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A Recordar: Dirk Bogarde

A rubrica A Recordar, iniciada em 2012, está de volta ao Espalha-Factos. Vamos voltar a relembrar atores e atrizes que tenham marcado a sua época, mas que caíram em esquecimento ou não foram suficientemente reconhecidos. Percorreremos atores de diversas décadas, até à atualidade. Falaremos da sua vida, carreira, papéis mais icónicos e do legado que deixaram.

Colaborou com grandes realizadores, entre os quais se encontram Luchino Visconti, Joseph LoseyRainer Werner Fassbinder, Bertrand Tavernier, Anthony AsquithJohn Frankenheimer, John Schlesinger e Jack Clayton. Nunca foi agraciado com um Oscar, nem houve alguma ocasião em que a Academia se tivesse, sequer, lembrado de Dirk Bogarde nas nomeações para esses prémios. Mas isso não impediu o ator inglês de atingir o estrelato e a fama a nível internacional, tendo sido selecionado por duas vezes para os Globos de Ouro, recebendo também várias distinções de festivais de cinema de todo o mundo.

Tímido e reservado na vida real, Dirk Bogarde revelou, no grande ecrã, uma vastidão de transformações físicas e psicológicas surpreendentes ao longo de mais de quatro décadas de carreira no cinema. O público recorda-o por uma meia dúzia de personagens memoráveis, mas Bogarde foi mais longe do que a opinião pública pretende apregoar: do drama à comédia, ele desdobrou-se em papéis distintos que revelaram inúmeras facetas e máscaras do seu talento que, ainda hoje, permanece impecável e que merece ser sempre recordado.

Nasceu a 28 de março de 1921 em Chelsea, Londres, com o nome Derek Jules Gaspard Ulric Niven van den Bogaerde. Começou no teatro em 1939, no West End, pouco tempo antes de começar a II Guerra Mundial, auto-intitulando-se Derek Bogaerde, para a peça Cornelius, de J. B. Priestley. Mais tarde, acabou por entrar no conflito, e depois do fim do mesmo, o seu agente atribuiu-lhe um novo nome artístico (Dirk Bogarde) que, graças também à sua aparência elegante, o ajudou rapidamente a entrar e ter sucesso no cinema. A produtora Betty Box foi responsável por muitos dos filmes da fase inicial da carreira de Bogarde, ajudando a criar e a cimentar a fama do ator, através de uma imagem de ídolo de matinées que mais tarde se iria expandir para outros géneros cinematográficos e tendências.

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Em 1939 fez uma pequena aparição como figurante no filme Come on, George! naquele que foi, efetivamente, o seu primeiro papel no cinema. Mas seria anos mais tarde, graças à sua nova imagem e reputação, que Dirk Bogarde entraria com sucesso no cinema, com papéis principais e secundários de renome. Começaria a dar nas vistas em alguns filmes dos anos finais da década de 40, como Esther Waters, A Arte de Viver, Once a Jolly Swagman e Boys in Brown. Contudo, seria só em 1950, com A Lâmpada Azul, que começaria a obter uma maior atenção do público e da crítica. Realizado por Basil Dearden e produzido pelos estúdios Ealing, neste drama sobre polícias e ladrões o ator interpretou o bandido e assassino Tom Riley, que irá atrapalhar a rotina de dois agentes da lei (Jack Warner e  Jimmy Hanley).

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A partir daqui a vida profissional de Bogarde nunca mais seria a mesma, somando vários êxitos de bilheteira e aclamações da crítica especializada. Nesse mesmo ano, integraria o elenco de Uma Atrevida Aventura, de Antony Darnborough e Terence Fisher, um drama de mistério onde contracenou com a atriz Jean Simmons. Aqui, o ator é George Hathaway, um artista que se encontra na Feira Mundial de Paris, e que se intromete no estranho caso do desaparecimento do irmão da personagem de Simmons, tentando ajudá-la a encontrar o homem que, aparentemente, não deixou qualquer rasto.

