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Robin Williams: 10 grandes personagens

O Espalha-Factos recorda o trabalho do génio através de uma seleção de dez dos seus melhores papéis no cinema. Uma lista para recordar os momentos mais altos de uma carreira atribulada, mas que marcou a cultura popular.

Ator multifacetado e original, Robin Williams começou na comédia (e com um grande êxito na TV, com a série Mork & Mindy, spin-off do popular Happy Days), mas a pouco e pouco, a sua carreira demonstrou que o ator não tinha apenas talento para fazer rir, com os seus improvisos explosivos e a sua enorme capacidade de inventar e desconstruir personagens e situações bizarras do quotidiano. No cinema, Williams foi mais longe e brindou-nos com óptimas prestações humorísticas, dramáticas, sombrias e duvidosas.

Deixou este mundo aos 63 anos, e um legado que inspirou e divertiu várias gerações, no pequeno e no grande ecrã, e em vários palcos de todo o mundo. Em sua memória, selecionámos aqueles que consideramos serem os dez melhores desempenhos do ator no cinema, e que mostram a variedade de personagens que Robin Williams conseguiu tornar eternas. Entre papéis mais e menos conhecidos, partimos à descoberta de um artista complexo e por vezes desajustado à cena de Hollywood – mas que conseguiu triunfar nos momentos mais inesperados.

1. – Um Russo em Nova Iorque (Moscow on the Hudson) – Paul Mazursky [1984]

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É um dos papéis mais injustamente esquecidos de Robin Williams, e um dos que melhor justificam a versatilidade tantas vezes associada ao seu talento, que lhe permitiu assumir tantas e tão distintas “máscaras” físicas e psicológicas. Foi um dos desafios mais difíceis da carreira do ator, mas conseguiu criar, a partir dele, uma personagem notável, que lhe valeu uma nomeação para os Globos de Ouro. Ele é Vladimir Ivanoff, um músico russo que consegue escapar à dura vida que levava na URSS quando ele e os outros artistas vão numa excursão até Nova Iorque.

Lá, Vladimir recebe proteção das autoridades e começa a habituar-se a uma nova vida, totalmente diferente dos hábitos cinzentos do seu país. E a transformação de Williams é impressionante: nas primeiras cenas, filmadas com atores russos, ele assume o papel na íntegra, tendo aprendido a falar realmente a língua para atribuir mais credibilidade ao papel e aos sentimentos da personagem, que provoca tristeza e gargalhadas, à medida que vai conhecendo melhor o novo mundo que tem de enfrentar.

2. – Bom Dia, Vietname (Good Morning, Vietnam) – Barry Levinson  [1987]

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O desempenho que lhe valeu a primeira de quatro nomeações aos Prémios da Academia permanece como uma das mais celebradas. Williams é Adrian Cronauer, um locutor irreverente da Rádio do exército americano que, com o seu humor cáustico e anárquico, se torna num enorme sucesso entre os soldados, em plena guerra do Vietname – e um alvo a abater pelos que querem manter as tropas concentradas na sua principal função (e que é demasiado importante para ser vítima das piadas imprevisíveis de Cronauer).

A loucura é total, nas cenas em que assistimos às emissões em direto do seu programa, adorado por muitos e desprezado por alguns membros específicos e poderosos da elite militar, que tentam calar esta voz a todo o custo, e impedem a alegria de entrar no ambiente cada vez mais duro que se vive no Vietname. Porque entre a comédia e o drama da hierarquia do exército, Bom Dia, Vietname fala também da tragédia da guerra e da forma como o protagonista faz com que o humor ridicularize esses temas sérios, que muito facilmente podem ser abatidos com o poder da gargalhada.

3. – O Clube dos Poetas Mortos (Dead Poet Society)Peter Weir [1989]

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Mentes jovens serão sempre as mais recetivas a qualquer tipo de revolução: e este filme de Peter Weir aponta o dedo à educação. Quando o professor de inglês John Keating, propagandeia um estilo de aprendizagem espontâneo e que desafia convenções há muito estabelecidas, os seus alunos embarcam numa viagem de auto-descoberta e insurreição contra o status quo.

