A Bertrand Editora publicou no início de julho A Marca de Todas as Coisas da escritora Elizabeth Gilbert. Alma Whittaker, a protagonista, é daqueles casos em que a diferença pode não ser uma mais-valia no século XIX. Dotada de um conhecimento extraordinário, o leitor acompanha a sua vida, em mais de 600 páginas, recheada de aventuras e alguns percalços mas sente, com mesma intensidade, o lado negro desta escolha.

Elizabeth Gilbert é um daqueles casos raros que alcançou o reconhecimento do público – tendo uma legião de admiradores e dos reconhecidos hatters de qualquer obra que alcance sucesso a nível mundial – por um dos seus trabalhos mais fracos, Comer, Orar, Amar. O leitor é desafiado, a partir da primeira página, a viajar com a escritora por uma viagem por Itália, Índia e Indonésia com três objetivos em cada país: aproveitar a vida na Itália, a espiritualidade na Índia e encontrar um balanço entre estes dois lados na Indonésia, personificado pelo amor pelo homem brasileiro por quem Elizabeth se apaixona. A partir do momento em que foi indicado pela Oprah Winfrey como um dos seus livros escolhidos, o sucesso bateu à porta da escritora e o resultado ressaltou à vista de todos ao permanecer nos primeiros lugares da lista do The New York Times Best Sellers durante 187 semanas.

Por experiência pessoal, foi necessário uma segunda leitura para conseguir entender o sucesso por detrás do enredo de Comer, Orar, Amar. Vai de encontro à necessidade de uma grande parte da população, ao deixar o marido com quem tem uma vida monótona, uma carreira que a satisfaz razoavelmente e uma casa pelo qual não tem um amor tão elevado. Não há lugar para materialismos ao abandonar a sua estabilidade e viajar para se encontrar a si mesma. Mas a escrita em si é demasiado simples, quase em forma de diário e com poucas conclusões brilhantes. Fica a vontade e a ação que lhe valeram reconhecimento e vendas extraordinárias. Mas a partir desse momento decidi continuar a acompanhar o percurso literário de Elizabeth Gilbert com Comprometida – com mais qualidade pela investigação sobre a história do casamento – e com a Filha do Mar, livro de fição e um dos primeiros da escritora. E é neste livro de fição que começa toda a diferença em relação a Gilbert.

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Apesar do sucesso girar à volta dos livros de memórias, a qualidade desta escritora está nos livros de ficção. Uma qualidade que me faz questionar o olhar atento do público aos seus livros de memória ao invés da ficção.  A Filha do Mar, publicado pela Bertrand Editora, apresenta a história de duas ilhas do Maine – Fort Niles e Courne Haven – separadas por 30 quilómetros e por várias guerras. A protagonista, Ruth Thomas, regressa a Fort Niles depois de uma estadia num colégio privado para se juntar ao pai e aos homens trabalhadores da ilha. A partir daí, começamos a acompanhar a história de Ruth e a forma como se apaixona por Owney Wishnell, da ilha vizinha. Escrever sobre protagonistas peculiares e pouco usuais, pelo menos para o lugar onde habitam, é uma caraterística na escrita de Elizabeth Gilbert e volta a confirmar-se em A Marca de Todas as Coisas, com Alma Whittaker e o seu universo botânico e isolado em White Acre.

A Marca de Todas as Coisas é um fruto de trabalho de investigação da escritora para além de todo o enredo envolta do romance de Alma por Ambrose, o rapaz espiritual que aparece na sua casa e lhe rouba o coração. Mas não existe lugar para a vulgaridade típica como na maioria dos enredos românticos que se encontram nos romances “cor-de-rosa” à venda em qualquer livraria. Neste livro, o leitor acompanha a vida de Alma mesmo antes de nascer. São apresentados os feitos do pai, Henry Whittaker, para alcançar a fortuna elevada e para começar a sua própria família, culminando no nascimento da primeira e única filha – de sangue, pelo menos.

