A Storm of Swords (em Portugal: A Tormenta das Espadas + A Glória dos Traidores) é o terceiro volume da série literária A Song of Ice and Fire e até agora devo dizer que foi o livro mais intenso. Este livro mostra que há escolhas que têm consequências e que ninguém (e, neste caso, mesmo NINGUÉM) está garantidamente a salvo em Westeros.

(Aviso: esta crítica poderá conter spoilers, seja para os livros, seja para a série televisiva produzida pela HBO)

Renly Baratheon está morto. A Batalha de Blackwater foi ganha. Tyrion Lannister foi destituído do seu cargo de Mão do Rei e ganhou uma feia mazela da sua batalha. Joffrey Baratheon está agora noivo de Margeary Tyrell. Winterfell foi queimado até às cinzas, no entanto, o Jovem Lobo, Robb Stark, continua a combater as suas batalhas. Arya Stark escapou de Harrenhall e dirige-se agora a um destino incerto. E, entretanto, no leste, Daenerys Targaryen vê os seus aliados a crescer, bem como os obstáculos no seu caminho até ao trono que tanto ambiciona por reclamar.

A palavra correta para resumir esta história é: intensa! Neste livro todos os personagens têm as suas escolhas. Todos têm as suas razões para as fazer, embora nem sempre sejam as mais acertadas. Nesta parte do livro as peças deste jogo movem-se uma a uma à medida que se lutam por variados interesses dos vários lados. Aqui, definitivamente, posso afirmar que todas as personagens em particular mereceram a minha atenção. Seja em King’s Landing, Dragonstone, Riverrun ou no leste, neste livro todos tiveram um papel a desempenhar e tiveram as pagas pelas suas ações. Todas as narrativas que li foram relevantes para mim nesta leitura.

Começo por salientar as duas novas personagens cujos pontos de vista conhecemos neste livro: Jaime Lannister, conhecido como o Regicida, e Samwell Tarly, amigo de Jon Snow na Patrulha da Noite.

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Ilustrado por John Picacio©

Jaime Lannister foi libertado por Catelyn Stark na esperança de esta voltar a ver as suas filhas. O gémeo da rainha regente Cercei Lannister segue na companhia de Brienne de Tarth e do seu primo Cleos Frey para King’s Landing. Jaime é uma personagem que rapidamente cai no desdém do leitor nos seus primeiros capítulos: além das suas constantes observações desagradáveis relativamente ao aspeto de Brienne, ele é-nos apresentado como uma personagem arrogante e horrivelmente egocêntrica. Contudo, quando a sua mão é cortada, algo em Jaime muda radicalmente. Conhecemos as suas razões para ter morto o rei louco Aerys II. Apercebemo-nos do amor que o une à sua irmã gémea, assim como do afeto que ele tem pelo seu irmão Tyrion. Começamo-nos a aperceber de que o Regicida não é a personagem arrogante e egocêntrica que nos é apresentada no começo da história. Sabemos das coisas que ele fez no passado e que o próprio sabe não terem sido as mais corretas, mas não quer dizer que as mesmas não tenham sido feitas sem motivo. Jaime para mim foi, sem dúvida, das personagens mais interessantes desta narrativa e espero para ver que rumo tomará a sua vida no próximo volume.

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Ilustrado por Amok ©

Samwell Tarly é a segunda personagem nova cuja perspetiva seguimos. Tal como Jaime, ele é-nos apresentado de um modo, crescendo depois um pouco como personagem. Sam é aquela personagem que mostra que mesmo os maiores cobardes podem no final conseguir fazer grandes feitos. A selvagem Gilly acaba por ser para ele o “botão” que lhe desperta a pequena coragem que ele não reconhece que tem.

Ainda no Norte, Jon Snow irá aprender as consequências de jogar um jogo duplo: o jovem desertou a patrulha da noite, foi aceite no meio dos selvagens, afeiçoando-se progressivamente a eles (nomeadamente à ruiva Ygritte, com quem acaba por se envolver romanticamente). Contudo, Jon irá manter-se fixo na última ordem que Qhorin Meia-Mão lhe deu, apesar dos seus conflitos internos constantes. Na hora da verdade apesar de sentir que tomou a decisão certa, Jon irá perceber que nem sempre as suas escolhas levam a desenvolvimentos felizes. Estes capítulos foram também dos mais interessantes desta sequência, pelas mesmas razões pelas quais Jaime LannisterJon no final da história tornar-se-à numa personagem promissora para o próximo volume, visto que o jovem começa progressivamente a tornar-se num líder, algo que é reconhecido por várias personagens, nomeadamente por um certo rei.

Bran Stark continua a dirigir-se para norte, ainda tomado como morto por parte da sua família, apesar de ter cruzado caminhos com Jon (não havendo contacto direto entre os irmãos ainda assim) e com Samwell Tarly. O pequeno aleijado continua a descobrir o que consegue fazer com a sua capacidade de warg. No seu ultimo capítulo o rumo que o pequeno tomou foi para norte da muralha, na companhia de um misterioso aliado de mãos frias montado numa rena.

