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Autor do mês de julho: A Game of Thrones

Em 1996, George R. R. Martin apresentou-nos ao mundo de Westeros, onde além do rei reina intriga. E com esta experiência somos arrebatados para um novo universo, tão vasto como a Terra Média de Tolkien, no qual ninguém está a salvo e onde tudo poderá acontecer até ao mais nobre dos homens.

(Aviso: esta crítica poderá conter spoilers, seja para os livros, seja para a série televisiva produzida pela HBO)

A Game of Thrones (em Portugal dividido em dois livros: A Guerra dos Tronos + A Muralha de Gelo) é de uma leitura fluída e fácil. Martin apresenta-nos a uma história passada num mundo ficcional, onde cada personagem tem o seu passado e a sua personalidade distinta. Uma das maiores inspirações para o autor foi a Guerra das Rosas: uma série de lutas dinásticas entre duas casas (Lencastre e York) pelo trono de Inglaterra, que duraram 30 anos. De facto, tal é o que acontecerá nos eventos dos próximos livros: uma luta entre vários reis que visam sentar-se num cobiçado trono. Contudo, este primeiro livro d’As Crónicas de Gelo e Fogo começa por nos introduzir ao mundo de Westeros, e também por nos mostrar os eventos que levaram ao começo dessa luta, que continuará nos próximos livros.

Apesar de contada na terceira pessoa, a narrativa permite-nos realmente compreender as atitudes e decisões de determinadas personagens. A mesma vai-nos, também, permitindo conhecer um pouco sobre os eventos passados de Westeros, bem como algumas lendas e contos tradicionais. No geral é de leitura fácil, apesar de algumas histórias e lendas no final serem pouco memoráveis. O que torna esta narrativa única é o facto de a mesma tentar ao máximo ver-se livre de clichés em que o bem vence o mal, mostrando-nos perto do fim que ninguém estará a salvo, independentemente do lado em que estejam.

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Ilustrado por Tei Iku ©

Quando o lorde da casa de Winterfell, Eddard Stark, recebe a visita do seu amigo de longa data e Rei dos Sete Reinos, Robert Baratheon, está longe de imaginar que essa visita acabaria por mudar a sua vida e a da sua família para sempre. Eddard é convidado para desempenhar a posição de Mão do Rei após o anterior detentor desse cargo (Jon Arryn) ter morrido de forma misteriosa. Eddard aceita, pois suspeita que Arryn foi envenenado pela esposa de Robert, Cercei, pertencente à casa Lannister, família conhecida pelos seus esquemas e segredos obscuros. Apesar de pensar que está protegido na corte, Eddard está longe de imaginar que ter os Lannister como inimigos poderá ser fatal, tanto para si, como para a sua família.

Ao longo da história seguimos as perspetivas de várias personagens, nomeadamente da família Stark: temos o honrado Lord de Winterfel Eddard Stark, a sua esposa e mãe dedicada Catelyn Stark (originária da Casa Tully) e ainda de alguns dos seus filhos: Sansa Stark, uma menina de onze anos, Arya Stark, a filha mais nova de nove anos e ainda Brandon Stark de sete anos de idade. Outras personagens que acompanhamos ao longo desta história são Jon Snow, filho bastardo de Eddard Stark com catorze anos de idade, Tyrion Lannister filho mais novo do Lorde Tywin Lannister, anão de nascença e irmão da rainha regente e Daenerys Targaryen, filha do ‘Rei Louco’ Aerys II, uma donzela de treze anos de idade.

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Ilustrado por Denmark ©

À medida que vamos lendo a história, as personagens vão-nos sendo introduzidas quase como pessoas reais, com um passado distinto e cicatrizes que ficaram. Eddard é quase apresentado ao leitor como sendo o herói desta história: um homem que valoriza a sua honra e a sua família acima de tudo. Apesar de tentar sempre fazer aquilo que acha que está certo, seja como lorde de Winterfell ou como Mão do Rei, Eddard vai-se ver metido em inúmeras intrigas e problemas causados por uma corte corrupta e por algumas figuras mesquinhas, nomeadamente aliados da família Lannister. A sua esposa Catelyn Stark tem uma personalidade muito similar à do seu marido. Contudo, a sua característica mais memorável é o facto de ela ser uma mãe dedicada, que fará de tudo para proteger os seus filhos. Apesar de guardar um grande rancor ao seu marido, pela existência do seu filho bastardo Jon Snow, Catelyn detém por Eddard um amor profundo que ambos construíram após um casamento arranjado e uma longa guerra que os separou durante um longo período de tempo.