Polarizador, principalmente no que respeita à maneira como aborda o ensino escolar, este filme é, não obstante, mais uma das provas da enorme versatilidade de Williams. Consta que a personagem o agradou uma vez que representava o professor que, enquanto estudante, sempre tinha sonhado ter. Fazendo uso dos seus dotes de comediante e imitador, emprega tanta paixão nos seus discursos utópicos que nunca as ações dos jovens e os seus destinos são postos em causa. Porque o ator não se tornou apenas no seu tutor de sonho, mas no de todo e qualquer estudante.

4. – Despertares (Awakenings) Penny Marshall [1990]

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Adaptação do poderoso relato homónimo do Dr. Oliver Sacks, Awakenings não ficará para a história como uma brilhante recriação de um extraordinário acontecimento. O filme segue o despertar de vários doentes afetados pela epidemia de Encefalite letárgica dos anos 20. A então revolucionária L-DOPA permitiu a recuperação destes pacientes, que despertam de 40 anos de estado catatónico. A abordagem da realizadora à obra de Sacks é no mínimo criticável, no entanto, miraculosamente, as performances de dois atores salvam este filme, e dão à história a envolvência emocional possível tendo em conta a realização limitada de Marshall.

Robin Williams é Dr. Malcolm Sayer, o quase patologicamente tímido neurologista que investiga estes pacientes, e consegue iniciar um tratamento faseado com L-DOPA. Williams, juntamente com DeNiro, que dá vida a Leonard Lowe, o primeiro paciente a despertar, fazem emergir de um pobre argumento adaptado cenas poderosas e carregadas sentimentalmente como só dois grandes atores poderiam conseguir.

5. – O Rei Pescador (The Fisher King)Terry Gilliam [1991]

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The Fisher King é uma história de redenção firmemente ancorada nas performances de Jeff Bridges e Robin Williams. O primeiro é Jack Lucas, um locutor caído em desgraça após conhecer as devastadoras consequências de uma das suas emissões que resultam em várias mortes. A sua espiral autodestrutiva é parada inesperadamente por Parry (Robin Williams), “líder” de um bando de sem abrigos.

Jack interessa-se pela vida de Parry quando percebe que o seu estado se deve à morte da mulher deste, provocada pelo mesmo evento que precipitou a sua “queda”. À medida que Jack conhece melhor Parry, transforma a recuperação deste estranho marginalizado na sua própria cruzada de redenção.

As interpretações de ambos são irrepreensíveis. Robin Williams é notável no papel de sem abrigo convalescente com igual dose de humor e drama. É igualmente notável Mercedes Ruehl, na pele de Anne, companheira de Jack, num papel que lhe valeu um Oscar.

6. – AladdinRon Clements e John Musker [1992]

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Numa altura em que as princesas da Disney reinavam os anos 90, surgiu uma das mais vibrantes e coloridas aventuras dos mesmos estúdios de animação. Aladdin conta a história de um simpático ladrão que se apaixona pela princesa do seu reino. Esta paixão leva-o numa jornada repleta de perigos e personagens obscuras: mas também de um novo amigo!

O Génio, interpretado por Williams, que terá gravado cerca de 16 horas de diálogo improvisado para a personagem, é uma das mais icónicas e divertidas personagens do universo Disney. Carregado de energia e boa disposição este será, sem dúvida, um dos papéis mais icónicos da carreira do ator. Robin Williams sempre foi apologista da chamada “loucura humana”, e este é um papel que, sem as barreiras da realidade, expandiu a sua criatividade a um nível ilimitado. O resultado é uma personagem que, embora secundária, eleva e mitifica o filme em que se insurge.

7. – As Faces de Harry (Deconstructing Harry) – Woody Allen [1997]

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A presença de Robin Williams nesta comédia de Woody Allen (uma das mais originais da sua extensa filmografia) pode ser curta, mas não deixa de ser marcante na carreira do ator. Isto porque ele dá vida a uma ideia extremamente divertida do cómico, num filme que parte de Harry Block, uma personagem altamente neurótica (ingrediente fundamental na mitologia Alleniana), que sofre um bloqueio criativo, e na fita, vemos várias ideias do protagonistas para histórias mais ou menos baseadas na sua própria vida a tornarem-se em minúsculas narrativas de carne e osso, misturando-se com a própria realidade e os problemas que Block tem de enfrentar.

