A Viagem dos 100 Passos
Fotografia: Divulgação

A Viagem dos Cem Passos: nem a comida impede os clichés

O novo filme de Lasse Hallström é uma simpática, mas vulgar, incorreta e desinspirada abordagem ao mundo da cozinha, através de um conto de fadas desnecessário que, apesar disso, conseguimos ver com algum deleite. Estreia esta semana.

A família Kadam viaja da sua Índia natal para uma pequena aldeia no Sul de França, e o pai decide abrir lá um restaurante indiano, tendo o filho Hassam como um dos principais cozinheiros desse estabelecimento. Contudo, terá de competir com o restaurante de Madame Mallory (Helen Mirren), localizado na mesma rua, e que possui uma estrela Michelin e uma grande reputação na pequena sociedade daquele local. A competição começa, mas o amor lá se intromete pelo meio, e depois, todos sabemos como é que isto vai acabar.

Conta com produção de Oprah Winfrey e Steven Spielberg, e a história é assinada por Steven Knight, a partir de um suposto best-seller mundial. Mas talvez A Viagem dos Cem Passos não precisasse de tão altas individualidades a cooperarem na sua execução, porque o resultado final poderia muito bem ser da autoria de qualquer tarefeiro menor da indústria cinematográfica. É estranho ver o autor do incrível Locke a escrever um argumento com muitas pontas soltas e formatado, mas esse tipo de história adequa-se perfeitamente ao seu realizador, que volta a pegar em temas e construções narrativas básicas e muito lineares, como antigamente, onde o charme e o encanto assumem o papel principal. Mas afinal, quem ainda se lembra do banalíssimo Chocolate (que apenas vivia da química forçada entre Juliette Binoche e Johnny Depp) e do risível Uma Vida Inacabada (mais o seu urso em CGI)?

Pois, é que A Viagem dos Cem Passos é mais do mesmo, só que se calhar, com ainda mais falhas. E o facto de, ao contrário do que indicia o título e a história, nem cem passos distanciam os dois restaurantes rivais (que competem ferozmente no início da trama e que depois acabam felizes para sempre no final), é apenas uma gota de água no meio de um oceano de clichés, estereótipos e facilitismos que vão ao encontro dos propósitos bonitinhos que se pretendem conjugar no desfecho.

THE HUNDRED-FOOT JOURNEY

Por isso, A Viagem dos Cem Passos é só mais um dramazinho fofinho e elegantezinho como dita a “receita” de sucesso de Hallström, dotado especialista para esse género de filmes cuja qualidade visual tenta disfarçar a superficialidade de todos os outros elementos cénicos e narrativos. Mas há que dizê-lo: é um filme muito agradável de se ver, apesar de nos fazer revirar os olhos com uma ou outra futilidade suprema de vez em quando (um dos que mais danificou a minha mente foi a frase: “Tu só consegues cozinhar com o coração“). E pode parecer pouco a retirar de uma experiência cinematográfica, mas… o que se há de fazer, se já é tarefa árdua para tanta fita mainstream conseguir, sequer, dar-nos a pequena porção de entretenimento que esta obra consegue?

Porque se a presença constante de comida (que em certos momentos consegue desempenhar melhor a sua personagem que uma boa parte do elenco dito humano) não consegue impedir a pura e dura existência de convencionalismos na realização, nas interpretações e no argumento, ao menos consegue atribuir-lhe um toque distinto que até nos faz despertar algum interesse para o mundo da restauração que está a ser retratado (mesmo que não corresponda à realidade, e esteja repleto de floreados e certas reviravoltas mais adequadas a uma telenovela do que às funções da profissão).

Este é, por isso, um filme praticamente industrial, que apenas consegue proporcionar um visionamento suportável, destacando-se a grandiosa Helen Mirren num papel que não se coaduna com o seu enorme talento, mas que faz com que se destaque de todos os outros atores –  alguns meio desorientados naquilo que estão a fazer, e outros que cumprem o seu papel básico da melhor maneira possível. Pode haver grande falatório sobre estrelas Michelin neste filme, mas para o campeonato das estrelas no cinema, não chega apenas a comida, com ótimo aspeto, que o ecrã nos apresenta. Mas é melhor do que nada.

Em suma, e para nos adequarmos às temáticas do filme, termina-se esta análise com uma pequena alusão gastronómica: A Viagem dos Cem Passos pode ser comparado a um qualquer snack bar de uma estação de serviço perdida no meio da auto estrada. Paramos lá apenas por alguns minutos com o objetivo de comer qualquer coisa e esticar as pernas, para depois voltar a seguir viagem e esquecer o pouco ou nada que encontrámos naquele local recôndito. Mas enquanto lá estivemos, passámos alguns agradáveis minutos. E é esse o efeito desta experiência, porque quando saímos da sala de cinema, só queremos continuar a nossa vida quotidiana, esperando, mais tarde, encontrar filmes que não sejam apenas para usar e deitar fora.

Lasse Hallström é, por isso, o realizador-BIC-laranja-ou-cristal por excelência, contando com já vários anos de experiência nesse tipo de cinema, que se vê bem e se esquece rapidamente. Mas podemos e devemos pedir mais do que um filme que “cumpre o seu objetivo e que dá para passar um bom bocado”. Porque para este verão, o/a leitor(a) tem à sua disposição outros lançamentos nas salas que são bastante superiores à mediania, e que poderão ser mais interessantes e recompensadores do que este A Viagem dos Cem Passos. A escolha é sua.

6/10

Ficha Técnica:

Título: The Hundred-Foot Journey

Realizador: Lasse Hallström

Argumento: Steven Knight, a partir do livro de Richard C. Morais

Elenco: Helen Mirren, Om Puri, Manish Dayal

Género: Drama

Duração: 122 minutos

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