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Belém: irmãos, traições e atentados

A Alambique lança entre nós mais um filme impressionante sobre o conflito israelo-palestiniano, duas semanas depois da chegada de Omar, nomeado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, às salas portuguesas. Belém é um drama intenso e uma fortíssima estreia na realização de um grande novo talento do cinema.

Belém conta a história de Razi (Tsahi Halevi), um agente dos Serviços Secretos Israelitas, e o seu informador palestiniano adolescente, Sanfur (Sadhi Mar’i). Ele é o irmão mais novo de Ibrahim, um terrorista procurado incessantemente pelas autoridades, e Razi recrutou-o aos quinze anos, com o objetivo de conseguir capturar Ibrahim. Para isso, investiu todos os seus recursos no rapaz e criou uma relação de proximidade e de intimidade com ele, que se traduzirá em alguns eventos da história. Mas não será essa amizade que poderá evitar as reviravoltas e os dramas que ocorrem nos maiores sarilhos da trama.

Seguindo a melhor tradição dos filmes densos e sofisticados de Michael Mann (onde as emoções entre os dois lados da Lei se confundem num jogo de poder, destruição e chantagem mútuo), Belém reflete o ambiente de tensão entre Israel e Palestina, numa realidade bélica cujas proporções trágicas conhecemos cada vez melhor graças ao pouco que conseguimos saber através dos meios de comunicação social. Tal como tudo o resto, a situação delicada que envolve os dois países gera uma série de consequências e condicionantes, que se traduzem na atitude das personagens, nas suas defesas e nos seus ataques, numa narrativa sólida e construída de uma maneira eficaz e original.

E neste poderoso filme, o realizador Yuval Adler não quer só fazer um retrato da guerra, mas uma abordagem sincera ao perigo das relações humanas e dos interesses de cada pessoa. Aí, nessa conceção, é que encontramos a maior influência, ou semelhança, com alguns filmes de Mann, mais propriamente Heat – Cidade Sob Pressão e Inimigos Públicos. A oposição entre o gato e o rato da questão israelo-palestina (e aqui ambos os papéis se podem confundir nos dois lados da medalha) é uma constante, e não se fica só por uma visão expositiva e desinteressada das violentas guerrilhas entre a polícia e os seus opositores. Adler vai mais longe e não cede a quaisquer tentações facilitistas, proporcionando uma história audaz, perturbante, e que poucas vezes temos oportunidade de contemplar assim, porque está filmada de uma maneira realista e, ao mesmo tempo, fria e sedutora.

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A relação entre os dois protagonistas, pertencentes a estatutos e backgrounds tão distintos, acaba por ser o mote humano de um filme que se eleva acima da sua condição de ser fiel aos valores (tão mutáveis) da humanidade. Tal como em Omar, que usava a história de amor para revelar uma situação quotidiana gravíssima e marcante do nosso tempo, Belém despe os confrontos dos preconceitos e dos constrangimentos que impediram, a tantos filmes de guerra, ou “baseados em factos ou ambientes verídicos”, conseguirem manter a sua veracidade na ficção e na ilusão criada pelo cinema. Porque Belém vai para além da ilusão – até porque iludidos, provavelmente, já estavam os espectadores em relação às temáticas sociais da obra, antes de entrarem na sala escura.

E o resultado é estrondoso e, ao mesmo tempo, humilde – pelo cruzamento singelo entre o quase paternalismo de Razi com Sanfur, e o absurdo dos conflitos que, de facto, acabaram por unir estas duas personagens, e criar esta história cinematográfica cheia de sentimentos sérios e filosóficos. Numa miscelânea de choques, famílias e organizações terroristas (onde as rivalidades mortíferas têm o papel principal), há sempre espaço (mesmo que não pareça) para aquilo que de mais pequeno e simples caracteriza a natureza humana, natureza essa que está a ser mais e mais espezinhada graças a estes conflitos e às sedes de poder, fanatismos e oportunismos que os envolvem.

Belém não é só um filme anti-guerra, como também uma reflexão oportuna sobre todas as coisas que têm de se manter em funcionamento numa sociedade, apesar das adversidades provocadas pelos combates e pela perda tão injusta de vítimas inocentes em todo o confronto armado – que tanto prejudica essa regulação social que precisa de ser continuada. Com uma fita caótica, mas cativante, Yuval Adler dá assim os primeiros passos para uma carreira que, esperemos nós, continue a seguir este caminho criativo bastante interessante, explorando, como em Belém, os temas de um género cinematográfico específico, ou impondo novas ideias e virando do avesso os formalismos habituais deste tipo de filmes. Esta é mais uma das ótimas surpresas de 2014.

9/10

Ficha Técnica:

Título: Bethlehem

Realizador: Yuval Adler

Argumento: Yuval Adler e Ali Wakad

Elenco: Tsahi Halevi, Shadi Mar’i, Hitham Omari

Género: Drama, Thriller

Duração: 99 minutos

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