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Onde está a Humanidade nos campos de concentração?

Se Isto É Um Homem, escrito por Primo Levi, é um dos livros obrigatórios, um must read, em qualquer altura da nossa vida. Uma história que ultrapassa aquilo que pensamos sobre o quotidiano dos campos de concentração e a força do regime nazi. 

Logo no início da obra somos arrebatados com um poema do autor, que desvenda alguns sentimentos que vamos ter ao percorrer o livro:

“Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.”

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Rapidamente ficamos concentrados, ansiosos e pensativos com o resto da história. Primo Levi foi um dos sobreviventes do Holocausto e esteve no campo de concentração de Auschwitz.

Levi foi capturado no final de 1943, altura em que o livro começa. Dividido por capítulos que não têm, necessariamente, uma ordem – como explica o autor -, a descrição dos pormenores deixa qualquer um arrepiado e horrorizado com o que se fazia nos campos de concentração. E quem já esteve num, consegue visualizar o que é descrito e quase imaginar-se naquele tempo, naquele momento, naquela situação. É impossível ficar indiferente, é impossível parar de ler.

Carregado de fortes excertos, escritos maravilhosamente bem, Levi resume aquilo que faz um campo de concentração a quem lá foi vítima do Holocausto. “(…) o Lager – campo de concentração – é uma grande máquina de nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais”

Com o número 174 517 tatuado no braço, a vida no campo de concentração não foi, de todo, fácil. Várias passagens do livro retratam uma força inabalável para sobreviver, mas, ao mesmo tempo, a perda da fé na humanidade e do que ali podia acontecer. Fazer amigos não era algo possível, ter uma cama só para si também não. Fome, frio e calor uma constante. Por vezes, era preferível estar doente. Por vezes, Levi preferiu morrer nas câmaras de gás.

Este é um livro fantástico, um livro que questiona a humanidade e testa todos os limites que um homem pode ter. É um livro emotivo, um testemunho na primeira pessoa de quem por lá passou e as marcas que ficaram para sempre – Levi suicidou-se em 1987. É um livro sobre o poder da transformação, sobre a  força política e o que ela faz à mente humana. Se Isto É Um Homem demonstra que nenhum livro sobre o assunto poderá superar e “florear” o que ali foi vivido. Este é um livro que emociona e que fica, para sempre, na nossa memória.

10/10

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