Planeta dos Macacos: A Revolta

Planeta dos Macacos: A Revolta… que deu em desilusão

Talvez seja porque chegou com boas críticas a Portugal ou simplesmente porque é a sequela de um dos reboots mais inteligentes de sempre. A verdade é que Planeta dos Macacos: A Revolta é uma enorme desilusão.

O filme passa-se 10 anos depois dos acontecimentos de Planeta dos Macacos: A Origem. Os humanos foram dizimados pelo vírus símio, que permitiu aos macacos criarem tranquilamente uma comunidade bem organizada, liderada por Caesar. Mas quando um grupo de sobreviventes põe em perigo a sua vida, um clima de tensão vai surgir, estando eminente uma guerra entre humanos e macacos.

Houve várias mudanças em relação ao filme de 2011. Primeiro, o elenco foi quase totalmente renovado, com James Franco a dar lugar a Jason Clarke como personagem principal humana e a entrada de novos atores a dar vida a novas personagens, onde se destaca Gary Oldman na pele de Dreyfus. Matt Reeves sentou-se agora na cadeira de realizador, anteriormente ocupada por Rupert Wyatt, e entrou um novo elemento para a equipa de argumentistas. Todas estas alterações fizeram-se sentir na qualidade de Planeta dos Macacos: A Revolta.

Desta vez, os macacos, principalmente Caesar, são as verdadeiras personagens principais. Os primeiros minutos do filme são aliás demonstrativos disso mesmo, onde vemos uma comunidade bem organizada, liderada por um Caesar com mulher e filhos e acompanhado pelo seus fiéis amigos símios, constituída por macacos que comunicam uns com os outros em língua gestual e que caçam em grupo. Durante uns bons 15 minutos não se ouvem palavras, estamos completamente submersos no mundo dos macacos, rodeados pelos sons da natureza e do arfar de cada um deles, o que acaba por ser uma experiência engraçada.

Mas à medida que a história avança, e com a entrada das personagens humanas, vai começando a salientar-se a verdadeira ambição (ou falta dela) dos criadores do filme. Há uma tentativa desesperada de criar sentimentos no público através dos dramas de Malcolm e Ellie, dois dos que resistiram ao vírus e que se tornam próximos de Caesar. Ambos perderam alguém importante devido à epidemia que avassalou o planeta Terra, ambos têm o papel de bonzinhos e são defensores dos macacos, mas é difícil importarmo-nos com isso. Isto porque o argumento não tem ponta de originalidade, é feito de diálogos cliché que nos desafiam a adivinhar o que cada personagem vai dizer a seguir, não dando o mínimo interesse às suas vivências. Depois, nem Jason Clarke nem Keri Russell têm interpretações que os soltem destes problemas, oferecendo ambos performances muito mornas. Se em Planeta dos Macacos: A Origem era fácil gostar dos heróis humanos, especialmente de James Franco, agora só queremos que eles vão embora o mais rapidamente possível.

O drama acaba por alastrar-se como um verdadeiro vírus até às outras personagens. De repente temos que ver Caesar em momentos familiares, protagonistas menores a chorar por (também!) terem perdido alguém e momentos fofinhos que querem muito nitidamente pôr o público com uma lágrima no canto do olho, como quando vemos Ellie a brincar com um macaquinho bebé ou Dreyfus a olhar para uma foto da sua família morta, num momento em que ainda mal nos afeiçoámos a ele. Escusado será dizer que nenhum destes momentos vão agarrar o público, de tão aborrecidos que são. Com tudo isto o prometido confronto entre homens e macacos vai sendo adiado por uma história chata e repetitiva, que pensa conseguir enganar o espectador levando-o a pensar que algo de surpreendente aconteceu, quando na verdade toda a gente já percebeu o que se está de facto a passar, quer seja pela previsibilidade dominante na película quer seja pelo trailer revelar muita informação logo à partida.

