O Mistério das Cartas Anónimas (título em inglês: The Moving Finger) de Agatha Christie, publicado pela primeira vez em 1943, é uma obra que se foca bastante sobre o lado mesquinho e maldoso de uma pequena comunidade onde aparentemente nada acontece. Apesar dessa característica deveras interessante da história, o mistério no qual se enfoca esta história não é tão explorado, e a pouca presença de Miss Marple neste conto deixou-me muito a desejar em relação a esta obra.

Jerry Joanna Burton  são dois irmãos que se retiram por uns tempos para a sossegada aldeia de Lymstock por forma a que Jerry recupere de um acidente de avião que o deixou bastante debilitado. Contudo, apesar de parecer um local tranquilo e oposto à intensa vida londrina, pouco depois da chegada dos irmãos, Lymstock começa a ser assolada por uma série de cartas anónimas cada uma com insinuações maldosas relativas aos seus recetores. O caso dá uma reviravolta extrema com o suicídio de uma das remetentes e piora, algum tempo depois, com o homicídio de uma criada da casa da primeira vítima. Caberá então a Miss Jane Marple descobrir quem é a mente perversa e perturbda por detrás dessa série de tragédias.

A.C. o enigma das cartas anónimas

Na minha experiência anterior com uma obra de Christie,  devo dizer que fiquei deliciada com O Assassinato de Roger Ackroyd. Infelizmente, não senti o mesmo tipo de encanto por O Mistério das Cartas Anónimas.  Mesmo assim o livro não deixou de ter os seus pontos interessantes, que farei questão de salientar.

Mais uma vez Agatha Christie apresenta-nos a várias personagens, cada qual com uma história pessoal heterogénea. Uma das personagens mais memoráveis desta história será, certamente, Megan Hunter, filha da vítima que se suicida misteriosamente após ter recebido uma das maldosas cartas. Megan é uma jovem olhada como uma pária social, tanto por parte dos habitantes de Lymstock, como por parte da sua família (a sua mãe, casada com outro homem, pouco quer saber da sua primogénita). Apesar de induzir uma certa pena no leitor, ainda assim, Megan tem um certo carisma que fez com que eu de certo modo me afeiçoasse a ela.

Gostei do protagonista cuja perspetiva acompanhamos ao longo da narrativa. Jerry, apesar de ao incício nos parecer um tanto arrogante e pouco sociável, quando o mistério começa a assolar Lymstock, ele ora vai ajudando a polícia, ora vai conversando com os habitantes da pequena comunidade. Perto do final Jerry revela um lado mais suave que me fez ficar um tanto enternecida pelo romantismo que ao longo da história era pouco evidente nele. A sua irmã Joanna também não é má personagem, embora não desempenhe nesta história um papel particularmente relevante.

Os diálogos que Jerry tem ao longo da narrativa remetem-me para um elemento que foi bastante salientado ao longo da obra foi a mesquinhez e coscuvilhice maldosa que faz “o pão nosso de cada dia” dos habitantes de Lymstock. Muitos deles (nomeadamente as mulheres) são mesquinhos e, deveras, maldosos uns para com os outros, o que revela um dos fatores negativos de se residir num meio pequeno e de certo modo deixa em aberto muitas hipóteses sobre quem poderá ser o autor ou autora das cartas anónimas. Infelizmente, senti muito pouco enfoque na tentativa de descobrir quem escreve essas cartas: o foco na mesquinhez da aldeia também acaba por desviar um pouco as atenções do mistério, algo que numa história deste género mereceria maior atenção da parte do detetive e/ou do protagonista.

Um outro elemento que devo dizer que me dececionou um bocado, foi a introdução tardia Miss Jane Marple, algo que acontece somente no capítulo 9 do livro. Sinceramente, esperava ver muito mais desta personagem simpática, mas assustadoramente perspicaz, que parece ter um conhecimento vasto sobre as características negativas da natureza humana. A pouca presença da idosa deixou-me triste por não a ver mais em ação ao longo da história, tendo acabado este fator por limitar (bastante) o seu envolvimento nesta história. Aliás, o mistério só começa progressivamente a levantar as suas cortinas a partir deste mesmo ponto do livro, o que não nos permite explorar uma grande variedade de possibilidades ao longo da narrativa.

Em relação ao(à) verdadeiro(a) culpado(a) deste caso, devo dizer que perto do fim, pouco depois do aparecimento de Jane Marple,  todas as minhas suspeitas estavam debruçadas sobre uma certa personagem, da qual ninguém suspeitaria. Porém, para meu espanto, vi a minha especulação a ser deitada por terra. O(A) culpado(a) estava mesmo lá diante dos meus olhos. Não me atingiu como sendo um twist particularmente chocante, mas mesmo assim não deixa de ser surpresa.

Em suma, apesar de revelar bastante sobre a mesquinhez e falsidade que tende a existir numa pequena comunidade, e de mostrar as consequências de quando alguém “mexe nesses cordelinhos”, devo dizer que O Mistério das Cartas Anónimas não conseguiu ter em mim o mesmo impacto que teve a minha primeira leitura de Agatha Christie, nomeadamente pelo pouco enfoque que foi dado ao mistério. Ainda assim, espero ver mais ação da parte de Miss Marple nalguma das próximas obras de Christie, que pretendo ler no futuro.

Nota Final: 6.5/10