Desde muito cedo, é incutido a Alma uma única caraterística que dita toda a sua personalidade: curiosidade. Essa caraterística é incutida pela mãe Beatrix, com naturalidade holandesa. Com uma grande extensão de jardins e terras em casa, a famosa White Acre no início do século XIX, Alma inicia o seu percurso em botânica desde muito cedo ao estudar todas as ervas, aves e mesmo animais e, com a leitura de todos os livros da biblioteca em casa, torna-se uma das mulheres mais inteligentes da sua época. Mas, ao longo da leitura, é dado a conhecer o lado negativo do conhecimento: Alma é tão diferente das raparigas da sua época – uma diferença estabelecida a partir do momento em que conhece a sua amiga e vizinha Retta – em questões físicas, de personalidade e em questões intelectuais que acaba por perder o verdadeiro sabor de um amor ou de um romance. Sem falar do casamento, que só acontece tardiamente.

Encontra a ideia de amor unicamente nos livros, tal como o sexo – ilustrado unicamente num livro erótico que encontra na sua adolescência na biblioteca e acompanha-a para o resto da vida. Quando todas as raparigas eram criadas para serem donas de casa, para cuidarem dos maridos e terem filhos, Alma foi criada para questionar o mundo, para comandar White Acre. Algo que acaba por acontecer quando Beatrix falece e faz a filha prometer que nunca vai abandonar o pai. Ser diferente neste século pode trazer glória pessoal e, nesta história, não é celebrada por quase ninguém que acompanha Alma Whittaker.

A Marca de Todas as Coisas

Nesta Marca de Todas as Coisas existe um pequeno número de personagens que importam à narrativa. É dado a conhecer os pais da protagonista, fortes em personalidade e diferentes à sua maneira, Hanneke, a governanta holandesa capaz de incutir algum amor maternal e George, que acompanha desde sempre os feitos de Alma na área da botânica e rouba o seu coração no início da história. Há um grande número de personagens, a começar nos grandes jantares dados em White Acre, até Alma quase acabar sozinha, a conversar com um dos seus ídolos no que diz respeito à teoria sobre a evolução das espécies, Alfred Russel Wallace. Cada personagem tem a sua importância em determinada altura. Prudence Whittaker, a menina adotada pela família Whittaker, é uma das personagens mais marcantes ao mostrar a Alma que, apesar da falta de intimidade entre as duas, os laços familiares são mais fortes do que qualquer relação. Todos servem para mostrar à protagonista a riqueza dos seres humanos.

Alma Whittaker é conservada, até meio do enredo, em White Acre. Vemos o seu esforço para administrar a propriedade e a fortuna do pai, a isolar-se cada vez mais do mundo e a refugiar-se nos seus estudos sobre musgo – tão pouco interessante para a maioria dos estudiosos em botânica na altura – até encontrar Ambrose Pike. É uma transformação revolucionária na sua vida, por desejar encontrar uma espiritualidade divina na sua vida terrena. Para a mente de Alma, tão formatada para os factos e para a ciência, é um desafio aceitar este ser humano por quem acaba por se apaixonar. Todas as perguntas que têm sobre ele acabam por levá-la ao chamado paraíso pela maioria dos homens, o Taiti. O leitor é levado por estas viagens e percorre o mundo com a protagonista, trazendo toda a riqueza ao livro.

Elizabeth Gilbert mostra em todos os momentos o trabalho que teve ao construir este enredo, por todas as informações que coloca à medida que escreve sobre a vida de Alma. Todas as plantas, todos os tipos de musgo, os pormenores dos lugares e tantos outros detalhes que oferecem uma riqueza a esta Marca de Todas as Coisas. É uma caraterística presente em todos os seus outros livros de ficção.

As mais de 600 páginas desta obra são uma viagem e descoberta do mundo em paralelo com a descoberta do ser humano pelo olhar de Alma. É, até certo momento, uma celebração da diferença numa época em que era tão pouco tolerada. O lugar de Alma não é um fogão de uma casa, ter filhos ou esperar pelo marido, ao contrário da irmã Prudence. Apesar desta defender a abolição da escravatura, no mesmo tempo em que cuida de seis filhos, o lugar de Alma é a descoberta crua. É uma exploradora inata de todos os assuntos, de todas as pessoas.

A Marca de Todas as Coisas é uma surpresa para todos os que não esperam mais depois de um sucesso como Comer, Orar, Amar. Vale a pena ser lido e explorado, apesar de ser tão extenso para os que gostam de perder pouco tempo com um livro. O sucesso bateu à porta de Gilbert pelo livro errado, isso é certo.

Nota: 8/10

Podem ver, mais abaixo, uma pequena apresentação do livro: