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A Flor do Equinócio: o conservadorismo numa sociedade em mudança

O Mestre Yasujiro Ozu regressa ao Espaço Nimas, depois do sucesso das exibições de Viagem a Tóquio e O Gosto do Saké em 2013. A partir de hoje, os espectadores poderão ver ou rever mais três clássicos do realizador japonês, em cópias digitais restauradas. Um deles é A Flor do Equinócio, primeiro filme a cores do cineasta.

Em A Flor do Equinócio encontramos a história de Wataru (Shin Saburi), um profissional dedicado aos negócios e pai de duas filhas. Liberal nas suas palavras, mas conservador nos seus atos, ele tenta impedir Setsuko (Ineko Arima), a mais velha, de casar com o homem que ama, em virtude de um matrimónio combinado que poderia trazer melhores frutos para toda a família. Com este simples drama familiar, Yasujiro Ozu constrói um conto que contrapõe os preceitos morais e sociais em que Wataru foi enraizado (e que dos quais acabou também por ser “vítima” – não foi ele a escolher a mulher com quem casou), com o espírito de mudança social que começava a sentir-se no país e no modo de vida dos seus habitantes.

Casamento, relações familiares e conflito de gerações são temas recorrentes do Cinema de Ozu, que elaborou, com este filme, um outro olhar contemporâneo sobre os rígidos códigos de conduta da sociedade japonesa do seu tempo. Com todas as marcas visuais, estilísticas e narrativas que tornaram única a obra do realizador, A Flor do Equinócio segue as linhas daquele que poderia ser um banal drama familiar, mas consegue ser muito mais do que isso. Aliás, porque como Ozu não é igual aos outros, não poderíamos esperar uma recriação de temas mundanos e eternos da experiência humana que recorresse aos métodos mais vulgares utilizados para se contarem histórias que se enquadram nestas categorias narrativas.

É a aproximação agridoce a uma realidade social que pode parecer estranha aos espectadores ocidentais, mas que não deixa de ter os seus pontos de contacto com a História do nosso país e nas coisas que, graças a uma mudança de mentalidades gradual, se tornaram coisa apenas ligada ao passado. Apesar de estar relacionada aos preceitos e costumes da cultura japonesa, a ideia de casamentos combinados, originados pela ambição de estatuto social por parte dos familiares das “vítimas” e que opunham o verdadeiro amor entre marido e mulher a um futuro estável e economicamente agradável para ambas as partes, nunca deixou de ser, infelizmente, universal – e há regiões do planeta onde casos destes ainda se sucedem, com a maior normalidade de todas.

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É possível fazer um paralelismo entre a psicologia em conflito no filme com as ideias de um certo livro. Em O Fio da Navalha, o autor Somerset Maugham apresenta ao leitor uma personagem constantemente sedenta de relações sociais hipócritas, cuja finalidade será a de apenas servirem como forma de atingir um lugar de topo na hierarquia imposta pela diversidade de estratos sociais e pelo seu poder económico dentro de uma determinada comunidade. Esse indivíduo, de nome Elliott Templeton, defende o casamento combinado (querendo, a todo o custo, que a sua sobrinha não se una ao homem que realmente ama, mas com o contacto que lhe oferece oportunidades para triunfar na dita redoma elitista) e até, a traição entre esses “falsos” casais. E para Elliott, esse é o ingrediente final para a eficácia desses matrimónios, onde todos saem beneficiados. E se assim é, para que é que vamos danificar todo este esquema, por causa dessa horripilante coisa (que tanto mal provoca na conjuntura do status) que é designada por… amor?

Esta visão pode ter algo de irónico e satírico, mas no fundo, será esse um dos dois fins destas uniões forçadas e interesseiras em que se centra A Flor do Equinócio – o outro é o que contemplamos em Wataru e na relação distante e sempre de desinteresse que mantém com a sua mulher. E no fundo, Wataru não quer defender o mesmo fim para as gerações vindouras… mas acaba por barrar a entrada da modernidade na sua própria casa, à sua filha mais velha. Porque, se “connosco permanecem os sonhos da juventude” (como é dito no filme), talvez este Pai amargurado e angustiado se sinta injustiçado por atribuir à geração que lhe segue as possibilidades que a ele foram cortadas – a esses sonhos que não puderam ser concretizados em virtude do poder desses interesses superiores e das decisões que alguém tomou por si.

É apenas um pequeno exemplo da panóplia de contradições em que o protagonista se aventura ao longo de (quase) duas encantadoras horas de filme. Porque o reflexo da sua experiência de vida acaba por ser determinante para esta batalha ideológica que percorre toda a narrativa – e Ozu explora, com grande inteligência e simplicidade, esse conflito geracional, essa oposição entre as ideias “velhas” e aquilo que é novo, transformando a melancolia dos pais na alegria das filhas em quererem fazer o seu próprio futuro, independente desse tipo de decisões que podem trazer rumos mais tristes e menos livres a cada um.

Com uma espantosa fotografia e uma impecável utilização da cor, Ozu e os seus atores transportam-nos para um outro mundo, diferente do nosso, mas que se move por diferenças delicadas entre famílias e estatutos sociais que não deixam de ser comuns a todos os países. Com ou sem casamentos combinados, as fendas entre gerações continuarão a persistir, abrindo ou fechando o espaço para novas ideias e o caminho para a mudança de opiniões. Uma poderosa e grandiosa pérola do Cinema asiático a (re) descobrir, numa versão digital que realça a beleza das imagens filmadas com precisão pelo cineasta.

9/10

Ficha Técnica:

Título: Higanbana

Realizador: Yasujiro Ozu

Argumento: Kôgo Noda e Yasujiro Ozu, a partir do romance de Ton Santoni

Elenco: Shin Saburi, Kinuyo Tanaka, Ineko Arima

Género: Comédia, Drama

Duração: 118 minutos

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