Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

José Fonseca e Costa é um dos mais conhecidos realizadores do cinema português, e um dos poucos que tem conseguido manter uma relação de sucesso com o público, assinando vários êxitos de bilheteira ao longo das últimas décadas e que permaneceram na memória coletiva. Podíamos falar da inesperada vitória da comédia chunga Kilas, o Mau da Fita, ou daquele que muitos consideram ser o seu melhor filme, Sem Sombra de Pecado.

Contudo, vamos descobrir outro dos seus filmes mais celebrados, uma co-produção entre Portugal e Espanha (e, por isso, vemos nela atores de ambas as nacionalidades), que conquistou as audiências de toda a península (só na estreia do filme no nosso país vizinho, lançado em 14 salas, a fita teve 95 mil espectadores, e quando passou na televisão pela primeira e segunda vez, alcançou cerca de 15 milhões) e que marca um dos títulos mais fulgurantes, intemporais e criativos do realizador, e uma obra curiosa no cinema português.

A expectativa que rodeia a produção, desde o início da sua rodagem, é evidente, devido a dois fatores: primeiro, trata-se da adaptação de um livro polémico, de José Cardoso Pires, inspirado num caso verídico, vencedor do Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; o segundo fator reside no ator escolhido para protagonizar este drama policial, ambientado no Estado Novo: Raul Solnado, na altura um dos cómicos mais aclamados em atividade, decide embarcar noutro registo, interpretando o inspetor da PJ Elias Santana, que vai investigar um caso insólito. O próprio Cardoso Pires ficou, a princípio, desagradado com esta escolha para o papel. Mas quando o filme estreou, tanto ele como os espectadores ficaram surpreendidos, ao verem Solnado desempenhar tão bem esta personagem, representativa de um regime e de um passado repleto de mistérios.

325151d92335d382814be7ede2e9a7b1

O filme segue, de uma maneira mais linear, a história original e intrincada do livro (para ser mais cinematográfica), mas versa sobre o mesmo tema geral. É encontrado um cadáver de um oficial do exército, procurado pela PIDE, que conseguiu fugir do Forte de Elvas com mais dois opositores do Estado Novo, apoiado por Mena, uma mulher obscura (Assumpta Serna). Mas a polícia política, para não se tornar suspeita de ter cometido o crime (por ter estado a investigar a vítima), entrega o caso à Judiciária. Elias Santana vai então reconstituir os factos, imaginar as situações e deduzir as causas do crime, ao mesmo tempo que tentará não ser seduzido pela misteriosa e oportunista mulher.

Filme político (como são outros de Fonseca e Costa) com uma história policial invulgar, Balada da Praia dos Cães é o mais próximo que poderia ter sido elaborado de um film-noir à portuguesa: pelo lado sombrio das suas personagens, pela densidade das suas interpretações, pelas temáticas da história e pelas reações que a mesma suscita em nós e em todas as figuras que compõem o quadro de medo e opressão à portuguesa de Cardoso Pires.

Uma opressão que nos consome, que nos ilude, que nos guia pelas amarguras sociais do regime, e pelas paixões traiçoeiras que destroem os planos mais arriscados para trazer, de uma vez por todas, a liberdade, há tanto tempo desejada. Não chega ao nível dos clássicos americanos do género, mas é uma bonita homenagem nacional às influências de Fonseca e Costa, e para a obra literária não poderia haver uma melhor recriação cinematográfica e cénica.

E continua notável a transformação de Solnado, homem de mil e uma facetas, que mostrou aqui saber também representar, em grande forma, uma personagem que pouco tem de cómica ou hilariante. Um dos retratos mais precisos e humanos do cinzento portugal salazarista, e um filme que agrada na sua construção narrativa e no cruzamento constante entre realidade, sonho, flashbacks e ilusões.

Realizador: José Fonseca e Costa

Argumento: Pedro Bandeira-Freire, José Fonseca e Costa, Antonio Larreta e Shawn Slovo, a partir do livro de José Cardoso Pires

Elenco: Raul Solnado, Assumpta Serna, Patrick Bauchau, Pedro Efe

Nota: 8/10