Davos Seaworth também merece uma referência. O ex-contrabandista conseguiu sobreviver a Blackwater, é preso por conspirar para assassinar Melisandre. Mas a sua lealdade para com Stannis é reconhecida pelo mesmo, que o nomeia sua Mão. Ao longo da narrativa a sabedoria e o coração de ouro desta personagem são-nos evidenciados. Vemos também que mesmo a sua lealdade tem os seus limites. Apesar do seu analfabetismo Davos é uma personagem que se esforça pelo seu rei, mas também por fazer aquilo que acha que está certo, o que me leva a avaliar esta personagem de uma forma positiva.

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O Casamento entre Tyrion e Sansa (adaptação da HBO)

Em King’s Landing as coisas complicam-se para Sansa e Tyrion. A primeira, agora está livre do seu noivado com o sádico Rei Joffrey, contudo a jovem é alvo do interesse de outras personagens. Tyrion também não se encontra numa posição favorável: o anão foi destituído do seu cargo de Mão do Rei, não recebeu crédito algum pelas coisas que fez em prol do reino, e a sua feia cicatriz que lhe cobre o rosto, na sequência da Batalha de Blackwater, é mais um fator que faz dele uma personagem constantemente menosprezada quer pela corte, quer pela sua própria família. Estas duas personagens acabam por ser forçadas a casar, o que faz com que a solidão e mal-estar de ambos aumente. Ambos são gentis e corteses um com o outro, contudo, torna-se-nos rapidamente evidente que esta união nunca terá amor. Ainda assim ambas as personagens verão a sua vida a dar uma grande reviravolta após um certo casamento, mas isso será algo que irei abordar mais adiante nesta crítica.

Entretanto, as coisas complicam-se para Catelyn e Robb: o jovem rei casou-se impulsivamente com uma jovem de uma casa vassala aos Lannister, quebrando assim a sua promessa de matrimónio feita a Walder Frey; Robb também começa a ver os seus aliados a reduzirem-se rapidamente, por ter perdoado a traição da sua mãe ao libertar Jaime Lannister para voltar a ver as suas filhas. O jovem lobo tem tido sorte no campo de batalha, mas começa a fracassar nas batalhas que não são lutadas fisicamente. Quando surge uma oportunidade de se redimir para com Walder Frey, Robb dirige-se às Gémeas por forma a casar o seu tio com a filha de Walder Frey que lhe estava originalmente prometida. Contudo, será que o ancião é tão condolente como aparenta?

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Ilustrado por Mathia Arkoniel

Arya Stark continua a ser uma personagem cuja sede de vingança se torna cada vez mais forte nesta narrativa. Apesar de focada em conseguir voltar para junto da sua família, a sorte nesse aspeto não estará do lado dela nesta narrativa. Ironicamente a pequena cruza caminhos com Sandor Clegane, que desertou King’s Landing durante a Batalha de Blackwater. Os dois desenvolvem uma estranha relação de “companheirismo-ódio” em que trabalham juntos no meio de determinadas situações, ambos salvando a vida um ao outro, apesar de os dois demonstrarem, ao mesmo tempo, que não gostam um do outro. Relembro que o Cão de Caça era um dos nomes que Arya tinha na sua lista, mas no final será que esse nome será mantido? Ou irá a pequena apiedar-se do mais novo dos Clegane?

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Ilustrado por Amok ©

Daenerys Targaryen nesta narrativa conseguiu definitivamente recuperar o meu interesse. A sua personagem está cada vez mais forte e favorecida face aos obstáculos que ela visa enfrentar para recuperar o trono do pai. Como no caso de Jon e Jaime os seus medos são explorados de forma mais aprofundada nesta narrativa. Dany começa a desconfiar, com razão, de todos os que a rodeiam. Apesar de os seus aliados aumentarem do dia para a noite (destacando-se os Imaculados ou o jovem e atraente Daario Nahaaris), a jovem Targaryen terá que lidar com traições. E é a traição de Jorah Mormont que a atingirá de forma profunda, visto que Dany já se sentia tensa ao seu lado devido aos sentimentos que o seu ajudante já revelou sentir por ela. Apesar de querer muito perdoá-lo Dany no fim deixa que o orgulho lhe leve a melhor. No fim da sua história, Dany resolve focar-se em governar Mereen o melhor que puder. Mas será que os mereeneses no futuro vão aceitar de bom grado a sua liderança? Será que todos os que tem do seu lado lhe são verdadeiramente leais?

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Ilustrado por nejna ©

Naturalmente que não poderia fazer uma crítica a este livro sem referir os momentos chocantes que deixam marca. O Red Wedding é um evento contorverso e bastante conhecido entre os fãs, quer dos livros, quer da série e não é para pouco. No começo deste capítulo sentimos a tensão de Catelyn à medida que o casamento do seu irmão se desenrola. O massacre que marca este capítulo surge de forma tão repentina, que mal nos deixa aperceber-nos do que se está a passar. Catelyn ainda tenta ser corajosa para salvar a vida do filho, no entanto de nada lhe serve. Esta personagem já era muito emotiva e bastante impulsiva. Ver o seu último e predileto filho a ser assassinado diante dos seus olhos quebra-a de vez. Senti-me assustada e, de certo modo, deprimida ao ler os últimos momentos de vida desta personagem. Sem querer revelar demasiado, esta personagem será novamente referida no epílogo promissor e perturbador que fecha este livro.

