Há um chavão virtual, muitas vezes apregoado pelos internautas, que diz que “por muito bom que tu sejas a fazer uma coisa, haverá sempre um asiático que o fará melhor”. Embora a afirmação padeça obviamente de conteúdo falacioso, certo é que são inúmeros os talentos asiáticos que figuram nas mais diversas áreas. Seja no desporto, na inovação ou a realizar proezas no youtube, a malta do Oriente faz questão de ocupar sempre um lugar de destaque.

Falando mais a sério, as Artes não fogem à regra e o Cinema asiático é a prova provada da criatividade e talento dos orientais. Numa altura em que se sabe que os filmes de Yasujiro Ozu serão projectados no Espaço Nimas, o Espalha Factos definiu uma lista com 10 dos melhores realizadores asiáticos, que irá certamente deixar-te com os olhos em bico.

Yasujiro Ozu

Embora Ozu seja hoje visto como um dos homens que mais influenciaram no cinema, a propagação além-fronteiras das suas obras não foi de todo fácil. O nipónico realizou mais de 50 filmes durante a sua carreira (26 em apenas cinco anos), e mostrou-se sempre fiel ao cinema mudo e ao “black and white”. Os seus filmes mostram uma mente mergulhada em excentricidade e perfeccionismo, bem ao estilo japonês, factores que lhe foram fechando as portas do mercado europeu e norte-americano. Ainda assim, Ozu foi um dos pioneiros na abordagem de temáticas relacionadas com dramas familiares, solidão e decadência, temas ainda hoje impregnados no cinema oriental. O japonês é uma espécie de “pai” do cinema asiático.

Obrigatórios: Late Spring (1949), Early Summer (1951), Tokyo Story (1953), Floating Weeds (1959) e An Autumn Afternoon (1962).

OZU

Akira Kurosawa

Quem não teve grande dificuldade em afirmar-se no mundo ocidental foi Akira Kurosawa, que na década de 50’ já vencia Ursos e Leões europeus com Rashomon (1950), Seven Samurai (1954) ou The Hidden Fortress (1958). O japonês mostrou sempre estar à frente do seu tempo, pela forma como, através das suas personagens, entrava na essência do indivíduo e da sua consciência. Visto, de certa forma, como um discípulo de Ozu, Kurosawa foi amealhando seguidores no mundo ocidental, como são exemplo George Lucas, Francis Ford Coppola ou Steven Spielberg, realizadores que viriam mais tarde a ajudar o japonês com financiamentos numa fase mais complicada da sua carreira.

Obrigatórios: Rashômon (1950), Ikiru (1952), Seven Samurai (1954), Kagemusha (1980) e Ran (1985).

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Hayao Miyazaki

Apesar dos 73 anos de idade, Hayao Miyazaki é com certeza um realizador que dispensa grandes apresentações, principalmente entre as gerações mais jovens. O japonês é uma espécie de Walt Disney feito em origami, com tudo o que daí pode advir. O co-fundador dos estúdios Ghibli debruça-se muitas vezes sobre as questões do ambiente (de uma forma estranhamente criativa), sempre com histórias recheadas de fantasia e imaginação, onde os vilões fogem sempre ao estereótipo clássico do mau da fita e se transformam, não raras vezes, em anti-herói. Isao Takahata, amigo de longa data de Miyazaki, criador da Heidi e co-fundador da Ghibli, é outro realizador que também podia fazer parte desta lista, graças a filmes como Grave of the Fireflies (1988) ou Only Yesterday (1991).

Obrigatórios: Nausicaä of the Valley of the Wind (1984), My Neighbor Totoro (1988), Porco Rosso (1992), Princess Mononoke (1997) e Spirited Away (2001).

MIYAZAKI

Takeshi Kitano

Sabem como se diz homem dos sete ofícios em japonês? Exacto, Takeshi Kitano. O homem é realizador, locutor de rádio, pintor, apresentador, cantor, actor, comediante, poeta e até já criou um jogo de vídeo. No cinema, Kitano destaca-se no género policial e no retrato cru da realidade dos Yakuzas, em filmes que, para além de realizados, também são escritos e protagonizados pelo nipónico. Beat Takeshi já foi várias vezes apelidado de “sucessor de Kurosawa” e é fácil encontrar os traços comuns aos dois realizadores ao degustar o cardápio cinematográfico de Kitano. No Japão, contrariamente ao mundo ocidental, Takeshi é mais conhecido pela apresentação de programas de televisão, sendo uma espécie de Luís Filipe Borges ou Pedro Fernandes, mas em asiático.

Obrigatórios: Sonatine (1993), Fireworks (1997), Kikujiro (1999), Dolls (2002) e The Blind Swordsman: Zatoichi (2003).

KITANO

Ang Lee

Este é, indubitavelmente, o elemento mais ocidental desta lista. Ang Lee, que já venceu o Oscar para melhor realizador em duas ocasiões – Brokeback Mountain (2005) e Life of Pi (2012) – tem nos seus filmes um traço sempre emotivo, onde prima pela forma como desenha narrativas e contrastes. As dualidades entre a paz e o conflito, o oriente e o ocidente, o bem e o mal, os costumes e a modernidade e o interior e exterior do indivíduo são assuntos recorrentes nas obras de Ang Lee. Apesar de viver em solo americano, o taiwanês é um apreciador assumido do cinema asiático e disse recentemente que o cinema chinês irá, apesar da barreira linguística, afirmar-se mundialmente nos próximos anos. A ver vamos se é verdade…

Obrigatórios: Sense and Sensibility (1995), The Ice Storm (1997), Crouching Tiger, Hidden Dragon (2000), Brokeback Mountain (2005) e Life of Pi (2012).

