Terminou mais uma edição do Festival Vodafone Paredes de Coura, que revelou como os nomes menos conhecidos do panorama musical ombreiam com os já firmados. Para a história ficará a esgotada noite de ontem com James Blake, Beirut, Goat e Hamilton Leitheuser.

Dia 22, concertos mornos para a fria noite minhota

Apesar de ser sexta-feira, este foi um dos dias de menor afluência do Vodafone Paredes de Coura. Os cabeças de cartaz da noite, os australianos Cut Copy, tinham até a honra de ser uma das poucas bandas a fazer música de dança no palco principal, mas aquilo a que assistimos foi a um concerto morno pontualmente marcado por momentos maiores.

Assim aconteceu com alguns temas de Free Your Mind, último registo de originais, que ganharam muito com as projeções de imagens e com temas mais conhecidos como Take Me Over, Hearts On Fire ou a aguardada Lights & Music.

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Antes, o palco principal recebera os Black Lips, que deram um concerto “soft” para o que já vimos, uma vez que foi particularmente centrado nos últimos registos da banda que já por cá tocou mais de meia dúzia de vezes. Longe de ter sido um mau concerto, a acidez das guitarras, a imprevisibilidade e a irreverência que carateriza o garage rock do quarteto deixaram a desejar. Ainda assim, todo o concerto foi acompanhado por muito mosh e crowdsurfing, duas coisas que em este ano em Paredes de Coura saíram tão bem como os finos.

Ao fim da tarde, e para algo bem diferente, Conor Oberst deliciou os seus fãs, maioritariamente admiradores de Bright Eyes, banda que também fundou, com temas do seu último disco, Upside Down Mountain. A acoompanhá-lo os elementos dos Dawes, que haviam tocado antes no palco secundário, revelando-se uma banda com o talento similar ao de Conor. Um concerto a pedir uma sala fechada para breve, por favor.

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Às duas da manhã, e quando os festivaleiros pedem já outro tipo de música, os Cheatahs, banda inglesa que lançou este ano o seu homónimo disco de estreia, deram uma sova de rock no Palco Vodafone FM, não tão dolorosa como a de Perfect Pussy algumas horas antes.

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Dia 23, memorável noite esgotada

No dia com o cartaz mais forte – a corrida de palco em palco foi frenética – o recinto do Paredes de Coura esgotou para receber os dois nomes mais fortes do cartaz: Beirut e James Blake.

A expetativa para Beirut situava-se no campo da dúvida uma vez que o concerto do Super Bock Super Rock, em 2011 , não tinha sido dos mais bem conseguidos, mas ontem, no belo anfiteatro de Coura, Zach Condon e os seus músicos brindaram-nos com a doçura de temas como Postcards From Italy, Elephant Gun ou A Sunday Smile. O som: impecável. O coração: cheio.

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Seguiu-se a espera de cerca de meia hora por James Blake, é incompreensível que todas as noites houvesse o momento “nada para ver” num festival deste nível. No palco preparam-se três lugares e percebemos que o pequeno grande génio vem com ajuda: um baterista e um guitarrista. Naturalmente enriqueceram os temas de Blake, sobretudo nos mais dançáveis.

A sua música é de introspeção, de viagens connosco mesmos, de admiração pelo talento de um jovem que faz o que quer como ninguém e da retribuição do público com o reconhecimento da sua grandeza, mesmo que no final James Blake tenha ficado um pouco aborrecido por a plateia de Coura não ter feito silêncio para ele gravar um loop de voz. Mas, de onde estávamos, o silêncio e a devoção imperaram e os pelinhos do corpo arrepiaram-se por várias vezes. A iluminação de palco, fantástica, também contribuiu para a magia.


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O alinhamento, que naturalmente se focou mais em Overgrown, premiou as belíssimas covers de Joni Mitchell, Case of You; de Feist, Limit to Your Love ; e de Bill WithersHope She’ll Be Happier. Quem esperava ‘pum-pum-pum’ ficou desolado com a eletrónica minimalista do menino de ouro inglês. Os outros, tiveram certamente os olhos marejados de lágrimas.

Mas o mérito para esta memorável noite começa na aposta da organização do festival em nomes menos conhecidos e que proporcionaram igualmente um grande concerto. Falamos dos suecos Goat que deram um autêntico murro no estômago à cheia tenda do Palco Vodafone FM.

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Misturam o rock psicadélico com os sons “do mundo” (como assumem no nome do seu único disco lançado até agora, World Music de 2012) e conferem à sua música uma aura mística ao apresentarem-se em palco com máscaras e fatos. O ritmo, intensíssimo, leva-nos numa experiência única difícil de descrever mas que pode ser minimamente perceptível se ouvirmos temas como Goatlord, Goatman ou Goathead. Lembremos que historicamente as cabras (goat) eram sacrificadas para oferecer aos deuses. Em setembro haverá novo disco, Commune, e torcemos para que isso se traduza num regresso breve ao nosso país.

Antes tiveramos o prazer de ver o senhor Hamilton Leitheuser a presentear-nos com Black Hours o seu primeiro registo pós-The Walkmen. Com um vozeirão e uma postura contagiantes, a lembrar muitas vezes Frank Sinatra, Leitheuser acompanhado de uma banda ao seu nível brilhou com temas como 11 O’Clock Friday Night, Alexandra ou All Or Nothing At All (de Frank Sinatra, pois claro).

Apesar dos destaques dados não podemos deixar de sublinhar os concertos de Sensible Soccers, The Dodos e Kurt Vile & The Violators que só comprovam como esta foi uma noite de barrigada para os fãs de música.

O Festival Vodafone Paredes de Coura regressa em 2015 ao local do costume, entre 19 e 22 de agosto.

Reportagem de Alexandra Silva (texto) e Beatriz Nunes (fotografia)