A penúltima noite de FARCUME foi excelente. Era de esperar que devido à exuberante qualidade de algumas das curtas, outras delas parecessem deslocadas no panorama: mas o facto é que o nível se manteve constante durante as quase 3 horas e meia do festival.

Um dos grandes destaques vai para Entre Ange et Démon, do suíço Pascal Fomey. Em 9 minutos, a originalidade e inventividade foram aparecendo nas mais diversas formas. Se os efeitos especiais, banda sonora e interpretações espelhavam o tom colorido da história, a cinematografia fazia crer que esta era uma rotina. Talvez um tipo de humor mais acutilante ou lampejos de poesia visual tornassem esta (muito boa) curta numa de nível excepcional.

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Rui Falcão, realizador português, presenteou-nos com Balança: e melhor título não poderia ter sido escolhido. Esta curta história de 10 minutos “balança-se” no fio da navalha: por vezes irritante e desagradável, outras vezes brilhante e notável, não deixa, contudo, de ser uma das mais interessantes experiências do festival. Com toques surrealistas “à la” Monty Python, engenhosos usos de camara e uma banda sonora onde se vê personificada, esta curta-metragem sofre apenas de alguma inconsistência no tom: deixar o público sem saber se deve rir ou chorar pode ser positivo, mas a confusão que gera é por vezes indigesta.

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Seguiu-se uma produção algarvia, Lost Haven, de Patricio Faísca. Reconhecido pela curta-metragem Comando, que com apenas 27 euros de investimento conseguiu ganhar um reconhecimento internacional notório, Faísca e a sua produtora (New Light Pictures) aumentam a aposta. De qualidade inacreditável (principalmente tendo em conta o orçamento de 600€), Lost Haven terá assegurado um lugar na história dos filmes de acção portugueses. Adoptando eficazmente um estilo de filmagens de guerrilha, assim como uma cinematografia forte, o único problema desta curta prende-se com uns primeiros minutos de edição algo confusa. Com efeitos especiais que impressionam e uma seriedade que transparece a cada frame, esta é uma obra de autores que vieram para ficar.

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Numa tentativa de diminuir a atividade cardíaca, The Bague, da francesa Sarah-Laure Estragnat, entrou em cena. Ao bom estilo de comédia romântica, as interpretações foram exageradas, o humor foi circunstancial e leve, enquanto a edição e iluminação foram competentes. Nada de especial, apenas 8 minutos de descontraída trapalhada entre casais.

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O meu avô, de Tony Costa, tem uma aura que faz lembrar filmes de uma outra era. Depois da impetuosidade de uma geração mais nova, eis que chega uma curta-metragem mais contemplativa, mas não menos emocionante. Com um desenvolvimento de personagens maravilhoso, um sublime trabalho a nível técnico e interpretações encantadoras (especialmente a do já falecido António Rama), esta é uma obra que poderá emocionar o espectador. Tirando uma ou outra linha de diálogo mais dissonante, esta é uma muito boa entrada em qualquer festival do mundo.

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Mantendo acesa a chama do melodrama familiar, a curta iraniana After 15 Years (já com passagens em vários festivais do mundo inteiro) tomou conta da atenção da plateia durante 3 minutos. Sem grande fogo-de-vista ou pormenores técnicos, esta pequena história faz o seu papel e sai de cena, deixando o público estupefacto. Creio que o seu objetivo foi cumprido.

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David Bonneville apresenta Cigano. Com um currículo invejável (tendo figurado em grandes festivais como os de Locarno, Toronto e Cannes), este é um dos principais favoritos a vencer o prémio de melhor ficção. Irrepreensível na técnica, dando espaço aos atores para criar suspense e desenvolverem as personagens, o realizador faz ainda um trabalho extraordinário em provocar a audiência utilizando somente a camara. Com implicações sociais, morais e um desfecho que instiga o debate entre qualquer tipo de público, Cigano é sem dúvida um dos melhores filmes que já passou no FARCUME.

Seguindo uma rua alternativa, O Cavaleiro (ou na tradução para inglês, The Big Bad Knight) é uma comédia portuguesa de muito bom gosto. Tudo desde a cinematografia até ao uso dos sons e silêncios têm o objectivo de acentuar os desenvolvimentos do enredo. Prestando homenagem a clássicos como O Exterminador Implacável e Regresso ao Futuro, este é, contudo, um filme que conhece a geração em que se insere, sendo por isso um triunfo na maneira descomprometida como encara a narrativa.

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O israelita The Fall of Zipora é competente no realismo que tenta imprimir a uma história, um tanto ou quanto, fantasiosa. Nunca excedendo as expectativas, não deixa de ser uma maneira interessante de introduzir uma ideia que podia ter sido melhor formulada nas mãos de um realizador mais ambicioso.

No dia anterior, o cinema brasileiro tinha sido francamente mal representado com produções de baixo nível: mas O Jogo, de Pedro Coutinho, faz esquecer todas essas más impressões. Com um dos melhores argumentos da noite, uma dupla de protagonistas cheios de química e diálogo “100% natural”, esta é uma história de sedução, suspense e calor ao bom estilo brasileiro. Com uma envolvência em tudo cativante, O Jogojoga” com as expectativas do público e surpreende até ao fim.

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Para terminar a noite, o francês Split Time, foi arrojado e divertido na maneira como enveredou pelas técnicas de storytelling manuais. Com uma boa dose de energia, esta curta foi uma contagiante aventura de 3 minutos.

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Repleta de boas experiências, não surpreenderá que o vencedor possa sair desta noite. Os últimos concorrentes e os vencedores serão conhecidos na noite de sábado, onde se espera um público ainda mais concentrado de forma a votar nas suas curtas-metragens favoritas.