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Ilustrado por TeiIku©

Já os seus filhos têm personalidades bastante heterogéneas. Sansa Stark, por exemplo, é uma das personagens mais detestadas desta série de livros pela sua personalidade mimada e pela sua arrogância típica de uma criança que acredita em ilusões típicas de contos de fadas, nomeadamente na existência de um ‘amor verdadeiro’ para ela; já, Arya Stark, a filha mais nova, é completamente distinta da sua irmã, não só em personalidade, mas também nos seus sonhos querendo ser uma guerreira e não uma ‘senhora’ conforme muitos desejam que ela seja. Graças à sua personalidade matreira e ‘selvagem’, Arya acaba assim por se tornar numa das personagens mais lembradas pelo leitor. Os contrastes entre ambas as irmãs são sempre colocados em evidência quando seguimos ambos os seus pontos de vista.

O seu irmão, Bran Stark, sofre uma infelicidade quase no começo da trama, quando o irmão da Rainha, Jamie Lannister, o atira da janela. O rapaz após acordar de um profundo coma descobre que a queda deixou-o aleijado e incapaz de mover as suas pernas, sendo uma dura realidade com a qual Bran terá que lidar. Ao mesmo tempo, é o rapaz que tenta averiguar um sonho recorrente que envolve um corvo de três olhos. Ainda seguimos também a perspetiva de Jon Snow, o filho bastardo de Eddard. Apesar de não ter direito ao nome Stark, Jon cresceu com os restantes filhos da família, adotando os seus valores e venerando os mesmos deuses. Contudo, o mistério da sua origem é algo que o intriga e o magoa ao mesmo tempo. Quando o seu tio lhe propõe que se junte à Patrulha da Noite, Jon aceita querendo provar que é mais do que um simples rapaz bastardo.

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Ilustrado por Nordheimer ©

Apesar de o foco deste livro ser maioritariamente em Eddard e em grande parte da família Stark, temos também a oportunidade de conhecer personagens que não estão ligadas a esta linhagem. É o caso, por exemplo, de Tyrion Lannister, que apesar da sua pertença a uma das famílias mais poderosas e temidas de Westeros, é olhado como um pária pelo facto de ter nascido anão e deformado. Tyrion tem um grande rancor para com grande parte da sua família, nomeadamente pelo seu pai, que lhe ensinou uma dura lição aos treze anos: as mulheres não o amam a ele, amam o seu ouro. Apesar de se sentir infeliz por um amor que não deu resultado, Tyrion não deixa de ser uma das personagens mais astutas desta história, e uma das partes que o prova é a forma como ele consegue escapar de um julgamento imposto pela louca irmã de Catelyn, Lysa Arryn.

Daenerys Targaryen é também outra das personagens que acompanhamos ao longo desta história e é um bom exemplo de uma personagem que muda do início para o fim do livro. Ela começa como uma criança assustada, vendida como uma escrava a Khal Drogo pelo seu irmão Viserys Targaryen. No entanto, o seu casamento e convivência com um povo diferente, progressivamente permite-lhe crescer, tornando-se numa mulher mais confiante que começa a ver o irmão Viserys por aquilo que ele é, um ‘rei pedinte’. No fim, após uma dura lição que lhe custa o seu amado Drogo, Daenerys ergue-se literalmente das cinzas, tomando para si o objetivo do seu irmão: reclamar o trono que é seu por direito. E a seu lado não estará somente parte do seu novo povo, mas também os seus três ‘filhos’, neste caso três dragões que lhe valerão o nome de ‘mãe de dragões’ e que a introduzirão como sendo uma potencial candidata ao trono que lhe está a ser negado.

 

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Ilustrado por Michael Komarck ©

A Game of Thrones é um livro definitivamente recomendável, tanto para fãs de fantasia, como para aqueles que simplesmente gostem de ler uma nova trama. É o género de história onde reinam surpresas e no qual as ações das personagens tornam-se em pontos que no final ditarão o seu destino. Nem sempre o bem vence o mal e nem sempre o Rei detém poder sobre a sua própria corte. Este livro é o começo de uma história ainda maior, na qual a maior ânsia para o leitor no final é a de saber o que se seguirá em A Clash of Kings.

Nota: 9/10

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