Tudo o que de bom se fez no filme anterior foi deitado por terra. A equipa que criou Planeta dos Macacos: A Origem não fez só um reboot mas sim algo de novo, com momentos emocionantes e até um convite a debater assuntos como a experimentação laboratorial em animais. Mas agora temos apenas uma sequela, um filme que se aproveitou do sucesso do anterior para escalar na box office mas que nada ofereceu de novo. É emocionalmente vazio, podia fazer uma metáfora sobre as minorias e, no mínimo, mostrar um planeta destruído através de uma visão apocalíptica, mas nem isso. Durante mais de duas horas a sensação é de que não se passa nada e que este filme serviu apenas para construir a história de um terceiro capítulo no franchise.

Podemos ainda encontrar em Planeta dos Macacos: A Revolta os erros a que já estamos habituados nos grandes blockbusters: não vemos ninguém a recarregar as armas (as munições parecem ser infinitas!), há uma enorme quantidade de plot holes e inconsistências na narrativa que parecem estupidificar cada personagem e reina a lei do style over substance. Sim, porque o que falta em história sobra no estilo, como quando Koba, o primeiro macaco a querer guerrear com os humanos, salta pelo fogo a cavalo e com uma AK-47 na mão. Pode parecer badass, mas não compensa em nada a mediocridade que antecede este momento. E, como qualquer filme de grande orçamento desde o sucesso de Christopher Nolan, não pode aqui faltar um ar sombrio que já começa a irritar por não dar qualquer ênfase ao que quer que seja, ajudando apenas a concluir que este Planeta dos Macacos se reduziu a banalidade de outras obras que têm saído de Hollywood ultimamente.

Mas é tudo mau por aqui? Não, longe disso. Do lado dos macacos, Andy Serkis está perfeito a dar vida a Caesar, com uma performance repleta de pequenos pormenores, enquanto que Gary Oldman se destaca como a melhor personagem humana, que não deixa de estar mal construída mas graças ao bom ator que a suporta sempre se torna mais interessante. Os efeitos especiais estão fantásticos, as cenas de ação, por muito tarde que cheguem, são muito boas e a banda sonora composta por Michael Giacchino faz lembrar vagamente um ou outro filme de Spielberg.

A dado momento do filme, Caeser diz que o macaco se apoia sempre no ramo mais forte. Os criadores de Planeta dos Macacos: A Revolta seguiram este lema, ao agarrarem-se ao sucesso do antecessor sem tentarem fazer algo melhor. Com personagens paupérrimas e uma história que aposta num lado dramático que ninguém consegue tornar interessante, esta é uma longa-metragem que vai desiludir muita gente, tanto os fãs das excelentes obras originais (a dos anos 60 e a de 2011) como os admiradores de filmes de ação.

4/10

Ficha Técnica:

Título: Dawn of the Planet of the Apes

Realizador: Matt Reeves

Argumento: Mark Bomback, Rick JaffaAmanda Silver

Elenco: Andy Serkis, Jason Clarke, Keri Russell, Gary Oldman, Toby Kebbell

Género: Ação, Ficção Científica

Duração: 131 minutos

  1. Tenho de discordar. Acho que este filme é um blockbuster bastante bom, aliás, dos melhores nos últimos anos.

    Tem uma forte componente dramática, sublinha bem as diferenças, desentendimentos, ódio, amor entre as duas espécies e tem muito bons efeitos especiais.

    O realizador Matt Reeves é fantástico. Deixa-me Entrar (2010) é um dos meus filmes favoritos e tem aquele tom escuro e acastanhado, tal como este filme, que na maioria se passa de noite, o que dá um tom negro ao filme, afastando-se da fotografia “amigável” do seu antecessor.

    Todos os atores tiverem boas performances, especialmente Andy Serkis, na pele de Caeser

    Eu dou a este filme 8.0/10 – um filme sólido, inteligente, dramático com uma excelente realização e fotografia

    1. Olá Tiago
      Antes de mais obrigado pelos teus comentários.
      Não vou aqui responder a este teu primeiro comentário porque estaria a repetir-me. Sumarizando, não gostei do filme, não achei que tivesse uma forte componente dramática, tirando o Serkis e Oldman achei o elenco mediano e não achei o filme muito inteligente. Concordo contigo nos efeitos especiais e considero que Matt Reeves até que nem esteve mau (gostei daquele plano sequência lá para o fim e dos primeiros 15 minutos “mudos”).
      Quanto ao argumento, não achaste mesmo muito cliché? Aqueles diálogos entre os humanos já estão muito usados, tive uma sensação de dejá vú imensa. Quase que se conseguem adivinhar as falas das personagens. Talvez tenho tido algum hating, sim senhor, porque fiquei muito desiludido com o filme, e considero que ainda tenho que treinar conter-me nas críticas quando fico desapontado, mas o argumento chateou-me particularmente.
      Já o Kill Bill, talvez seja suspeito para falar porque adoro o Tarantino, mas o argumento é mesmo bom! Os diálogos não são só seis… Tens a apresentação das personagens com monólgos incríveis (aquela cena em anime é fenomenal) e as conversas que a Noiva tem com as demais personagens são muito boas. O primeiro Kill Bill pode ser um pouco style over substance (embora considere que há tanto style quanto substance), mas o segundo tem momentos incríveis, devido essencialmente ao argumento.
      Espero ter respondido às tuas questões, senão volta a comentar que eu estou aqui para responder. E continuação de boas leituras no Espalha Factos 🙂

      1. Em relação ao Planeta dos Macacos, não achei muito cliché. Houve alguns mas acho que eram necessários e escaparam ao seu estilo standard, não sei explicar muito bem por isso vou dar um exemplo: quando o Koba incendiou o acampamento dos macacos e disparou sobre César (cliché – membro revolta-se contra o líder do império, por estar contra as suas ideias passivas, com a intenção de proteger o seu povo por mais violentas que sejam as maneiras de o fazer) . Foi entusiasmante? Sim. Deu uma nova nova reviravolta no argumento? Sim. Usou esse cliché de uma forma mais criativa? Sim.
        Se não fosse esse cliché, o argumento tinha sido ainda pior, por isso considero este e alguns outros clichés necessários para argumento e que (para mim) não foram aborrecidos como a maioria dos clichés

        Acho que tem razão em relação ao diálogo. Podia ter sido melhor, especialmente entre as personagens humanas. As vezes sentia-se um bocado forçado para o argumento resultar ou para explicar um certo acontecimento à audiência, não sendo realista, por vezes.

        Em relação ao Kill Bill, acho que vou ter que ver esse filme outra vez porque não gostei absolutamente nada. Eu adoro o Django Libertado (acho que é a verdadeira obra prima de Tatantino), é dos meus filmes favoritos, mas não gosto lá muito do resto da sua filmography, tirando Pulp Fiction

        1. Olá outra vez Tiago,
          Quando digo que há um cliché no argumento, não é propriamente pelo que se passa no filme. Quando o Koba dispara sobre o Caesar, por exemplo, não é inovador. Os acontecimentos do filme anterior também não o eram, mas a grande diferenças entre um e outro está nos diálogos. Planeta dos Macacos: A Revolta é mesmo muito pouco original no que toca às palavras das personagens, vi agora por este teu último comentário que também achaste.

          Quanto ao Tarantino, acho que é um realizador que dificilmente vai convencer a 100% alguém. Eu próprio que sou fã não gostei do À Prova de Morte, da mesma forma que tu gostaste muito do Django e do Pulp Fiction mas não achaste piada ao Kill Bill. Mas aconselhava-te mesmo assim a voltar a ver esta obra, especialmente o 2.º capítulo, que tem um grande argumento.
          Continuação de boas leituras aqui no Espalha Factos 🙂

