Se tivesse de escolher algo que mais distinguisse o Bons Sons dos outros festivais de verão, teria de ser a sua localização.

A aldeia de Cem Soldos, situada no topo de uma pequena colina, parece que foi feita à medida para acolher este evento. Nos primeiros dias é difícil orientar-se pelas estreitas ruas, mas ao terceiro já conhecemos os cantos à casa. Sabemos que há uma fonte com água fresca na praça principal, ao pé dos bancos à sombra das árvores. Sabemos que a saída nas traseiras do Café da Tonita vai dar à rua onde se vende artesanato, ou que podemos tirar a ferrugem aos braços na mesa de matraquilhos no posto de informações.

ruaartesanato

Todos os locais parecem ter a sua identidade e o seu propósito.

O auditório, com a sua atmosfera fresca e bancos almofadados, é o sítio privilegiado para visitar à tarde. Com a mostra de curtas a acontecer a partir das 16h30, nunca um festivaleiro teve uma ocasião tão boa para descansar as pernas. Também o material apresentado nos faz ficar. “só mais esta”, pensamos nós depois de ver uma engraçada curta de 10 minutos. A seguinte já é mais séria, e afinal de contas não tão curta quanto isso, mas este é um conceito original que foi uma aposta ganha.

Também amigo do cansaço é o palco acústico, que serve para bandas amadoras se mostrarem ao mundo. Localizado numa pequena sala sombria, compartilha o sítio com a fila para as casas de banho mais “confortáveis” do festival. Todos repararam em primeira mão neste palco porque, simplesmente, não há grande coisa que se possa fazer enquanto esperamos que outras pessoas tratem das suas necessidades fisiológicas. Boa estratégia. Entre bandas com bastante potencial, outras mais relaxadas aspeto da música, e até mesmo discípulos de Quim Barreiros na arte de criar letras sexualizadas (algumas bandas deveriam efetivamente ter uma bolinha vermelha no canto do palco), é uma autêntica caixa de surpresas escutar este palco durante alguns minutos.

palcoacustico

Com menos profanidades, mas também ele um micro-palco, é o espaço dentro da igreja. O seu dourado altar serve de fundo a intimistas atuações. É dos mais peculiares pontos deste festival. Logo ao lado está o centro de exposições, onde podemos encontrar um bonito trabalho fotográfico sobre importantes artistas portugueses destes últimos anos.

igreja

A eira nomeia o palco que se encontra à sua frente, e alberga uma solarenga esplanada. Lugar privilegiado para olhar o pôr-do-sol. As oliveiras à sua volta lembram-nos que estamos bem perto do centro de um tradicional Portugal.

eira

Oposto à amplitude deste último, o palco Giacometti está encaixado no meio das pequenas casas pintadas de branco. É nesta intimidade que atua Noiserv. Tal como o palco, também o imenso público está apertado dentro da estreita praça. Entra David Santos, e é bastante aplaudido. Começa a tocar, e igualmente as suas músicas são agraciadas com palmas. “Pedia-vos que não batessem palmas nesta parte da música, porque estou a gravar a guitarra e assim descontrolam o ritmo da gravação…”. Parece que as palmas vão ter de esperar um minuto. Num concerto sem surpresas, ficou provado que Noiserv é um dos grandes nomes da música portuguesa, pela qualidade e originalidade do som que apresenta.

noiserv

No entanto, mesmo não recebendo a maior parte dos mais vistosos nomes, o palco Rei é o Lopes-Graça. Imponente no topo da praça central, é caracterizado pela enorme clareira onde as pessoas podem dançar, escutar, socializar. Estão rodeadas por esplanadas, casas com flores a trepar as paredes, habitantes locais… Ao fim da tarde Guta Naki apresenta aqui aquele que alegadamente é o seu último concerto. A carismática vocalista Cátia Sá Pereira interage constantemente com o público.

gutanaki

Se os palcos têm sempre um considerável número de pessoas a assistir, também os cafés e tascas não ficam atrás. Entre a adega S. Sebastião ou aquele bonito quintal sem nome que vende sangria barata, há imensos pequenos lugares que nos proporcionam um agradável ambiente de partilha e de intimidade.

adega

Sejam relacionados ou não com a música, todos estes curiosos espaços comunicam connosco de uma maneira tão intensa quanto os artistas, e são sem dúvida um enorme trunfo que nos vai querer fazer voltar à aldeia de Cem Soldos, com ou sem festival Bons Sons.