O mais recente filme de James Gray, protagonizado por Joaquin Phoenix e Marion Cotillard, chega finalmente às salas de cinema portuguesas. Dividindo opiniões na antestreia de novembro no Lisbon & Estoril Film Festival, o Espalha-Factos voltou a assistir à obra e saiu da sala completamente rendido à Emigrante, de nome Ewa.

Ewa Cybulski (Marion Cotillard) e a sua irmã embarcam para Nova Iorque, desde a sua terra natal na Polónia, em busca do “Sonho Americano” e, também, para evitar a guerra que massacrava  o velho continente. Quando chegam a Ellis Island, os médicos americanos descobrem que a irmã de Ewa, Magda (Angela Sarafyan) se encontrava doente e, assim, as duas mulheres são separadas e Magda é hospitalizada na ilha que serve de alfândega. Ewa, por outro lado, é libertada nas ruas de Manhattan. Sozinha, sem a sua irmã e nenhum lugar para onde se virar, rapidamente se deixa apanhar pelas garras de Bruno (Joaquin Phoenix), um charmoso homem que a ilude com promessas de uma vida melhor e dinheiro para ajudar a libertação da sua irmã, mas que acaba por a forçar no mundo da prostituição. A chegada de Orlando (Jeremy Renner), um mágico que também é primo de Bruno, promete abalar o triste mundo de Ewa e restaurar a sua esperança num futuro mais sorridente.

James Gray anda já nas andanças da realização e argumentação por perto de 20 anos, mas ainda só realizou cinco longas-metragens. Desde 2008 que não tínhamos um novo trabalho do realizador norte-americano, Duplo Amor foi a sua obra nesse mesmo ano, um fatídico filme que não só me fez desacreditar em Gray enquanto argumentista e realizador, como me deu mais razões ao ódio que sinto pelo trabalho de Gwyneth Paltrow. Gray apresentava uma desinspiração total, um argumento pseudo romântico que mergulhava as personagens e o enredo numa previsibilidade e futilidade tremendas, num filme que me fez questionar todo o trabalho do realizador. Posto isto, as expectativas criadas em volta de A Emigrante eram incrivelmente pequenas, ainda para mais depois de ter dividido opiniões na última edição do leffest. Mas ainda bem que assim foi, já que desta maneira a magnitude da surpresa ainda foi maior.

the-immigrant-the-immigrant-trailer-looks-complicated-fascinating-oscar-worthy

A Emigrante é, antes de mais, um filme de desconstrução. Uma desconctrução do tão famoso Sonho Americano que fomentou enormes ondas de emigração, principalmente europeia, para os Estados Unidos em pleno século XX. Os clichês associados a este termo, cheio de promessas de uma vida pacífica, endinheirada e suburbana – características de uma classe média, classe média-alta americana – foram completamente destruídos com esta visão mais realista de Gray sobre a emigração e do modo como os americanos a encaravam. A história de Ewa, por mais trágica que seja, é apenas uma pequena representação das atrocidades pelas quais muitos e muitos emigrantes sofriam quando chegavam com as feridas da guerra a uma América intocada. Claro está que a storyline em muito é afetada pela maneira hollywoodesca de fabricar problemas para que a acção se desenvolva, mas mesmo com todo o drama de Magda e o escusado triângulo amoroso, a história de Ewa não deixa de ser menos apaixonante.

É na verdade a personagem de Cotillard que faz com que este filme resulte. Há toda uma fragilidade e inocência no seu papel que força a empatia imediata entre o espectador e a emigrante polaca. Cotillard entregou aqui uma performance fenomenal que só a vem confirmar como um dos grandes talentos da sua geração no panorama cinematográfico actual. A sua entrega frágil, apática e comovente faz com que tenhamos um grande instinto de proteção para com a mesma, queremos entrar dentro do ecrã, abraçar Ewa e sussurrar-lhe aos ouvidos que tudo ficará bem. É fantástico acompanhar esta personagem, ver como cresce, como se adapta às hostilidades da vida e de uma cidade prometida que se revelou cinzenta e dura, tão fantástico que quase nos esquecemos do irritante sotaque falso que Cotillard foi obrigada a impregnar nas suas falas em inglês para que mais se pareça com uma polaca.

Se Marion é o grande motor do filme, Joaquin Phoenix aparece aqui como um bom suporte do mesmo. É eficaz como personagem secundária e o seu Bruno é uma espécie de anti-herói aqui nesta história de Gray. Movido pelo amor, esta é a personagem menos romântica que existe no cinema de 2014, as suas atitudes são completamente antagónicas aos seus sentimentos e esta complexidade é muito bem transposta para o ecrã através deste ator fetiche de James Gray. Mas, ao mesmo tempo que é inevitável reconhecer o talento de Phoenix, uma dúvida começa a surgir na cabeça do espectador, aquele que já viu outros trabalhos do realizador pode começar a questionar se já não viu Phoenix num registo muito idêntico antes. Ou seja, apesar de Joaquin Phoenix ter apresentado uma performance eficaz, saímos da sala com a pequena sensação de que já vimos este ator a fazer este papel antes.

immigrant__140518180826

Já em termos técnicos o filme contradiz-se um pouco. Se em termos de direção de arte temos sets magnificamente bem aproveitados e decorados, capturando a essência de uma boémia Nova Iorque, por outro lado temos uma fotografia que se revela desinteressante e monótona. O problema que temos com esta fotografia é que a mesma poderia aproveitar muito mais do mundo que se criou com a belíssima direção de arte, tirar proveito da mesma e preencher o ecrã de luz, quando necessário, de cinzentos, quando necessário, de azuis, quando necessário. Em vez disso temos sempre a mesma panóplia de cinzentos acastanhados que tornam a história e a ação sempre algo soturna, sabemos que é um drama, mas isso não justifica uma enfadada e desinspirada fotografia.

Em suma, A Emigrante é uma verdadeira surpresa de um realizador que ainda tem um longo caminho para percorrer. Sem qualquer filme na sua carreira que, para já, se qualifique como obra-prima, este seu A Emigrante é um bom ponto de partida para uma nova fase de expansão e crescimento. Revelando, finalmente, o talento que pode ter, Gray pode ainda vir a deixar a sua pegada no mundo do cinema e nós estaremos aqui para ver.

7/10

Ficha Técnica:

Título: The Immigrant

Realizador: James Gray

Argumento: James Gray e Ric Menello

Elenco: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner

Género: Drama, Romance

Duração: 120 minutos