Segundo dia de Fusing Culture Experience, com tréguas da nortada, mas também com menos público, parece-nos. Pelo que ouvimos entre o público este é o dia menos bom do festival, talvez com os nomes menos mediáticos, e isso traduz-se ligeiramente no tipo de público, ora fã acérrimo ora errante. Quem continua a gozar de imensa popularidade é o espaço gastronómico, sempre com enchentes, a revelar-se uma excelente aposta da organização.

Norton

À modesta multidão que assiste ao primeiro concerto do dia no Palco Fusing, o vocalista Pedro Afonso pergunta “quem é que já ouviu o nosso disco novo? Quem é que aqui conhece os Norton?“. São bastantes, mas também são muitos os curiosos que parecem agradados com o indie-rock enérgico da banda albicastrense. O berço dos Norton estará na genética da banda, com o mérito de terem chegado onde chegaram vindos de Castelo Branco, onde até a Internet pode ser insuficiente para ajudar a divulgação, e mesmo assim alcançaram o hertz e até a televisão – o single Two Points fez parte do sucesso de audiência Dancin’ Days, na SIC. Mas o caminho da banda no palco figueirense faz-se sem se importar com êxitos, numa energia constante que se reflecte num público que infelizmente não cresce muito ao longo do concerto. Terminam com Coastline, de Layers of Love United, com a sensação de que é um álbum que entrou melhor no ouvido do que o mais recente álbum homónimo.

Nice Weather For Ducks

Os Nice Weather For Ducks até tinham tudo pronto para fazer a festa – balões, explosão de confettis – mas a banda de Leiria levou algum tempo, provavelmente mais do que supunha, a fazer o concerto que queria. O fim de tarde desta sexta-feira trouxe menos gente ao Fusing, comparando com o dia anterior, e o concerto dos Norton ainda a decorrer no palco principal não deu grande mancha humana no Palco Experience. Contemplar uma plateia um tanto desfalcada não é muito encorajador, e talvez a banda tenha acusado essa pressão nos primeiros temas do concerto. Foram enérgicos, mas estavam ligeiramente perdidos, com alguns problemas de som à mistura. Lá encarrilaram, e o final do concerto dos Norton trouxe uma migração de público que mudou tudo. A música dos Nice Weather For Ducks é animada, cheia de woah, uh, ah-ah e outras onomatopeias que mesmo quem não conheça nada da banda consegue reproduzir, e o concerto viveu muito dessa energia. 2012, aquela música, foi o ponto alto de uma festa que já ao longe ainda se conseguia ouvir, de coros mais ou menos afinados, mas sobretudo recarregados de energia para o resto da noite.

peixe : avião

Os Peixe : Avião entraram em palco quase às escondidas, numa escuridão profunda que deixa confusos até os que já esperavam pela banda no Palco Fusing. A música começa e as luzes pouco se acendem, e a vista cá de baixo é de umas meras silhuetas à frente de umas fortes luzes claras. Os Peixe : Avião podem parecer umas sombras, mas a música está corpórea como nunca. Depois da travessia do deserto de três anos depois do lançamento de Madrugada, estão sóbrios e hipnotizantes e a reacção do público é de incredulidade, ouvindo-os num silêncio que não é de ignorância, mas de respeito. Nem mesmo A Espera É Um Arame, que recebeu considerável airplay em 2010 e 2011, faz despontar uma manifestação mais efusiva, mas os aplausos no final de cada canção são fortes e decididos. O vento começa a levantar novamente na foz do Mondego, e cria o ambiente sóbrio e austero que a música dos Peixe : Avião pede. Cada vez menos há razões para os chamar de Radiohead portugueses – a banda de Braga tem já o seu caminho trilhado, e o concerto no Fusing serviu para o provar.

A Velha MecânicaMiura

O cartaz do segundo dia do Fusing já era bastante claro quanto ao seu cariz – rock, sem dúvidas ou surpresas, e os concertos de A Velha Mecânica e Miura  foram uma prova suficiente da aposta da organização. Enquanto os Miura, banda da terra, trazem um pequeno exército consigo, afinado e com as letras na ponta da língua – e um vocalista carismático e enérgico com muita facilidade em convencer os resistentes -, os A Velha Mecânica não têm tantas facilidades e precisam de batalhar mais para colher algumas reacções. Ainda assim, o público vai-se mantendo no Palco Experience, e é mais do que um nicho a manter-se presente.

Cícero

Cícero chegou à Figueira da Foz como um dos poucos nomes internacionais a integrar o cartaz do Fusing, portanto a expectativa era naturalmente elevada. A suas Canções de Apartamento, álbum de estreia, criaram um buzz suficiente para o colocar no palco principal do festival e com provavelmente a melhor plateia até aquela hora, no segundo dia. Talvez não tenha enchido as medidas de todos os que assistiram – ouve-se pelo público que melhor seria se tivesse vindo SILVA, brasileiro por brasileiro -, mas nota-se um esforço de Cícero, nos arranjos que fez com a banda portuguesa que trouxe. Estreia até uma canção nova, mas sente-se que o público talvez preferisse um tropicalismo mais bossa-nova, mais confortável com a visão típica que temos do outro lado do Atlântico. Cícero não se encaixa, talvez ainda cause estranhamento, e por isso o concerto não foi tão celebrado como muitos esperavam.

Capitão Fausto

Quanto a celebrações, os Capitão Fausto dificilmente terão concorrência no festival inteiro, com um concerto extraordinário a fechar a música no Palco Principal. Tomás Wallenstein, vocalista de rosto quase sempre coberto pelos cabelos, enfrenta uma multidão que não está ali pela Teresa, a canção pop que colocou a banda nas bocas do mundo. As canções de Pesar o Sol, álbum de 2014, estão bem ensaiadas e mostram que a repercussão do novo registo foi além da crítica. Assumidamente com sons psicadélicos, parece-nos ouvir Sheep dos Pink Floyd, e depois talvez seja Any Colour You Like, e claro as parecenças com os Tame Impala, mesmo que Pesar o Sol rejeite ser o contrafeito de Lonerism – e com razão. As canções sucedem-se com instrumentais devidamente arrastados, e a Célebre Batalha de Formariz e Nunca Faço Nem Metade são cantadas de corações ao alto pelo público. Há espaço para Luís Montenegro, dos Salto, participar numa canção como prenda de aniversário, e um falso final em que a bateria, os sintetizadores o baixo e as guitarras puderam brilhar sozinhos. Terminam com Sobremesa, de Gazela, e Teresa nem faz falta. O concerto teve o tempo certo e a intensidade recomendada.

 

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1945

Fotografias: Pedro Zambujo