A rubrica “5” pretende trazer aos leitores cinco factos cinematográficos de 15 em 15 dias. Esta semana o Espalha-Factos traz-te uma selecção de videoclips que talvez te surpreendam quando souberes quem os realizou.

Muitos de nós separamos em universos distintos os filmes e os videoclips. É verdade que são diferentes em muitos aspectos, mas no fundo têm muitas linhas que se cruzam. Os planos, os actores, os cenários, os adereços, em ambos os universos estes elementos têm significados, transportam-nos para outra realidade, despertam-nos para histórias e personagens. Será que o facto de acompanhar uma música deve ser tão redutor?

Temos tendência a ignorar este género, seja porque a sua duração é muito menor (a mesma descredibilização que têm as curtas-metragens) ou porque simplesmente (e temos de admitir que) muitos deles se limitam a vender o artista como um produto, sem qualquer propósito artístico. Apesar deste cenário, felizmente, ainda há bons exemplos de videoclips com muito valor artístico e que não têm de ser realizados por “grandes” realizadores para que o tenham. Deixo um exemplo que considero genial e que passa despercebido: Just, dos Radiohead, realizado por Jamie Thraves (que realizou também Charmless Man dos Blur).

David Fincher: VogueMadonna [1990]

A carreira de David Fincher começou pelos vídeos musicais e pelos anúncios publicitários e só depois se expandiu para o mundo do cinema. Realizou vídeos para vários artistas como Sting, Aerosmith, George Michael, The Rolling Stones, Iggy Pop e tantos outros. No mundo da publicidade, trabalhou com marcas como a Coca Cola, Levi’s, Pepsi, Converse, Heineken, Chanel e Budweiser. Para quem não conhece o seu passado, talvez seja surpreendente saber da sua colaboração com Madonna. Tendo em conta o género de filmes a que nos tem habituado, quem diria que as mesmas mãos que dirigiram Se7en – 7 Pecados Mortais ou Clube de Combate poderiam considerar a hipótese de se envolverem num projecto com a rainha da pop (apesar de já terem colaborado anteriormente com os vídeos para Express Yourself e Oh Father).

Vogue é mais do que um simples videoclip: é um marco na história musical e na cultura pop dos anos 90. Não só por ilustrar uma das músicas mais famosas de Madonna, mas também por ter gravado para sempre nas nossas memórias a intemporal e icónica coreografia que acompanha o refrão. Faz referência à Golden Age de Hollywood com os seus cenários art-deco e o preto e branco e está recheado de referências artísticas: desde retratos famosos de estrelas como Marlene Dietrich, Marylin Monroe, Katharine Hepburn, Veronika Lake, Jean Harlow ou Greta Garbo, à recriação de fotografias de Horst P. Horst (que não gostou de ver as suas obras no vídeo por nunca ter dado permissão para tal) em várias cenas.

Gus Van Sant: Under the BridgeRed Hot Chili Peppers [1992]

Gus Vant Sant, sendo conhecido por abordar nos seus filmes temas “complicados”, como a homossexualidade (Milk), o cancro (Inquietos), a marginalização (O Bom Rebelde) e a violência juvenil (Elefante, Paranoid Park), e de os tratar com uma delicadeza e sensibilidade incomparáveis, não é de admirar que tenha sido o responsável pelo vídeo de Under the Bridge dos Red Hot Chili Peppers. A letra aborda o passado problemático de Anthony Kiedis, a sua relação com as drogas e mostra a relação que o músico criou com a sua cidade, Los Angeles: “Sometimes I feel/ Like my only friend/ Is the city I live in/ The city of angels“.

A música foi um sucesso comercial: catapultou a banda para o número 2 da Billboard Hot 100 e o vídeo seguiu os mesmos passos, chamando mais atenção para a música e arrecadando prémios como Viewer’s Choice Award e Breakthrough Video nos Video Music Awards da MTV em 1992.

Anton Corbijn: Heart-Shaped BoxNirvana [1993]

A obra de Anton Corbijn, para além do cinema, também contempla a fotografia e o mundo dos vídeos musicais. Inicialmente começou por se dedicar ao mundo musical, sendo o fotógrafo de bandas como os U2 e R.E.M e realizando vários videoclips, entre os quais se destacam colaborações com os Metallica e os Depeche Mode. Até o seu primeiro filme, Control, se focou nesta área, retratando a vida de Ian Curtis, vocalista dos Joy Division. O realizador chegou a hipotecar a própria casa para conseguir financiamento para o filme, que acabou por ser um sucesso entre os fãs da banda e lhe deu um nome na indústria, garantindo-lhe a possibilidade de continuar a produzir mais filmes.

Apesar de gostar de criar desde o início os seus vídeos, Corbjin cedeu perante as ideias de Kurt Cobain para o vídeo, que considerou muito detalhadas e impressionantes. É visível a inspiração da maior parte dos cenários no filme O Feiticeiro de Oz e é de admirar como não foi censurado, tendo em conta as polémicas referências que tem, como Jesus Cristo crucificado ou uma rapariga num fato do Ku Klux Klan. Na opinião do realizador, tal não aconteceu porque a MTV se concentrou apenas nas cores agradáveis e fortes e não viu para além disso. Em 1994, já depois da morte do vocalista, o vídeo arrecadou dois prémios nos MTV Video Music Awards: Melhor Vídeo Alternativo e Melhor Direcção Artística.

Spike Jonze: Weapon of ChoiceFatboy Slim [2000]

Para além das longas metragens, Spike Jonze também se dedica a realizar videoclips, vídeos de skate e ainda participa em algumas produções como actor. Conhecido por contar as suas histórias com uma atmosfera visual muito peculiar e histórias, no mínimo, “diferentes”, o público nunca sabe realmente com o que conta antes de ver algo assinado por ele.

O vídeo, que chega a ser mais conhecido que a própria música que ilustra, conta com a participação de Christopher Walken, que, para surpresa de muitos, teve formação de dança num teatro musical antes de se tornar actor. Filmado no lobby do Hotel Mariott (agora LA Hotel), ao contrário do Overlook Hotel de The Shinning, o espírito deste parece despertar não os instintos assassinos da personagem, mas o seu talento para dançarino. Ganhou seis prémios na edição de 2001 dos MTV Music Awards e Walken ainda recebeu um Moonman para Melhor Coreografia.

Michel Gondry: Star GuitarThe Chemical Brothers [2002]

Antes de se tornar realizador, Michel Gondry fez parte de uma banda pop-rock, os Oui-Oui, que formou com os seus colegas de faculdade. Os videoclips da banda eram realizados por ele e, quando um deles passou na MTV, Björk viu-o e daí nasceu uma parceria que começou com o vídeo para Human Behaviour e se multiplicou em mais cinco. A projecção do seu talento foi tão notória que abriu caminho para os vídeos publicitários, fazendo anúncios para marcas como Gap, Smirnoff, Nike, Coca Cola, Adidas, Polaroid e Levi’s, esta última que lhe valeu o título de realizador mais premiado por um anúncio publicitário.

A viagem de comboio que protagoniza o vídeo faz o percurso entre Nîmes e Valence e foi filmada em 10 vezes diferentes, de forma a captar as diferentes gradientes da luz do dia. Aquilo que a início parece uma simples viagem de comboio sem qualquer interesse, acaba por se revelar mais que isso – um olhar mais atento apercebe-se de que existe uma sincronização: a frequência com que aparecem os candeeiros, os camiões, entre outros, coincide exactamente com as batidas da música.

* Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.