Nómada, lançado em 2008, foi o romance que possibilitou a Stephenie Meyer colocar o mundo dos vampiros de lado e abordar a temática da Terra numa era pós-apocalíptica, em que a raça humana se vê invadida por uma espécie alienígena conhecida por Almas.

Nómada é colocada no corpo de Melanie Stryder para que possa aceder às memórias da sua hospedeira e fornecer informações acerca de um foco de resistência onde a família de Melenie – e outros humanos – residem, lutando contra a invasão. O jogo inverte-se quando a jovem Stryder se recusa a desaparecer e começa a controlar a consciência de Nómada, lançando assim a temática principal da obra: a convivência de duas entidades num só corpo.

De facto, este é, do início ao fim, o tema que provavelmente irá atrair a maioria dos leitores. A relação entre Nómada e Melanie evolui de inimigas para companheiras, e eventualmente até para irmãs. Juntas enfrentam as adversidades de qualquer amizade, tendo em conta que existe um confronto interessante de personalidades: Melanie é humana e fará de tudo para proteger aqueles que ama, vivendo à base de emoções fortes e arrebatadoras; Nómada é uma Alma, que apenas procura a paz e a tranquilidade, tendo de se habituar a um novo corpo humano que transporta consigo sentimentos nunca antes experienciados.

Saoirse Ronan como Noa/Melanie na adaptação cinematográfica de "Nómada".

Saoirse Ronan como Noa/Melanie na adaptação cinematográfica de “Nómada”.

O conflito entre ambas acentua-se quando, eventualmente, Nómada chega à gruta onde a família de Melanie reside, juntamente com o antigo amor da hospedeira, Jared. O rapaz vê-se obrigado a conviver com o corpo da rapariga que ama, embora seja Noa – um diminutivo adoptado ao longo do livro – que agora o adopta. A própria Alma sente-se confusa ao perceber que as emoções de Melanie se reflectem nela própria, achando que pode estar também apaixonada por Jared. No entanto, com a eventual aproximação do jovem Ian, este acaba por declarar o seu interesse por Nómada – alma, não corpo –, criando assim um círculo amoroso minimamente interessante: quatro entidades mas apenas três corpos.

Um triângulo amoroso – neste caso, um quadrado – foi algo já explorado na famosa saga Crepúsculo, também da autoria de Meyer. Contudo, enquanto que em Crepúsculo os sentimentos surgiam demasiado superficiais, como se fosse um amar simplesmente por amar, em Nómada cada emoção é profundamente trabalhada e justificada. Adicionalmente, o sentimento humano é abordado numa perspectiva inovadora, já que Melanie e Nómada lutam uma batalha constante para perceberem aquilo que sentem e o que devem fazer com o corpo que ambas partilham.

De facto, toda a espécie humana é estudada de uma maneira interessante, já que temos acesso ao que uma raça alienígena aparentemente pensa de nós. A obra dá-nos um olhar exterior sobre nós próprios, sublinhando as qualidades e os defeitos do ser humano, e o facto de que muitas vezes temos dificuldade em lidar com as nossas próprias emoções. Frequentemente, podemos ler diálogos de Almas ditando que o Homem é uma espécie violenta, cujo maior defeito é não cuidar da sua própria casa – a Terra. A invasão das Almas pode ser considerada benigna, na medida em que o seu objectivo sempre foi aperfeiçoar aquilo que estava errado. A vida na Terra tornou-se pacífica e isto poderia ser algo positivo se, tal como o foco de resistência acredita, não implicasse a perda da personalidade humana.

A autora Stephenie Meyer na estreia do filme.

A autora Stephenie Meyer na estreia do filme.

Neste ponto entramos num debate pessoal, questionando-nos: será que, de facto, somos merecedores do espaço em que vivemos? Será que há justificação para as constantes guerras em que Homem mata Homem? Até que ponto tem o ser humano de se alterar para poder revolucionar a vida na Terra?

Todos os aspectos anteriormente abordados são pontos a favor de Nómada. No entanto, a obra não pode ser considerada perfeita. Em primeiro lugar, para muitos leitores, a escrita de Meyer pode revelar-se demasiado lenta e cuidadosa; o livro avança num ritmo desnecessariamente reduzido, abordando certas situações que em nada contribuem para a história principal. Adicionalmente, o leitor poderá sentir-se baralhado durante as primeiras 100 ou 200 páginas, pois é nesta altura que Noa acorda no corpo de Melanie e o seu objectivo na Terra ainda está a ser estudado, sendo um processo confuso e, mais uma vez, lento.

Numa nota final, há que fazer referência à adaptação cinematográfica do romance, dirigida por Andrew Niccol em 2013. O filme recebeu críticas extremamente negativas e com razão: na minha opinião, é uma metragem que deve apenas ser vista por aqueles que leram o livro previamente. Caso contrário, surgirá apenas como uma sucessão confusa de eventos sem qualquer nexo, em que cada acontecimento e cada personagem são tratados de forma demasiado superficial. Os principais temas e causas da obra são abordados no filme numa questão de segundos e há certas mudanças relativamente ao livro que, para o leitor, são certamente motivo de frustração.

Cartaz oficial da adaptação cinematográfica de "Nómada".

Cartaz oficial da adaptação cinematográfica de “Nómada”.

Concluindo, Nómada é um bom fruto do género de ficção científica que certamente apelará a um público mais abrangente que a saga Crepúsculo, a qual chamava maioritariamente por adolescentes do sexo feminino. Esta obra, embora trate uma temática já bastante trabalhada, apresenta um olhar inovador sobre as relações estabelecidas entre Homens, Terra e Estranhos – neste caso, as Almas, mas que num tom mais reflexivo poderiam ser estendidos para qualquer entidade estrangeira ou aparentemente desconhecida. Embora num ritmo excessivamente lento, Nómada apresenta uma narrativa com princípio, meio e fim, cujo final poderá deixar o leitor a sorrir de uma forma inesperada.

NOTA: 7/10