Sputnik Sweetheart (スプートニクの恋人, Supūtoniku no Koibito) de Haruki Murakami foi publicada pela primeira vez no Japão em 1999. Este romance, focado em torno de um triângulo amoroso peculiar, apesar de não ser uma história brilhante, não deixa de cativar pela sua bela narrativa e personagens peculiares.

A história centra-se em torno de um narrador que a meio de história é simplesmente identificado como K, que é professor primário. Este jovem está apaixonado por uma amiga da faculdade, de nome Sumire, que aspira a ser escritora e não sabe nada sobre amor nem desejo sexual. A vida de Sumire, contudo, começará a dar uma reviravolta quando num casamento a jovem conhece Miu, uma mulher misteriosa nos seus trinta anos de idade, por quem Sumire acaba por se apaixonar. Miu emprega Sumire como sua secretária e as duas vão ficando próximas. Mas quando numa viagem à Grécia Sumire desaparece misteriosamente, Miu chama K para ajudar nas buscas. Mas o que irá K realmente encontrar por lá?

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Devo dizer que a minha primeira experiência a ler Murakami não foi má de todo: o autor tem uma prosa e um conjunto de belas metáforas que sem dúvida embelezam a narrativa, assim como conferem a cada personagem uma peculiaridade no seu discurso. Há personagens que têm muito o seu próprio modo de ser e isso nota-se em particular em Sumire, que fala e escreve usando pensamentos e expressões “muito suas”. As descrições também são belas, tanto a referir locais (nomeadamente as Ilhas Gregas), como a referir as emoções que assolam K. Seria um livro completamente desinteressante e fácil de esquecer, se não fosse pela capacidade do autor de apelar às emoções humanas, ao mesmo tempo que nos apresenta personagens cada uma única no seu modo de ser. A princípio também devo dizer que a meio da história esperava uma história “de pés assentes na terra”, por assim dizer, apenas pera ser surpreendida a meio com um twist um tanto sobrenatural e, de certo modo, perturbador.

Um dos temas recorrentes neste livro que é mais profundamente explorado perto do fim é a solidão. As três personagens em que a história se centra vivem cada um numa barreira individual que os impede de se tornarem mais íntimos com outras pessoas: K, apesar das suas muitas aventuras sexuais, não consegue sentir nada de mais por outra mulher que não Sumire; Sumire por sua vez apesar de ver em K um bom amigo não vê nele nada mais que um bom confidente; por fim Miu é uma mulher que não se consegue sentir próxima nem do próprio marido, devido a um evento traumático na sua juventude que inclusive lhe deixou o cabelo branco. Aqui faz-se uma alusão ao cometa Sputnik, que vagueia sozinho pelo espaço com a famosa cadela Laika no seu interior: o cometa que vai percorrendo o vazio no espaço é equiparado às personagens do livro, que veem várias pessoas e eventos a passar pelas suas vidas para depois nunca mais terem esses elementos de volta, rodeados permanentemente pela solidão.

K e Sumire devo dizer que são ambos personagens carismáticas. Cheguei a ter pena de K por ter sido colocado numa posição tão ingrata, mesmo depois de tudo o que fez por e passou com Sumire. O amor de K nota-se no começo da história quando ele passa um bom bocado a falar da única mulher que amou antes de dizer o que quer que seja da sua pessoa. A jovem, apesar de valorizar a amizade de K, tendo por ele uma estima sem igual, não sente por ele nada além disso. Ao apaixonar-se por Miu, Sumire acabará por mudar radicalmente, até acabar por “deixar de pensar”. A reviravolta sobrenatural que ocorre a meio desta história acabará por mudar significativamente a vida de K e Miu.

Apesar de não ser o tipo de leitura que atraia à primeira, e acredito que não seja o melhor livro de Murakami, considerei este livro uma experiência diferente e positiva. Deixou-me definitivamente interessada para eventualmente conhecer outras das obras do autor assim que possa. É um estilo de história diferente de um romance comum, filosófica, que nos apresenta um ensaio sobre o desejo e a solidão humanas.

Nota: 7/10