Paredes de Coura, dias 20 e 21: a boa música a casa torna

A boa música a casa torna“. É um dos lemas deste ano do festival que começou anteontem nas margens do rio Taboão com uma das maiores enchentes de que nos lembramos.

1.º dia, a maior abertura justifica o palco principal

Esta humidade dá-nos cabo dos ossos, mas tudo vale a pena naquele que é o festival mais bem situado do país, num cenário encantador, com um cartaz sempre atraente e com um ambiente delicioso que se estende ora no anfiteatro natural, ora na praia fluvial.

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Para tão bonito certame, a honra de abertura em 2014 foi dada a Capicua, que já a meio da tarde tocara no âmbito das Music Sessions, numa ponta romana do concelho. No palco principal a Sereia Louca disparou, de língua afiada, contra o sistema e a favor das mulheres. O público, que lentamente foi chegando, respondeu aos incentivos de Ana Matos Fernandes, acompanhada em palco por uma MC, um DJ e um ilustrador. Bonita forma de abertura.

De seguida, os Cage the Elephant mostraram que daqui por uns anos estarão ali a tocar a outras horas. Com um imenso público a acolhê-los entraram com toda a pica, muito graças à presença demoníaca de Matt Shultz (e juramos que vimos Iggy Pop em palco por várias vezes). Os sons mais rasgados de Melophobia entoados pelas gargantas dos milhares que ao primeiro dia se deslocaram ao palco principal, acompanhados pelas guitarras esgalhadas da banda norte-americana marcaram uma noite de abertura memorável.

Ainda que a sequência não tenha sido a ideal e que muito do público (sobretudo mais jovem) tenha abandonado a frente de palco no final de Cage the Elephant, a plateia acolheu Janelle Monáe e a sua fantástica banda com todo o amor e carinho. A Eletric Lady brindou o público com um cenário irrepreensível, uma voz portentosa e um conjunto de encenações bem conseguidas que fizeram o espetáculo ser mais do que um concerto. Terminámos todos, literalmente, aos pés da pequena grande Janelle que conseguiu num dos seus exercícios de interacção sentar praticamente todo o composto anfiteatro.

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2º dia, 26 mil para ver Franz Ferdinand

Baterias recarregadas, depois de esplanadas e banhos de sol no rio a tarde de concertos inicia-se com os espanhóis Oso Leone, cujo som encaixa perfeitamente no cenário de Paredes de Coura mas a uma hora ainda com poucas pessoas no recinto. Ainda assim são um nome a acompanhar de terras de nuestros hermanos.

No Palco Vodafone FM, já em funcionamento na segunda noite, o trio que dá por nome Panama começa o concerto com algum atraso devido a alguns problemas de som. Trazem da Austrália uma eletrónica refrescante que apenas com dois EPs deixa a pedir por mais, sobretudo depois de uma atuação contagiante ontem ao fim da tarde.

No palco principal entretanto Seasick Steve deleitava e deleitava-se com a plateia portuguesa. À tarde tocara numa serralharia, onde elogiou a beleza das raparigas presentes, passeou à beira rio e tocou com fãs e à noite voltou a desfazer-se em elogios ao público. Com mais de 70 anos, o homem lança o charme com o blues que descarrega na guitarra acompanhada pela belíssima voz amaciada pelo vinho que vai bebendo. Belíssimo momento de comunhão.

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No Palco Vodafone FM Thurston Moore afina a guitarra com aquele som inconfudível dos saudosos anos noventa e de uns Sonic Youth que não nos saem da memória. Está acompanhado de excelentes músicos como ele (entre eles Steve Shelley) e anuncia um novo disco a editar em outubro, The Best Day. Prodigioso na guitarra, envolve-nos e revolve-nos a mente mas temos de correr para Mac DeMarco. “Puto, eu não quero sair daqui“, ouvimos.

Quando chegamos está o enfant terrible de dentinho mentiroso a fazer o checksound. Está já muita gente à espera do autor de Salad Days, cujo tema homónimo abre o concerto onde houve de tudo: músicas delicodoces, sorrisos marotos, um novo guitarrista que se apresenta ao público e fala da sua condução, um técnico de som que é apresentado como um virgem de 16 anos, uma fã de Bob Marley que sobe ao palco para uma jam, uma garrafa de whisky bebida, um baton arremessado com que o miúdo pintou os lábios, um mergulho para a plateia, muito público a subir ao palco e Mac DeMarco a passar-se com os seguranças. Isto não é um concerto, é uma forma de estar. No fim, Mac despediu-se debaixo de grande ovação e começou a arrumar o material.

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De incendiário em incendiário, o Palco Vodafone FM recebeu Thee Oh Sees onde houve também confusão com os seguranças, desta feita com interrupção da música e tudo. John Dwyer tem produzido discos a um ritmo alucinante, condizente com os concertos que costuma oferecer e que ontem não foi excepção. Guitarras ácidas, muita psicadelia e mosh e um concerto suadinho como se quer. Para muitos, um dos concertos da noite.

No palco principal Chvrches foi entretanto desfiando os temas de The Bones of What You Believe  a um ritmo entediante. Com um cenário interessante e aqui e ali um ou outro momento mais curioso, não passou de engraçado, embora tivesse uma plateia cheia, uma vez que àquela hora nada mais tocava. Intrigante, no mínimo.

Na segunda noite, o palco principal encerrou com um dos nomes mais esperados do festival: os escoceses Franz Ferdinand. Têm a cartilha do pop rock mais que estudada e nada falha, desde a disposição em palco, ao cenário, passando pelas roupas que envergam. Não perdem um hit (abrem logo com No You Girls, passam por Do You Want To, Michael ou Ulysses) e mesmo os temas do recente Right Thoughts, Right Words, Right Action são acompanhadas em coro pela imensa multidão.

Houve até um momento em que tudo parecia fora de controlo, com pessoas a serem assistidas pelos bombeiros, assistentes de recinto a travar o derrube de grades de segurança da régie, foguetes luminosos lançados no meio do público. A tudo isso os escoceses responderam com muito entusiasmo, entrega total e um português muito bem falado por Alex Kapranos.

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Contas feitas, o festival é, até agora, dos escoceses, que sendo um dos nomes firmados do pop rock dos últimos dez anos, com várias passagens por festivais em Portugal, não deixa de ser curioso que nunca tenham atuado por cá em nome próprio. Ainda assim, está mais do que evidente, são uma aposta ganha.

O Festival Vodafone Paredes de Coura continua hoje e amanhã com Cut Copy, Beirut e James Blake, entre outros.

Reportagem de Alexandra Silva (texto) e Beatriz Nunes (fotografia).

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