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Em 1952, com o film-noir A Alma de um Criminoso, realizado por Charles Crichton, Dirk Bogarde é Chris Lloyd, um indivíduo que comete um assassínio, e que acaba por se tornar amigo de um rapaz que, como ele, tem apenas um objetivo: escapar às autoridades. O ano seguinte foi prolífero para o ator, tendo participado em dois filmes que se tornaram pequenos sucessos na época: Appointment in London, o drama romântico bélico de Philip Leacock, e Momento de Desespero, thriller de Compton Bennett.

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O ano de 1954 marcou um enorme êxito na comédia, com o filme Diga 33… de Ralph Thomas – que assinou a sequela de 63 e com quem o ator voltou a trabalhar por diversas ocasiões nos anos 50 e 60, em comédias e dramas mais ou menos interessantes. Mas 54 foi também o início de uma colaboração duradoura com o realizador Joseph Losey, que se iria estender por mais de uma década, e com mais quatro filmes: A Fera Adormecida, não sendo a obra mais famosa desta parceria entre o cineasta e o ator, marca a carreira de ambos e o trabalho que iriam executar nos anos seguintes. Trata-se de um film-noir em que um terapeuta, chamado Frank Clemmons, tenta fazer, na sua própria casa, o seu tratamento a um criminoso, interpretado por Dirk Bogarde, e a partir daí gera-se uma série de consequências. Os filmes mais sonantes e originais desta dupla de artistas estariam para breve.

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Nos anos finais da década, há que destacar mais alguns trabalhos notáveis: Cast a Dark Shadow [1955], um thriller de Lewis Gilbert; Perigo nas Sombras [57], da criativa e original dupla Michael Powell e Emeric PressburgerÀ Sombra da Guilhotina [58] de Ralph Thomas, adaptação do clássico da literatura A Tale of Two Cities, de Charles Dickens; e ainda dois filmes para o realizador Anthony Asquith: O Dilema do Médico [58] e A Grande Difamação [59], um drama em que Dirk Bogarde é um veterano da II Guerra Mundial com problemas de memória, que é acusado de ser um impostor.

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Os primeiros anos da década de 60 também foram recheados de grandes colaborações e aclamações. Houve, por exemplo, o filme biográfico Sonho de Amor, de Charles Vidor e George Cukor, em que Dirk Bogarde foi o pianista e compositor Franz Liszt, numa interpretação que lhe valeu uma nomeação para o Globo de Ouro. E em 1961, com Victim, de Basil Dearden (outro realizador que voltaria a trabalhar com o ator posteriormente), um filme de crime britânico marcante e polémico que levantou questões delicadas sobre a homossexualidade (à época ainda considerada ilegal), Bogarde conseguiu a sua primeira de várias nomeações aos BAFTA de Melhor Ator.

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E 1962 foi o ano de Revolta no Defiant, um filme de aventuras de Lewis Gilbert onde contracenou com Alec Guinness, e 1963 começou em grande com Triunfo Amargo, drama musical de Ronald Neame e com Judy Garland. Mas o grande filme desse ano é uma das suas mais famosas personagens, e foi aquela que deu ao ator a primeira vitória nos BAFTA: O Criado, de Joseph Losey, um drama nomeado ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, com argumento do dramaturgo Harold Pinter. É uma história em que diferentes classes sociais são postas em confronto, onde o maquiavélico criado (Bogarde) começa a dominar a vida do senhor a quem serve, manipulando-o à sua vontade, tal como ao espectador.

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Nessa década houve ainda mais três colaborações com Joseph Losey: King & Country, de 1964, nomeado também para Veneza, é um drama passado na I Guerra Mundial que conta a história de um soldado acusado de desertar durante uma batalha, e Dirk Bogarde é o Capitão Hargreaves, que fica encarregue de o defender em tribunal; A Mulher Detective [1966], uma comédia de espionagem burlesca; e Acidente [1967], um drama de crime em que Bogarde, nomeado aos BAFTA, é um professor em crise, que conhece uma estudante que renova a sua esperança na vida, mas que está comprometida com outro seu aluno.

