Passaram cinco anos desde o lançamento do primeiro disco homónimo de La Roux e, com todo o sucesso que alcançaram já a ser esquecido no passado, lançam agora Trouble In Paradise pela Universal Music. O que podia ser fruto de demasiados contratempos, diferenças artísticas e tantos outros motivos transformou-se num dos melhores discos pop lançados este ano.

Num universo recheado de informação, de novos conteúdos e tão moldado por redes – tornando difícil a apresentação de novos artistas para o público sentado atrás do computador, a receber centenas de informações todas as horas e à procura do que é minimamente diferente à primeira vista – parece quase impossível para um cantor esperar cinco anos para apresentar um segundo disco. La Roux, antes constituída pela cantora Elly Jackson e o produtor Ben Langmaid, lançaram o primeiro álbum homónimo em 2009 e o sucesso bateu-lhes à porta em pouco tempo, graças a músicas ideais para se sentarem no primeiro lugar das tabelas de vendas.

Quicksand, In For Kill ou mesmo I’m Not Your Toy colocaram La Roux debaixo dos holofotes num ano em que muitos artistas surgiram e marcaram a sua presença no mercado da música pop. O disco homónimo foi nomeado para um Mercury Prize, em 2009, e venceu a categoria de Melhor Disco Eletrónico e de Dança na 53.ª edição dos Grammy Awards, em 2011.

Tal como João Moço escreveu, no Diário de Notícias, La Roux fez parte de um conjunto de artistas – enumerando Robyn, Annie e Lady Gaga – que, sem perderem ambição de chegar a um público mainstream, “revelam uma autonomia face à indústria de criação de êxitos tal como uma linha de montagem”. Mas tudo parecia estar a correr mal para o sucesso dos La Roux continuarem, com Elly Jackson a sofrer de ataques de ansiedade e impedindo-a de cantar e, em 2012, ver o seu colega Langmaid deixar o projeto por diferenças criativas.

la roux1

Tanto tempo de espera deixa curiosidade, talvez apenas para alguns, até porque a variedade de discos em plataformas como Spotify não deixam espaço para muito mais, e talvez se possa afirmar que Trouble in Paradise é um dos melhores discos do universo pop deste ano. Não se vai olhar para um Kiss Me Once da veterana Kylie Minogue ou Sheezus de Lily Allen – também ela parada durante uns bons anos sem lançamento de discos – da mesma maneira. Este novo disco está longe de repetir as mesma fórmulas do primeiro, não há singles barulhentos e prontos a entrarem nas pistas de danças.

Trouble in Paradise oferece unicamente nove canções, escolha ideal para os internautas sem muito tempo para ouvir um disco até 12 ou 15 músicas como acontece na maioria dos discos. Começa de uma forma morna com Uptight Downtown, o primeiro single a ser extraído, e termina da mesma maneira com The Feeling. Talvez esta primeira canção seja unicamente uma apresentação do que espera aos ouvintes e, quem sabe, fiéis seguidores de Elly Jackson. Ouve-se demasiadas vezes “Uptight downtown/ I’ll prove that’s how the make the ground/ And now I know the temperature is rising” de forma a ficar no ouvido para depois apresentar um dos melhores momentos em todo o disco: Kiss and Not Tell.

Esta canção oferece uns ventos do passado de La Roux, apesar de estar um pouco longe de ser colocada numa pista de dança. Ao contrário do synth pop e mesmo electropop, tão caraterísticos no primeiro disco, são notadas as influências enumeradas pela cantora à Out, em 2011: classic disco de Donna Summers, Grace Jones e Tom Tom Club.

La-Roux

Ao contrário do disco anterior, Elly Jackson propõe em alguns momentos uma viagem introspetiva – quem sabe, provocada pela conturbada fabricação deste Trouble In Paradise – como em Paradise Is You ou Silent Partner. “When all the roads ahead of me stop looking new/ my paradise is you, my paradise is you”, pode escutar-se em Paradise is You ou o verso fatal, a dar conta dos últimos cinco anos de La Roux, logo ao início de Silent Partner “I’ve been living in the light of the shadows/ why won’t you let me leave?” resume serenamente todo o ambiente deste álbum.

Sexotheque é, da mesma forma que Kiss and Not Tell, um dos melhores momentos destas nove músicas apresentadas. E, para além do lado mais introspetivo, também há lugar para um momento mais sexualizado, com tudo o que pode ser curioso na imagem andrógena de Elly Jackson. “Sexy can be classy, sexy can be cool, sexy can be actually sexy”, disse a cantora à Out sobre as novas canções. Não fosse a capa de Trouble In Paradise uma sugestão para esta definição de sexy.

Este segundo disco de La Roux, lançado fora do Reino Unido pela Universal Music, é uma viagem morna mas recheada de complexas sensações. Basta agora que todos os fãs escutem atentamente este Trouble in Paradise porque nunca se sabe quando se vai ter um próximo. A espera de cinco anos valeu a pena.

Nota final: 9/10

Podes ouvir, mais abaixo, a música Uptight Downtown: