Um filme que questiona o passado e o presente do Cinema, e aquilo que será a Sétima Arte no futuro – mas que se perde no desinteresse que acaba por criar com as suas personagens. Realizado por Corneliu Porumbiou, Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo é antecedido pela curta metragem Luminita, do português André Marques.

Paul (Bogdan Dumitrache) é um realizador que tem um caso com Alina (Diana Avramut), uma atriz secundária do filme que está, nesse momento, em rodagem. Mas para aquele que supostamente seria o último dia de trabalho de Alina, Paul decide filmar uma cena de nudez. Cineasta e atriz preparam a dita cena e tentam corrigir as suas incongruências cénicas, ao mesmo tempo que Paul começa a ver a sua vida e o seu cinema entrelaçarem-se.

O que é o Cinema? Parece ser a grande pergunta em que se centram os quase 90 minutos do filme de Porumbiou. Através de uma série de planos fixos, o realizador elabora uma série de alusões ao cinema contemporâneo e às diferenças que a modernidade trouxe às tradições da arte das imagens em movimento. Esses planos fixos são contados em sequência, em momentos de conversa prolongadas, que podem fazer uma espécie de alusão aos 11 minutos que um rolo de película consegue filmar (algo mencionado na primeira – e mais interessante – cena do filme), algo que Alfred Hitchcock utilizou também para construir um dos seus trabalhos mais notáveis e inovadores, A Corda. Mas só são isso, planos fixos com conversas mais ou menos interessantes, que não mostram grande criatividade ou utilização dessa câmara parada (mas tão cheia de possibilidades inventivas) pelo realizador.

Não há dúvida que Quando a Noite Cai em Bucareste… possui um grande simbolismo cinéfilo, tal como uma fotografia apropriada, boas interpretações e um exemplar trabalho de enquadramento da câmara. Mas que mais se pode aproveitar disto, no meio de tantas pontas soltas e muitas cenas entediantes e cujo propósito para a sua inclusão no filme parece ser nenhum outro que o da aleatoriedade? Este exercício de linguagem perde, pois, por não saber dominar esse lado peculiar e não conseguir, a partir dele, construir mais qualquer coisa do que aquilo que nos é apresentado.

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Se o ponto de partida da trama consegue ser tão interessante e misterioso – a tal conversa de abertura do filme, sobre as potencialidades do Cinema, o seu possível fim num futuro não muito longínquo, e as diferentes formas de fazer Cinema que a película e o digital exigem dos cineastas – como é que Porumbiou se permitiu a dissecar, sem grande criatividade, essa intenção inicial com esta amostra de tédio, que mesmo que seja de tão curta duração total, custa mais a suportar (em grande parte das cenas) do que muito filme com mais de duas, três, quatro horas?

Porque se a obra fala constantemente do fim do Cinema, de que lhe vale estar a dar razões para o espectador ficar ainda mais desacreditado na sobrevivência da Sétima Arte, no meio da era digital dominada por uma cultura online, de falsos realismos televisivos e de fáceis e nada desafiantes narrativas visuais? Sim, são muitas as perguntas que nos deixa o penúltimo filme (até à data) de Porumbiou. E também por isto (além dos notáveis valores de produção já mencionados anteriormente), consegue elevar-se a um nível superior da mediocridade que outras tentativas cinematográficas de filosofar a arte não conseguiriam ultrapassar.

Felizmente que o cinema romeno não se resume a estas experiências apenas curiosas de desconstrução dos valores do cinema e da cinefilia e tem muito mais para dar e descobrir. Recorde-se Mãe e Filho, estreado entre nós em março de 2014, um drama singular que venceu o Urso de Ouro em Berlim, e que conta com o mesmo ator deste filme. Isto sim é uma demonstração de cinema, na narrativa e no uso dos recursos disponíveis (se bem que com as suas falhas, mas não tão evidentes como Quando a Noite Cai em Bucareste…), sem querer cair nas armadilhas fatais da rebeldia que confunde a construção de um filme com o falatório e a técnica da cinefilia. E é pena que a beleza dos planos sequência seja completamente rejeitada em favor desse simbolismo desinspirado…

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O destaque maior da sessão vai mesmo para a curta metragem, curiosamente (ou não) também falada em romeno, que antecede a exibição da longa: Luminita, de André Marques, é uma espantosa reflexão das relações humanas que só peca por ser assim, de curta duração. A sua história e aquelas personagens pediam mais tempo para desenvolver as suas emoções, as suas raivas e angústias, e sentimos que o drama e o confronto dos dois irmãos protagonistas não deveria terminar ali. Mas é mais um exemplo de um cineasta que começa a dar cartas e que, esperemos, continue a seguir este relevante caminho cinematográfico, continuando a explorar a humanidade através deste espírito fulgurante e muito interessante.

Ficha Técnica:

Luminita – 7/10

Título: Luminita

Realizador: André Marques

Argumento: André Marques

Elenco: Dragos Bucur, Constantin Cojocaru, Emilia Dobrin

Género: Ação, Drama

Duração: 20 minutos

Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo – 5/10

Título: Când se lasa seara peste Bucuresti sau metabolism

Realizador: Corneliu Porumboiu

Argumento: Corneliu Porumboiu

Elenco: Diana Avramut, Gabi Cretan, Bogdan Dumitrache

Género: Drama

Duração: 89 minutos