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Ainda a assinalar nos anos 60: o drama romântico Darling [1965], de John Schlesinger, que venceu três Oscars e que deu ao ator o segundo e último BAFTA; Todas as Noites às Nove [67] de Jack Clayton, um thriller sobre um grupo de irmãos que reencontra o pai há muito tempo desaparecido, interpretado por Bogarde, uma personagem que deu mais uma nomeação para os BAFTA; O Homem de Kiev [68], realizado por John Frankenheimer, um filme situado na Rússia czarista sobre um homem acusado de um crime que não cometeu; Viva a Guerra! [69], um filme de Richard Attenborough, baseado no musical homónimo, sobre uma família e a sua relação com a I Guerra Mundial; e a fechar a década, a primeira colaboração com Luchino Visconti, em Os Malditos [69], um filme sobre a decadência de uma família abastada durante os anos do III Reich.

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O lindíssimo Morte em Veneza, de 1971, foi o segundo e último filme de Visconti com Dirk Bogarde, que lhe valeu a última nomeação para os BAFTA. Baseado no livro homónimo de Thomas Mann, é uma das obras mais famosas e adoradas do cineasta italiano, e uma das mais estudadas e analisadas do seu currículo. Nela, Bogarde é Gustave Aschenbach, um compositor que viaja até à cidade italiana para encontrar repouso, distanciando-se do stress do trabalho e das propostas que recebe constantemente. Mas lá será o local da sua perdição, e da decadência psicológica da sua personalidade, ao sentir-se atraído por um jovem rapaz, de nome Tadzio, que representa um ideal de beleza que há muito tempo Gustave queria encontrar. Ao mesmo tempo, uma epidemia assola a região, e as emoções confundir-se-ão com os dramas humanos e filosóficos que o protagonista tem de confrontar.

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Ao longo dos anos 70, Dirk Bogarde continuou a trabalhar com uma variedade de realizadores, com estilos diferentes, que captaram o talento do ator de formas cada vez mais singulares: seja no polémico O Porteiro da Noite [74], de Liliana Cavani, sobre a relação entre um ex-oficial nazi e uma das suas vítimas muito tempo depois do fim do Holocausto, seja em Providence [77], de Alain Resnais, um drama sobre um homem com problemas de saúde e a sua família, que retrata de uma maneira negativa, e que pode não corresponder à realidade. Houve ainda Uma Ponte Longe Demais, um épico de guerra de Richard Attenborough, sobre uma operação falhada dos Aliados na II Guerra Mundial, onde Bogarde é o general Browning.

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A terminar a década, no seu penúltimo desempenho no cinema, Dirk Bogarde aceitou colaborar com o realizador alemão Rainer Werner Fassbinder. O resultado foi Despair, uma história imprevisível de loucura e ilusões. A partir da década de 80, o ator fez menos papéis, acompanhando a paixão pela escrita, iniciada nos finais da década anterior, e da qual resultou mais de uma dezena de obras, entre poesia, memórias, ensaios, etc. No desfecho da carreira, a sua participação no telefilme A história de Patricia Neal [81] valeu-lhe a segunda nomeação para os Globos de Ouro. Depois disto, só voltaria esporadicamente à televisão por duas ocasiões nos anos 80, regressando ao cinema para o seu último filme, Daddy Nostalgie, de Bertrand Tavernier, em 1990. Nomeado para a Palma de Ouro do Festival de Cannes, a interpretação do ator foi elogiada em vários certames de cinema, como o homem de negócios reformado que está a recuperar de uma cirurgia ao coração.

Dirk Bogarde viria a falecer nove anos depois da estreia do seu último trabalho, mas o génio continua vivo e aclamado, passados todos estes anos. Afastado de uma vida de glamour característica de muitas estrelas da sua geração, o ator soube renovar a sua imagem e aproveitar sempre a visão alternativa de cada realizador para contribuir, da melhor forma, nos filmes em que participou. Um intérprete invejável e incontornável do cinema, que acompanhou a evolução da arte e que fez dela a evolução do seu próprio talento.

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