  2. Eu vi o filme e gostava de ler um pouco mais sobre o que o põe numa categoria tão redutora. Vou apenas pegar em algumas pontas soltas do que foi escrito, porque poderia pegar em muitas mais. Segundo o autor da crítica, o diálogo é desinspirado e a história parece “aclichezada” porque algum familiar/conhecido morreu. Aceito que o diálogo às vezes o seja (aliás, qual é o filme de acção que tem diálogo inteligente?); No entanto, sendo o filme passado num mundo pós-apocalíptico, presumo que seja normal familiares e conhecidos terem falecido… Ou isso é apenas um cliché que diminui o filme? Escreve ainda “É emocionalmente vazio, podia fazer uma metáfora sobre as minorias e, no mínimo, mostrar um planeta destruído através de uma visão apocalíptica, mas nem isso. ” O filme não apresenta metáforas, mas, demonstra de forma bem clara o porquê das guerras que hoje mesmo estão a ser travadas: pequenas falhas de comunicação, atrocidades antigas, que só são levadas ao extremo pelos instintos humanos instaurados nos símios. Um comentário bem feito à situação que se vive em muitos lugares deste planeta, e que no entanto é escarnecida pelo autor como sendo simplesmente algo “emocionalmente vazio”. No entanto, a hipótese apresentada em relação a “minorias” ou “planeta destruído” é, quer a nível de originalidade, quer a nível de conexão emocional, uma muito melhor hipótese, que deveria ser, a toda a velocidade, transformada em argumento para Hollywood! Oh, espere… Já foi: em 2009, e tem o nome de Avatar, um dos filmes com maior taxa de clichés por minuto. O crítico tentou, muitas vezes, brincar ao “adivinha” com o que o público vai achar de forma bastante directa, o que é um tremendo erro. Ninguém reage exactamente da mesma maneira a nenhum filme: e se o critico generaliza a sua opinião ao resto do público, lamento dizer que me parece só estar a escrever esta critica para outros críticos a lerem. E com isto quero apenas terminar dizendo que gostaria de ler uma crítica isenta e argumentada ao filme: que tem falhas, mas que quase nada têm a ver com o que aqui foi escrito.

    1. Olá Um Leitor,
      Antes de mais obrigado pelo comentário.
      Já viste o Looper? Ou A Origem? Ou o Kill Bill? Se não, aconselho-te vivamente! Mas se já viste acho que vais concordar com o que vou dizer de seguida: os três têm bons argumentos e não caem em clichés. Não digas que não há filmes de ação sem diálogos inteligentes, basta procurares melhor. Mesmo outros filmes deste género podem ter como ideia base um cliché, mas depois conseguem criar algo de interessante. A história de Planeta dos Macacos: A Revolta não é de todo original, mas mais aclichezada fica quando tudo o que é diálogo já se ouviu em tantas outras obras. Claro que não se podem censurar pessoas que perderam familiares ou amigos num mundo pós-apocalíptico. Mas será esse o único problema das personagens, o único drama que por ali anda? A falta de eletricidade, comida e assim nem parecem incomodar tanto quanto andar ali a chorar por quem já não existe!
      Não achei que o filme mostrasse de forma “clara” o que origina as guerras por todo o mundo, muito menos que funcionasse como um comentário à situação que se vive em muitas partes do mundo. Achas mesmo que os confrontos na Ucrânia e a guerra na Palestina podem ser comparados às lutas entre macacos e humanos? Eu acho que não.
      Já agora, eu sei muito bem que ninguém reage da mesma forma a um filme, mas há momentos no Planeta dos Macacos: A Revolta que não conseguem enganar ninguém. Até te dizia quais são, mas estaria a dar um enorme spoiler.
      E agora faço-te uma sugestão: faz a tua própria critica! Teria muito gosto em lê-la. Podes colocá-la na caixa de comentários do meu blog (tens o link aí em cima, na parte do ‘Sobre o Autor’). Gostava de perceber melhor o teu ponto de vista sobre algumas das coisas de que falas no teu comentário. Também gostava de perceber o que é para ti uma crítica isenta e argumentada do filme, porque penso que esta está assim escrita, sem ter deixado quaisquer pontas soltas.
      Continuação de boas leituras aqui no Espalha Factos 🙂

      1. Sei que vou estar um bocado off-topic aqui (agradeço que responda ao meu comentário anterior) mas como é que pode afirmar que Kill Bill tem um bom argumento? É uma história de vingança, ela tem uma lista de pessoas para matar, por isso prepara-se e mata-as. Esse filme é o título definitivo de “style over substance”, apesar de eu nem gostar do estilo. 40% do filme são pessoas a jorrar sangue por todo lado, e não creio de tenha diálogo interessante (tem quantas? 6 frases de dialogo) pois é muito curto.

        Entretanto, concordo que Looper e A Origem sejam originais e interessantes, especialmente A Origem, que é dos meus filmes favoritos.

        Só queria que me explicasse a sua opinião sobre o Kill Bill e que pudesse dar uma revisão no argumento do Planeta dos Macacos: A Revolta, porque sinto algum “hating” na sua crítica

        Cumprimentos

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