As Aventuras de Marina Pons

As Aventuras de Marina Pons: o desejo lascivo

É verdade, dei em promíscua”, lê-se a certa altura. Esta podia ser a frase-chave e libidinosa que resume As Aventuras de Marina Pons de Lázaro Covadlo. Mas é óbvio que este livro vai para além do mundo paralelo sexual que paira sobre as personagens que lhe dão vida. Ao invés dessa frase, é esta a que marca a capa do livro: “os amores e devaneios de uma mulher apaixonada e de um stripper fingidor”. Quando lemos isto pela primeira vez não imaginámos as histórias subjacentes a esta descrição. E as histórias são promissoras. Fica para (ver) ler.

Enredo

A maior parte do livro é alimentada pela voz interior de Marina Pons. Ao longo dos capítulos, salvo um ou outro que assumem a voz de outro personagem, Pons relata a sua experiência enquanto mulher inquieta, sempre à procura da sua verdade. Esta órfã espanhola na casa dos trinta, professora de Biologia, encontrou no tio Hilário – proprietário de um negócio de venda de material hospitalar – a sua família e apoio emocional e financeiro.

O livro, para além de viver sobre a vida atual de Marina Pons, vive também do seu passado com José Serra, “um exibicionista profissional com um sorriso tímido”, tal como descreve a contracapa deste livro. Agora morbidamente morto, Serra teria sido a luz ao fim do túnel que era a vida de Marina. Só ele era “capaz de fazer cócegas na minha imaginação e na minha memória”, diz a certa altura. Mas foi o que a levou a fascinar-se por ele que também o levou à morte.

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A escrita pura e dura de Lázaro Covadlo

Em As Aventuras de Marina Pons, Lázaro Covadlo chama as coisas pelos nomes. E não há medo ou preconceito nisso. Numa escrita que se poderá dizer pura, dura e crua, Covadlo confronta-nos com a realidade destas personagens sem filtro algum para atenuar os seus pensamentos e ações.

A narração desta história parece uma catarse contínua da protagonista. Marina continuava a usar a aliança de casamento, mesmo com o marido enterrado pelos esteróides. Ao contar esta história na primeira pessoa, Covadlo dá uma oportunidade de clarificação da mente desta personagem e tenta levá-la, nesta história peninsular, até a uma saída do labirinto que se tornou a sua cabeça.

Outro fator importante no sucesso deste livro é a profissão ambulante de Marina. Desta forma, Marina assume vários modos de si própria, quase como um assumir de vidas diferentes em sítio diferentes, o que a torna mais complexa mas, ao mesmo tempo, mais confusa. Ao longo do caminho vamos ouvindo as suas reflexões, seja no que toca à felicidade alcançado por bens materiais ou bens espirituais seja sobre as suas aventuras sexuais clandestinas.

Lázaro Covadlo merece ainda elogios pela sua imaginação fértil que não se deixa levar por lugares demasiado comuns, recorrendo até a várias referência a filmes se ligar ao leitor. Paralelamente à sua escrita clara constrói uma teia de histórias interessantes, cativantes e disruptivas que nos agarram ao livro. Daí que esta não seja uma obra literária, mas uma viagem literária pela vida de Marina que vale a pena ler.

Lázaro Covadlo

O desejo lascivo

Há uma temática que se estende do início ao fim das 183 páginas de livro: a vida sexual das personagens. Longe dos preconceitos de uma sociedade púdica, estas personagens vivem num reboliço sexual que se confunde com os sítios, situações e ambientes que circulam. Tanto o passado como o presente acabam por ser um fantasma sexual que paira acima das suas consciências.

Marina Pons, aparentemente também ela uma púdica, revela-se ao longo do livro. Primeiro ao ocultar o que fez enquanto adolescente – coisas inocentes, mas ‘graves’ para a protagonista – a José Serra. Reciprocamente, este também tem um passado, e ainda mais obscuro: na cabeça de Marina, José é só um stripper, mas o ‘fingidor’ já foi mais além do que um simples strip no clube, tanto com mulheres como com homens.

Atualmente é Marina a libertina. Assumiu o antigo posto do falecido marido e agora percorre a Península Ibérica à procura da próxima ‘vítima’ sexual, longe de achar que encontraria o amor outra vez. E, de facto, não encontra um amor como o de José. Mas, felizmente para Marina, há vários tipos de amor. Assim sendo, “a mulher de ninguém” é de vários ao longo do livro, mas no fim tudo fica em aberto para que esta volte a ser a “mulher de um só homem”, verdadeiramente.

Nota: 7/10