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Ilustrado po Conor Campbell©

O segundo casamento que marca esta narrativa é o Purple Wedding. Para minha grande satisfação li a narrativa na qual o Rei Joffrey, é morto no seu próprio casamento por envenenamento. Contrariamente ao Red Wedding, nada nesta narrativa indicaria que esta sequência de eventos estaria prestes a acontecer. A morte do rei é inesperada, mas tem efeitos caóticos, não só na cerimónia em si, mas especialmente nas vidas de Sansa e Tyrion.

Aproveito, então, para regressar a estas personagens, começando neste caso pelo “meio-homem”. Tyrion vê-se envolvido em novos problemas com a morte de Joffrey, sendo logo acusado pela sua irmã e preso de imediato. Toda a raiva que Tyrion sente neste livro é expressa finalmente pelo meio-homem, que já não aguenta mais ser constantemente tomado como um monstro que na realidade ele não é. No seu julgamento Tyrion é tomado de ponta até que finalmente exige um julgamento por combate. Antes de referir outro dos momentos mais chocantes do livro, convém referir ainda outro dos fatores mais memoráveis do livro: a personagem de Oberyn Martell.

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Ilustrado por zippo514 ©

Oberyn é uma personagem cuja perspetiva nunca acompanhamos, tal como Robb, no entanto a partir do momento em que ele nos é apresentado torna-se imediatamente numa personagem deveras interessante. Ele é o príncipe do reino de Dorne, irmão do seu governante, o principe Doran Martell. Oberyn veio a Porto Real à procura de vingança contra aqueles que lhe fizeram mal no passado. Essa oportunidade de vingança surge com o julgamento por combate de Tyrion. Oberyn oferece-se como campeão para o duende por forma a confrontar Gregor Clegane, que lhe violou e matou a irmã juntamente com os seus filhos durante a rebelião de Robert. A cena de combate deixa o leitor em suspense, e a sua brutalidade final deixará qualquer um num absoluto estado de choque.

Tyrion safa-se da morte no final, graças a Jaime, no entanto, o anão jura vingança à sua família após descobrir a verdade perturbadora que Jaime lhe escondeu sobre o seu primeiro amor aos 13 anos de idade. Após ter morto aqueles que o atraiçoaram, o destino de Tyrion agora é incerto. Mas uma coisa descobrimos antes do fim da sua história, numa das minhas passagens favoritas deste livro: “No fim de contas, o Lord Tywin Lannister não cagava ouro.”

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Ilustrado por Akizhao

Quanto a Sansa, o seu futuro também é incerto. A jovem, agora sob a falsa identidade de Alayne Stone está ao lado de Petyr Baelish, também conhecido como Mindinho. O Mindinho é outra das personagens que merece ser referida aqui: a sua capacidade de manipulação, o seu papel como responsável por tudo o que aconteceu previamente, bem como as suas perversões são todos dados a conhecer ao leitor. Ele é um oportunista manipulador que sabe jogar o jogo dos tronos e joga-o como ninguém. O ultimo capítulo de Sansa demostra quão manipulador Petyr consegue ser e que efeitos tiveram os seus dotes de persuasão na louca irmã de Catelyn, Lysa. Agora que Sansa está nas suas mãos, será que é desta que a jovem vai deixar de ser uma vítima e parar de ver a vida como uma canção? Irá Petyr ter alguma influência no seu crescimento?

A Storm of Swords  foi, sem sombra de dúvidas, uma grande narrativa. Não falo somente pelo enorme número de capítulos, mas também por todos os eventos que deixaram marcas nesta história. Terminei esta narrativa com uma série de perguntas na cabeça. Como irá Jon Snow agora jogar, tendo em conta a sua posição como líder da Patrulha da Noite? Para onde irá Tyrion, agora que a sua vida de nobreza terminou de vez? Quão abalada ficará a família Lannister pelas suas perdas? O que será de Sansa, agora que está sob a tutela do Mindinho? O que ou quem irá Arya encontrar em Bravos? Irá Daenerys conseguir establecer e manter a paz e a ordem aparentes em Mereen?

Em suma, esta foi uma narrativa intensa e intrigante, igual aos volumes predecessores de A Song of Ice and Fire. Este livro, para mim, foi a melhor leitura que pude fazer neste Verão. Deixou-me absolutamente vidrada no que acontecerá, depois de todos os danos feitos. Como muitos dos fãs das histórias de George R. R. Martin, este tornou-se no meu favorito desta saga. Agora, após uma tormenta de espadas, seguir-se-à para mim um festim.

Nota final: 10/10