Uma delas é a pequena situação que o ator protagoniza, uma espécie de sketch com menos de 3 minutos de duração em que ele é um ator de cinema que, de repente, fica… desfocado. Sim, no mais literal sentido do termo: de um pequeno jogo de palavras, a ideia surreal ganha vida graças a Williams e àquilo que consegue desenvolver através do ridículo desta sua pequena personagem. E mesmo que tenha uma participação tão reduzida (tal como outros atores muito conhecidos que reencarnam outras loucuras da imaginação de Block), ninguém consegue ficar indiferente ao momento “out of focus” de Robin Williams, e a todas as hilariantes consequências que irão acontecer ao seu desgraçado personagem.

8. – O Bom Rebelde (Good Will Hunting)Gus Van Sant [1997]

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Algures nos anos 90, uma dupla de jovens atores escrevem uma história sobre um génio com mau feitio. Nas mãos do realizador Gus Van Sant, O Bom Rebelde teve uma considerável aclamação por parte do público e críticos. Recebendo 9 nomeações para os prémios da Academia, venceu apenas em duas categorias: melhor argumento original e melhor ator secundário.

Robin Williams ganhou o seu único Oscar por uma performance vivamente humana: aliás, grande parte do fascínio que este filme ainda suscita é devido à sua monumental prestação. Reverberando com emoção, seja ela positiva ou negativa, Williams leva a personagem Sean Maguire muito para lá da folha de papel onde as suas falas estavam escritas. Muito do seu diálogo foi improvisado, mostrando a profundidade e naturalidade da conexão com o excêntrico psicólogo que retrata. Enternecedor e, contudo, hilariante, esta é sem dúvida uma das melhores e mais cativantes performances do final do século XX.

9. – Câmara Indiscreta (One Hour Photo)Mark Romanek [2002]

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Quando referimos a versatilidade de Robin Williams, facilmente exemplificamos com Insomnia ou talvez até Good Will Hunting. No entanto, o seu retrato de um revelador fotográfico obsessivo e desconcertante em One Hour Photo, constitui provavelmente a maior transformação de sempre de Williams. Uma transformação que nas mãos de Romanek vai até ao mais ínfimo detalhe, ao mais pequeno maniqueísmo com que este personagem se apresenta.

Sy fica obcecado com a vida do que considera a família ideal, Nina, Will e o seu filho Jake, colecionando fotografias deles que preenchem a sua casa. Ao mesmo tempo que a sua vida é abalada ao ser despedido pelas consequências da sua prática voyeurista, Sy é destroçado pela revelação de que a família perfeita não é tão perfeita assim, e a sua obsessão transborda decisivamente, levando-o a antagonizar Will, que vê como o responsável pela destruição de algo que considerava perfeito.

Williams resiste notavelmente a apelar à simpatia do público, algo que invariavelmente caracterizou grande parte do seu trabalho, tornando Sy críptico e consequentemente o filme muito mais interessante.

10. – Insomnia – Christopher Nolan [2002]

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Um dos filmes mais subvalorizados do adorado realizador Christopher Nolan tem uma das performances mais estranhas e obscuras de Robin Williams. Neste envolvente thriller, o protagonista (Al Pacino) é um detetive que está a investigar a morte de uma mulher, e o ator é o assassino que faz uma proposta ao polícia para ambos conseguirem escapar dos demónios e dos crimes que cometeram. Além de formar uma dupla impecável com Pacino, patente na tensão que encontramos nas variadas cenas em que ambas as personagens e os seus segredos se cruzam, Williams proporcionou uma nova amplitude à sua carreira, conseguindo, em Insomnia, mais uma excepcional vitória como ator dramático.

Invulgar, negro e revelador, Insomnia é uma sólida história de culpa, traição e vingança, onde Robin Williams brilha num papel inesperado, mas que lhe assenta como uma luva, e que mostra como ele também conseguia dissecar o lado mais maquiavélico e perturbador da alma humana.

Artigo redigido por:
Diogo Simão
José Pereira
Rui Alves de Sousa

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