O centenário que fugiu pela janela e desapareceu

O Centenário que fugiu pela janela e desapareceu: “a alegria de rebentar coisas”

Hundraåringen som klev ut genom fönstret och försvann. Ou melhor: O Centenário que fugiu pela janela e desapareceu. Um filme sueco de 2013 que vagueia entre a ação e a aventura, e ainda tem umas incursões no mundo do humor negro ou até do non sense cinematográfico. São 114 minutos que transpõem o best-seller de Jonas Jonasson publicado em 2009 na Suécia. A estreia em Portugal é feita hoje, dia 31 de julho.

Nunca é tarde para começar de novo” – é este o grande lema deste filme. No dia em que celebra os 100 anos, Allan karlsson abandona o quarto do lar que lhe ditava há muito o fim da vida, e deixa assim em pânico – perante a sua ausência – as pessoas que lhe iam fazer uma festa surpresa. Esta película sueca retrata o inverso do que seria habitual ver na vida de um centenário. Longe da monotonia e da pacatez, O Centenário que fugiu pela janela e desapareceu traz-nos uma aventura quase épica com momentos que ficam na memória.

A extrapolação do romance best-seller de Jonas Jonasson para o cinema descreve a história de Allan karlsson, um homem de 100 anos que quer um novo começo, mesmo com a idade que tem. No preciso dia em que se tornaria centenário com uma festa surpresa preparada ao pormenor pelo staff do lar que o acolhe, Allan foge pela janela e desaparece. Este começar de novo, no entanto, é mais um dos começos da extensa vida deste sueco. A sua vida foi uma viagem de paragens inesperadas, participando assim de forma involuntária nos maiores acontecimentos do planeta praticamente durante um século.

Após saltar pela janela do lar, Allan ignora o grande acontecimento que seria o seu aniversário e caminha. Apenas isso: caminha. Na estação de autocarros pede uma viagem. Não interessa para onde. O destino não é o importante, concluímos, mas sim a viagem. Tudo começa com gritos, conta-nos. Sim, os gritos do nascimento, do dar à luz, da criança que foi, uma angústia presume-se. Na sua essência está “a alegria de rebentar coisas”. A retrospetiva à sua vida é uma constante no filme, e logo nos confronta com o dilema do jovem Allan sem pais: qual seria o seu futuro?

O realizador Felix Herngren merece um aplauso pelo ritmo que deu ao filme. Apesar de estarmos perante cenas de ação com um centenário, o ‘batimento’ desta fita cinematográfica não deixa a desejar. Surpreende-nos até – em momentos de mais non sense – e deixa-nos estupefactos em certas cenas entre a loucura saudável e o sempre hilarianO centenário que fugiu pela janela e desapareceute humor corrosivo. O argumento, fruto da parceria entre o realizador e Hans Ingemansson, vai lado a lado com a qualidade da realização. Os diálogos são sempre renovadores assim como as narrações peculiares, longe de nos fazer acalmar na nossa cadeira da sala de cinema, e fazem-nos pensar sobre as mais profundas questões da vida.

O ator sueco Robert Gustafsson interpreta o centenário de forma exímia. Dá os silêncios necessários, as paragens típicas da idade, o modo peculiar de fazer as coisas de Allan, sem nunca perder o fôlego numa interpretação de referência.  O ator soube dar profundidade ao seu discurso, apesar de este ser um filme que vive mais da comédia. Frases como “os arrependimentos de nada servem sem uma máquina do tempo” ficam a remoer nas mentes dos espectadores, e isso deve-se ao trabalho de Robert Gustafsson.

Revelando mais uma vez o dark side deste filme, e tentando deixar os leitores com alguma curiosidade para mergulhar neste ambiente de comédia aliada à profundidade de questões como a morte, aqui fica uma das falas mais marcantes: “estar morto pode ter as suas vantagens (…) em geral subestima-se o meio de nenhures”. O Centenário que fugiu pela janela e desapareceu é surreal. Mais do que isso: surpreende a cada segundo e, por isso, vale mais do que a pena dar uma oportunidade ao cinema sueco, fugindo à habitual hegemonia do cinema americano.

8.5/10

Ficha Técnica:

Título: O Centenário que fugiu pela janela e desapareceu

Realizador: Felix Herngren

Argumento: Hans Ingemansson e Felix Herngren

Elenco: Alan Ford, David Wiberg, Iwar Wiklander, Jens Hultén, Mia Skäringer e Robert Gustafsson

Género: Ação, Aventura

Duração: 114 minutos

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