Filipa Fonseca Silva é a primeira autora portuguesa a atingir o Top 100 da Amazon, graças à versão inglesa de Os 30 – Nada é como sonhámos, que arriscou traduzir e distribuir no mercado internacional, numa aposta individual e vencedora. O Estranho Ano de Vanessa M., com a chancela da Bertrand, é o segundo romance da criativa publicitária, contando já com inúmeras críticas positivas, incluindo do The Thursday Interview e do The Chicklit Pad. Uma história sobre a viagem de autodescoberta de uma mulher que se vê encurralada e decide refazer a vida, traçar o seu próprio destino e partir com esperança de encontrar a tão desejada felicidade.

Vanessa M. é casada com o seu primeiro amor, tem uma filha de oito anos e um emprego estável na área da Gestão, mas está longe de se encontrar satisfeita: a vida conjugal já não é o que era, a filha única mete-lhe os nervos em franja e o seu chefe é um ditador de vão de escada – já para não falar de ter de aturar uma mãe controladora, uma colega de trabalho detestável a quem chama a «Noiva de Satã» e Diana, uma amiga de infância que, embora desejasse ver pelas costas, se assume como sua melhor amiga. Assim, num momento de esgotamento acaba por tomar uma decisão que a leva ao escritório de um psiquiatra que terá de ficar convencido que Vanessa é mentalmente sã. Contudo, mais importante que se esquivar a quatro meses de prisão efectiva é libertar-se das amarras da rotina e da pressão das expectativas e opiniões dos outros, pelo que embarca numa viagem sem retorno depois da tia hippie a incentivar a viver o mundo que há em si.

“Imaginava muitas vezes como seria a vida se fosse orfã, solteira e sem filhos. Poder fazer o que quisesse, às horas que quisesse, com quem quisesse. (…) Apenas olhando a parede em frente durante longos minutos, sem ter de ouvir «O que é que tens?». Como seria? Como seria ser livre? Absolutamente livre?”

Com uma linguagem despretensiosa, mas divertida, que permite ao leitor criar empatia imediata, entre momentos trágicos e cómicos, Filipa Fonseca Silva convida o leitor a assistir à crise de meia-idade de uma mulher, que descobre que nunca é demasiado tarde para colocar tudo em questão. Com personagens credíveis, com problemas como toda a gente, mais ou menos graves, é possível compreender que nem tudo o que parece é, que por detrás de atitudes aparentemente cruéis podem existir indivíduos profundamente magoados que não conseguiram ultrapassar os seus traumas e que os julgar nem os orienta no caminho certo nem nos traz qualquer satisfação. Mas Vanessa M. está determinada a não viver das infelicidades dos outros, a resistir ao caminho fácil da autodestruição, e à medida que reflecte sobre o sentido da vida aprende a ser uma mulher mais feliz, uma mãe mais atenta, uma filha mais compreensiva, uma trabalhadora mais apaixonada e uma amiga mais tolerante.

Pelo caminho, esta mulher lutadora não deixa no entanto de tomar decisões pouco abonatórias, de cometer pecados, de se sentir perdida e frustrada e de se refugiar em relações amorosas pouco douradoras. No entanto, e porque por vezes é mais difícil enxergar a verdade quando estamos demasiado perto, todos os altos e baixos com que inevitavelmente se confronta ensinam-lhe que nunca será nada se não tiver amor. E que a felicidade que procura não terá qualquer interesse se não puder ser partilhada.

Quanto às consultas com o psiquiatra, são apenas uma maneira de entendermos que às vezes basta falarmos com alguém, mesmo quando ninguém tem respostas para dar, porque a verdade é que um empurrãozinho chega e as respostas, essas, só se encontram no nosso interior. Não há receitas nem curas milagrosas: há apenas a vontade de ser mais e melhor, a capacidade de não nos conformarmos nem deixarmos que a sociedade nos dite tudo e, se pelo caminho recebemos pedras, apanhamo-las e construimos castelos. Qualquer pessoa é capaz de entender o que este livro tenta transmitir. Todos nós nos deparamos com fases menos boas, sabemos que nada é preto ou branco e que viver é tão bom como confuso e esgotante.

Filipa Fonseca Silva descreve a natureza humana tal como ela é e mesmo com alguns clichés não deixa de cativar o leitor e de o instigar a pôr a sua própria vida e o que o rodeia em perspectiva. “Porque a busca da felicidade não tem prazo”.

Nota: 7/10