financia uma parte importante da produção em Songzhuang.

Todavia, a estratégia do governo de Jinping no que diz respeito ao cinema chinês é bem mais complexa e abrangente do que a simples censura dos seus artistas independentes e dissidentes em que a crítica comunicação social mundial, em particular a americana, se centra quase em absoluto. Jinping apostou forte na criação de mega-eventos culturais com um poderoso financiamento estatal, entre eles o Festival Internacional de Cinema de Pequim,  iniciado em 2010.

A intenção parece ser clara – oprimir e abafar a cena cultural independente ao mesmo tempo que se criam novas plataformas controladas exclusivamente pelo estado, com uma desproporção de meios nada menos do que assustadora. Face a esta estratégia, apenas uma forte condenação internacional poderia colocar em evidência aos olhos do mundo os métodos chineses de censura e opressão, e fazer a justiça possível aos cineastas chineses que trabalham há décadas para fazer crescer o cinema livre no seu país.

BJIFF

Mas é precisamente aí que a posição ocidental, seja por parte de cineastas e atores, ou por parte da indústria cinematográfica, se torna inacreditavelmente ambígua e hipócrita nesta matéria. O mundo do cinema, com uma especial menção para Hollywood, recebeu calorosamente o novo festival chinês, ignorando décadas de luta de pessoas como Li Xianting, e, sucumbindo às mais valias económicas individuais ou corporativas, marcam presença em peso no festival governamental. Nomes como James Cameron, Alfonso Cuarón, Oliver Stone, Luc BessonKeanu Reeves, entre outros, já marcaram presença em Pequim.

Se, por um lado, a denúncia da censura na China parece servir interesses políticos no Ocidente, por outro lado, atuar de acordo com os princípios que têm de reger a liberdade na criação artística é inconveniente economicamente para a Indústria do Cinema. E é assim que o cinema ocidental se vende a um potentado económico estrangeiro, e ao mesmo tempo que critica os atos de censura, se desloca alegremente à cidade de Pequim para celebrar uma indústria de cinema propagandista e controlada, enquanto na mesma cidade, realizadores, atores e críticos são presos e impedidos de trabalhar na sua arte.

Até que o cinema ocidental decida finalmente acabar com esta farsa e denunciar a fachada que é o panorama atual do cinema Chinês, boicotando os festivais do regime, teremos todos de nos envergonhar perante mais uma cedência na defesa dos valores e direitos fundamentais à ganância de uma indústria e do capital.