Na primeira vez que um conflito atingiu uma dimensão global, o horror e a destruição deixaram muitos à procura de um sentido, de uma razão para o ódio ou para a morte. No pós-guerra, onde a evocação do passado era extremamente dolorosa, o cinema transcendeu a simples tentativa de retrato do que muitas vezes é impensável, irretratável e incompreensível, soube ajudar os povos a quebrarem tabus, a exorcizarem os fantasmas de uma guerra prolongada, e a retirarem as conclusões possíveis daquilo que se havia passado.

Muitos realizadores filmaram a humanidade e a responsabilidade a nível individual, questionando a existência de fronteiras, seguindo outras tendências artísticas e filosóficas do seu tempo. Alguns abordaram o absurdo da guerra, e a ausência de sentido nos conflitos entre povos que nenhumas razões tinham para se guerrearem, a não ser os interesses de uns poucos poderosos.

Como forma de homenagear todos os profissionais do cinema que se dedicaram a retratar um conflito que teve o seu início cem anos atrás, seguem-se cinco filmes que achamos que representam marcos incontornáveis no olhar do cinema sobre a Primeira Grande Guerra.

A Oeste Nada de Novo (All Quiet on the Western Front) – Lewis Milestone [1930]

É surpreendente que um filme com mais de oitenta anos consiga ser mais chocante no seu retrato da Guerra do que muitos épicos modernos do género. A Oeste Nada de Novo recria o romance quase autobiográfico de Erich Maria Remarque, uma crítica impiedosa sobre os horrores vividos na I Guerra Mundial e as diferenças entre o ideal de patriotismo (que leva o protagonista a ir alegremente alistar-se para o combate) e a realidade dos factos, do sofrimento, da morte e da falta de sentido desta guerra (e de todas as outras). Remarque mostra no livro como o conflito o marcou e lhe deu uma outra visão, nada inocente, do mundo e da crueldade humana. Lewis Milestone pega no romance e adapta-o sem o tentar “americanizar” em demasia (a única coisa é que temos atores dessa nacionalidade a interpretarem os alemães da história), e reinventa algumas passagens para dar, às palavras do autor, o significado cinematográfico mais apropriado (a primeira cena do filme, em que o professor incita os alunos a partirem para a batalha, foi escrita para o filme, mas tem um poder assustador incrível). E o resultado é devastador, num filme que, se tivesse sido feito alguns anos depois, seria uma vítima proveitosa para o rígido controlo de censura que iria dominar Hollywood. Mas não: All Quiet on the Western Front ganhou Oscars e aclamação universal, que ainda se faz sentir hoje. Porque sendo um clássico, consegue arrasar o espectador como poucos filmes de guerra, através de uma abordagem fria e assustadora à batalha e a uma forma de pensar excessivamente patriótica e incrivelmente irracional.

AQOTWF

 

A Grande Ilusão (La Grande Illusion) – Jean Renoir [1937]

Esta obra-prima de um humanismo profundo, que expõe o realizador francês enquanto homem politizado e pacifista, esteve perigosamente perto de não ser realizada. Nas vésperas da II Guerra Mundial, os delicados equilíbrios entre as nações europeias estavam na iminência do colapso. Entre máquinas de propaganda nacionalistas, ódios raciais e estados beligerantes, Renoir ousou homenagear o companheirismo e o humanismo.

A Grande Ilusão segue a captura pelos Alemães de um curioso grupo de oficiais franceses, transportados para um campo de prisioneiros de guerra. A sua audácia numa tentativa de fuga é punida com uma transferência para a fortaleza de Wintersborn, onde encontram o capitão Von Rauffenstein (Stroheim).

O que se segue é um hino ao respeito mútuo entre homens, que nos faz pensar no verdadeiro significado das fronteiras e das nações, contrapondo a realidade incontestável de uma humanidade que não conhece fronteiras, com um mundo de ódios artificiais e construídos.

A Grande Ilusão é um filme atual na sua temática filosófica, e será sempre um filme controverso, sendo banido em Itália, desprezado e criticado por Goebbels e pela máquina de propaganda alemã.

LGI

A Rainha Africana (The African Queen) – John Huston [1951]

Bogart e Hepburn estão ao serviço de Huston nesta que é uma abordagem diferente à I Guerra Mundial. A Rainha Africana é um romance, no qual uma resoluta Rose Sayer (Hepburn) e um hesitante Charlie Allnut (Bogart) constituem um dos mais improváveis pares da história do cinema. Juntam-se para cumprir uma missão – afundar o navio de guerra alemão, que em 1914 impede o avanço dos britânicos no norte de África, utilizando para isso apenas o pequeno barco conduzido por Charlie.

O filme mantém um registo leve e humorístico, afastando o pendor moral que outros filmes apresentam sobre o tema, conseguindo retratar como por vezes a vontade, a sorte e o engenho de 2 pessoas pode fazer a diferença no mais improvável e absurdo cenário.

O filme vive quase exclusivamente da atuação dos seus dois protagonistas, mais precisamente da sua mestria em carregar um filme de forma leve e descontraída sobre uma temática controversa e terrível, que levou outros realizadores a mergulharem em temas mais profundos. Huston consegue arrancar sorrisos a uma audiência ao abordar uma grande guerra, cumprindo assim uma função menos elevada, mas igualmente valiosa e necessária no rescaldo de qualquer conflito.url

 

Horizontes de Glória (Paths of Glory) – Stanley Kubrick [1957]

Um dos primeiros filmes de Stanley Kubrick, uma pequena produção bélica baseada no livro de Humphrey Cobb, é uma exemplar desconstrução da hierarquia militar e da importância do título de um indivíduo, nos tempos da I Guerra Mundial. Conta a história de um grupo de soldados que se recusam a continuar a combater, algo que faz com que os seus superiores decidam fazer deles um exemplo para todos os outros soldados, condenando-os ao fuzilamento. E Kirk Douglas é o advogado que tentará ultrapassar as barreiras do poder para salvar as três inocentes vítimas deste jogo de injustiça. Brilhante reflexão sobre a guerra, em Horizontes de Glória não encontramos só uma grande realização de Kubrick como também descobrimos uma série de grandes interpretações e um argumento excecional, amargo e contundente, em que os valores morais são desprezados em favor das hierarquias que conferem estatuto a pessoas que, provavelmente, não são as mais desempenhadas para os cargos que lhes foram destinadas. Um filme simples, mas arrebatador, que se adequa a qualquer guerra e a toda a situação de poder que encontramos nas sociedades (na justiça, na política, na cultura, e em tudo o mais).

POG

 

Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia) – David Lean [1962]

O lendário e sumptuoso épico de David Lean, uma adaptação (muito) livre da vida da complexa personalidade militar que foi T. E. Lawrence (magistralmente interpretado por Peter O’ Toole), é também uma visão analítica do poder da guerra, e da morte em tempo de guerra, através da mente de um indivíduo, e da forma como esta se altera à medida que o sofrimento à sua volta aumenta. Grandioso na sua construção visual e magnífico na gestão das relações dramáticas entre as várias facções da vida militar, Lawrence da Arábia centra-se na personalidade do protagonista e no desenrolar de acontecimentos dramáticos em que está envolvida. Exemplo maior do cinema como espectáculo, numa era em que a Sétima Arte lutava com todos os meios contra a “inimiga” televisão, o filme é um exemplo de coragem e mestria cinematográfica, e um dos relatos mais arrepiantes da guerra no cinema.

LoA

Artigo redigido por:

José Pereira

Rui Alves de Sousa