O dia amanheceu com uma chuva que ameaçava desencorajar os mais entusiastas. O caminho até ao recinto principal foi feito com roupas ensopadas em água e a tentar evitar poças de lama que minavam toda a ilha. Pelo caminho, entre uma chuva forte e uma multidão desorientada e molhada, perguntava-se onde podíamos adquirir impermeáveis.

Alguns festivaleiros com lama até – literalmente – aos joelhos reclamavam da imprevisibilidade do tempo de Budapeste. Outros nem pareciam dar pela chuva e moviam-se como se nada fosse. Afinal, é só (muita) água. O mau tempo continuou até às 17 horas, altura em que ficou ligeiramente mais ameno. Mas nem a chuva nem as poças de lama afastaram quem queria ver Bastille no palco principal – um dos poucos sem cobertura.

Foi com Overjoyed, o primeiro single da banda, que os primeiros raios de sol do dia começaram a aparecer. Uma feliz mudança que viria a manter-se o resto do dia. Dan Smith, compositor e vocalista da banda, dá as boas-vindas ao sol e diz-lhe que escolheu a música ideal. E nós agradecemos ao sol e voltamos-nos novamente para o palco onde a banda apresenta uma das suas mais famosas covers, No Angels, da original No Scrubs, da famosa girlsband americana de R&B e soul dos anos 90, TLC.

bastille

De velho para novo, o quarteto londrino apresentou Blame, uma das novas músicas do EP Oblivion, com lançamento previsto para dia 8 de setembro no Reino Unido e que, pela reação do público, será um dos novos sucessos do álbum. Things We Lost in the Fire, Of the Night e Flaws denunciaram uma plateia cheia, que levantava os impermeáveis ao som das batidas Chris “Woody” Wood (baterista) e do próprio Dan Smith, que pulava com uma energia inesgotável de um lado para o outro no palco. Mas foi a música Icarus que levou a plateia ao êxtase, quando o vocalista desceu do palco para percorrer o corredor entre a multidão e subir a uma das torres em frente ao palco principal. O concerto encerrou com Pompeii, um dos temas mais conhecidos da banda, que combina traços de electro e techno pop com indie rock.

É vez de dar lugar a Lily Allen, que chega ligeiramente atrasada, mas que logo nos faz esquecer a espera com LDN e surpreende-nos com o seu poder em palco. Música após música, a artista britânica apresenta-nos as músicas que já conhecemos, com batidas mais fortes e interpretações mais emotivas.

Not Fair, do álbum It’s Not You, It’s Me, ouve-se com imagens de troncos e pernas masculinos, numa clara associação ao hino do prazer feminino e é interpretada com o grupo de dançarinas que acompanham a cantora. Depois de Hard Out Here e Bass Like Home, a produção soltou bolas de praia (algumas gigantes) que o público atirava de um lado para o outro. Tudo muito bonito, não estivesse o recinto cheio de lama e depressa as bolas se tornaram um transmissor de lama, o que estragou o ambiente da cover dos Keane, Somewhere Only We Know.

A luta contra as bolas (que o público tentava atirar para fora e os seguranças teimavam em voltar a enviar para a plateia) prolongou-se mais umas duas músicas até perceberem que a brincadeira não estava a resultar e deixarem que as bolas caídas ficassem ali, paradas. Descontraída, faladora, sorridente e surpreendida com a quantidade de pessoas e bandeiras na plateia, Lily Allen entrega-nos Our Time e fecha com uma Fuck You cheia de alma.

O público pede mais e a cantora acede com um sorriso nos lábios, não fosse Smile, o seu primeiro single, a encerrar um concerto que revelou uma Lilly Allen com mais dance e electro e menos pop.

Minutos depois do final do concerto são poucas as pessoas a sair do recinto do palco principal e muitas a entrar. São Macklemore & Ryan Lewis que tocam e a afluência é tão grande que este é o único concerto em que não conseguimos ver o palco, por mais voltas que demos – é o que dá ser baixo e estar rodeado de nórdicos e pessoas com um ADN abençoado para ver concertos.

Lá conseguimos ir espreitando por um dos ecrãs e assim receber o duo de hip-hop norte-americano, que toca pela primeira vez na Hungria. A música vencedora de dois Grammys, para melhor performance rap e melhor música rap, é logo a segunda música a tocar: falamos, claro está, de Thirft Shop, cujos primeiros acordes atraíram todos os que ainda não se tinham deslocado até ao palco principal. A qualidade do som não era a melhor e muito do que Macklemore dizia tornava-se impercetível. Em Same Love, o rapper americano apelou à paz e união do Mundo enquanto a multidão dançava com as mãos no ar em perfeita harmonia. And We Danced poderia perfeitamente descrever o final da noite, que contou com a repetição do maior sucesso da banda, Can’t Hold Us, dançada e berrada a plenos pulmões, com Owuor Arunga, o trompetista, a conquistar a multidão.

Ovações feitas e vozes roucas, fechava-se assim o quarto dia do festival.

Reportagem: Liliana Borges, do The Budapest Times, em colaboração especial com o Espalha-Factos.