ANG LEE

Takashi Miike

Se Miyazaki é um Walt Disney oriental, Takashi Miike é um Quentin Tarantino em versão 2.0. O japonês é cliente habitual do gore e de cenas de violência gráfica e explícita, fazendo uso de um estilo negro e de anti censura. As cenas bizarras de cariz sexual são também uma marca visível nos mais de 50 filmes já realizados por Miike. Apesar da mente aberta do realizador, os seus filmes são muitas vezes censurados, maioritariamente na Europa, devido ao alto grau de violência, grafismo e perversidade (ex: Ichi the Killer). Mesmo tendo realizado alguns filmes mais mainstream, como One Missed Call, a verdade é que as obras de Takashi Miike permanecem numa senda mais underground. Estamos perante alta cozinha japonesa, que não está ao alcance de qualquer palato.

Obrigatórios: The Bird People in China (1998), Audition (1999), Ichi the Killer (2001), Gozu (2003) e Thirteen Assassins (2010).

TAKASHI MIIKE

Kim Ki-duk

Apesar de não ter formação em cinema, Kim Ki-duk é um talento que não aparece muitas vezes na sétima arte. O sul-coreano estudou belas artes em Paris e isso nota-se bastante, já que a bandeira das Artes está sempre hasteada bem alto nas suas obras. O epítome desta veia artística é o filme Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring, onde as paisagens, os cheiros e as sensações saltam para fora do ecrã, espevitando os sentidos do espectador até níveis proibitivos. O uso incisivo e metódico dos diálogos, o esoterismo exacerbado e o simbolismo embutido nas mais pequenas coisas são outros atributos que fazem de Kim Ki-duk um dos grandes mestres do cinema experimental e um nome obrigatório nesta lista.

Obrigatórios: Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring (2003), Samaritan Girl (2004), 3-iron (2004), Time (2006) e Pieta (2012).

KIM KI DUK

Park Chan-wook

A vingança é um daqueles temas que já tem até raízes no cinema. Ainda assim, em pleno séc. XXI, Park Chan-wook teve talento e perícia para construir três das melhores histórias “vingativas” de sempre, culminando numa trilogia que, na nossa opinião, tem entrada directa no Olimpo das trilogias. O sul-coreano é um daqueles realizadores que, após dois ou três filmes, se torna logo num favorito absoluto. A isso não são com certeza alheios os enredos mindblow e os twists inesperados, capazes de deixar qualquer um aturdido com uma insónia dos diabos. As tramas de Park não deixam ninguém indiferente e a vitória do Grand Prix (Oldboy) e Prix du Jury (Thirst) no festival de Cannes são prova disso mesmo.

Obrigatórios: J.S.A.: Joint Security Area (2000), Sympathy for Mr. Vengeance (2002), Oldboy (2003), Lady Vengeance (2005) e Thirst (2009).

PARK CHAN-WOOK

Kim Jee-woon

Com um percurso ainda curto, Kim Jee-woon é talvez o nome mais desconhecido no meio destes tubarões do grande ecrã. A carreira do coreano pauta-se acima de tudo por diversidade: desde o terror (A Tale of Two Sisters ou 3 Extremes II) à comédia (Banchikwang ou The Good, the Bad, the Weird), passando pelo thriller de cortar a respiração (I Saw the Devil), pode esperar-se quase de tudo da parte Kim Jee-woon. Até mesmo um filme de acção, com colaboração de Arnold Schwarzenegger e Johnny Knoxville, que surpreendentemente (not), não correu lá muito bem. Apesar desse “filme”, Kim Jee-woon é um realizador que promete andar por aí no futuro e por bons motivos.

Obrigatórios: Banchikwang (2000), A Tale of Two Sisters (2003), A Bittersweet Life (2005), The Good, the Bad, the Weird (2008) e I Saw the Devil (2010).

KIM GE-WOON

Bong Joon-ho

Esta é uma sugestão bem diferente de tudo o que já leste em cima. Bong Joon-ho é um realizador extremamente obcecado pelos detalhes, por isso, nas suas películas todos os pormenores contam, quer seja para adornar ambiências, para (des)construir uma determinada personagem ou até mesmo para mudar o rumo da narrativa. Este estilo picuinhas pode não agradar a todos, mas é sem dúvida um desafio ao raciocínio e à inteligência de quem vê. Prova disso é o mundialmente aclamado Memories of Murder, definitivamente o mais recomendado de todos os filmes de Bong e um dos all-time favorites de Quentin Tarantino. Sendo o elemento mais jovem da nossa lista, Bong Joon-ho é um nome a não perder de vista nos próximos tempos.

Obrigatórios: Memories of Murder (2003), The Host (2006), Tokyo! (2008), Mother (2009) e Snowpiercer (2013).

BONG JOON-HO