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Quem assistiu hoje aos vários programas da SIC, assistiu à manifestação emocionada de uma família que perde um ícone importante. Pessoas que estiveram no nascimento do canal, que aprenderam com Emídio Rangel como se faz a televisão do séc. XXI, pessoas que outrora, na sua inocência e juventude, viram nele um líder mobilizador e enérgico, um exemplo a seguir.

No entanto, não vos vou falar da geração de jornalistas que cresceu com Rangel nas redações, que aprendeu com ele um ofício e um modo de vida. Vou-vos falar da minha geração. Eu nasci em 1991, três anos depois de Emídio Rangel ter criado a TSF e um ano antes de lançar a SIC.

Não conheci o cinzentismo da era que se vivia antes disso. Cresci num Portugal espevitado por um jornalismo interventivo, ativo. Um jornalismo com espaço para a investigação, para o povo e para os mais desfavorecidos. Um jornalismo que saiu dos ministérios para as manifestações, dos gabinetes para as praças públicas. Aprendi a viver num país estranho onde um canal de informação é líder de audiências na TV paga.

Este jornalismo é o jornalismo lançado por Emídio Rangel, alguém vivaz e sem medo, sem papas na língua até aos últimos momentos em que o pudemos ver. Alguém que programou o Big Show SIC, que afirmou ser capaz de vender um Presidente da República como quem vende um sabonete, mas que rejeitou o Big Brother por achar que este punha em causa a imagem e a credibilidade da sua estação. E a verdade é que, até hoje, nenhum dos Big Brothers da SIC colou.

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Este homem foi tão ousado que transmitiu em horário nobre um documentário (Esta é a sua Televisão, de Mariana Otero), que punha a nu de forma pouco elogiosa os bastidores da televisão que dirigia. Os bastidores desta que foi a nossa televisão. Crescemos a acordar cedinho para ver o Buereré ou, nos dias de sorte, o genérico vibrante do ecrã de todas as cores, acompanhámos as maratonas do Dragon Ball Z, e fomos obrigados pela avó a ver as telenovelas brasileiras.

Emídio Rangel lançou a informação que nos fez entender o porquê de erguermos bandeiras brancas por Timor Lorosae, que deu expressão à guerra das propinas, que foi o megafone do buzinão da ponte. Lançou uma televisão tão à frente que obrigou as outras a irem atrás dela. A televisão no mundo que mais rapidamente chegou à liderança. E foi uma liderança absoluta durante 10 anos consecutivos.

Ensinou-nos que o impossível é uma desculpa para fracos, que até os mais fortes sucumbem às doenças e que até os mais inteligentes se enganam de vez em quando. Porque, no fim de contas, mesmo os mais enérgicos e vivazes continuam a ser pessoas. Permitiu-nos sonhar frente a um pequeno ecrã, a acreditar que um dia também nós poderíamos fazer a diferença, dar a notícia, libertar a verdade pela força das palavras. Porque foi assim que aprendemos o jornalismo, de cada um e ao serviço de todos.

Eu sou da Geração Rangel. E hoje só posso terminar com um sentido e sincero obrigado. Em nome da minha infância, dos meus sonhos e de tudo o que aprendi com alguém que nunca cheguei a conhecer.

Foto de destaque: Público.pt