Uma semana de Teatro Associativo, num espaço acolhedor e convidativo, a preços acessíveis. O Espalha-Factos esteve no segundo dia de DRAMA 2014 – II Jornadas de Teatro Associativo da Amadora para assistir à peça Eu, a Mulher-Macaco, dos Valdevinos Teatro de Marionetas, com texto de Veckío Mendonza. Máscaras, Música, História e Risos – estamos cá para te contar tudo!

No centro da cidade da Amadora encontramos um edifício que destoa dos demais. Um espaço que remonta ao verão de 1914, quando inicialmente foi inaugurado. Desde então já foi alvo de sucessivas remodelações e hoje, 100 anos depois da sua construção inicial, restam apenas o foyer e a fachada principal. O passar dos anos pode ter alterado muito, mas não mudou a sua essência. Os Recreios da Amadora continuam a ser um lugar especial. Um lugar de arte. Um lugar de magia. E foram agora lugar para a maior magia de todas: o Teatro.

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De 16 a 20 de julho, os Recreios da Amadora acolheram o DRAMA 2014 – II Jornadas de Teatro Associativo da Amadora. O festival assumiu como identidade o reconhecimento do Teatro enquanto forma de auto-conhecimento, transcendência e tomada de consciência sobre o mundo, assim como a celebração do Homem e da sua capacidade de associação através da arte. Por isso mesmo, este ano, o DRAMA 2014 procurou incorporar na sua programação espetáculos que explorassem essa mesma dimensão do Ser Humano, convidando diversos teatros associativos e independentes portugueses.

Ontem, estivemos por conta dos Valdevinos Teatro de Marionetas. O espaço ainda estava algo vazio quando cá chegámos, portanto tivemos oportunidade para subir ao piso de cima e observar a exposição sobre os 40 anos de teatro associativo. Desde o 25 de abril até à atualidade, a história do Teatro na Amadora chegou-nos através de artefactos como cartazes, notícias e adereços de peças representadas no DRAMA – há quem diga ter visto até uma santa brasileira queimada, usada na peça Rituais da Terra! Se tiverem sorte, talvez possam ainda trocar uns dedos de conversa com alguns dos membros da organização (como Porfírio Lopes, Vice-Presidente para a área artística do Teatro Passagem de Nível) sobre o atual papel do teatro e a sua receção por parte do público – caso tenham perdido a sessão da Mesa Redonda no dia 16.

Exatamente às 21h30, descemos até à entrada do auditório principal. Não tardava até que as luzes se apagassem e um homem, que envergava um clássico traje de “mestre de cerimónia”, segurando uma lanterna à altura dos olhos, nos convidava num forçado sotaque britânico a entrar para assistir a um “milagre da natureza”, «se nos atrevermos». E atrevemo-nos.

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Apesar de longe de estar cheia, a sala em que entramos estava preparadíssima para o propósito que servia: cativar e entreter a audiência desde o primeiro instante. O ambiente era literalmente espetacular, fomos levados a acreditar que estávamos mesmo prestes a assistir ao espetáculo de uma feira de aberrações no século XIX. O fumo, o som e a iluminação submergiam-nos numa atmosfera arrepiante.

Eu, a Mulher-Macaco é o nome da peça que os Valdevinos Teatro de Marionetas nos apresentaram. A história da célebre Mulher-Macaco, Julia Pastrana, ganha destaque nesta homenagem do Grupo de Teatro dos Valdevinos, depois dos seus restos mortais terem, finalmente, sido transladados no ano passado para o México, a sua terra natal.

Começámos por ouvir, em deferido, o testemunho de Laura Anderson Barbata, a artista mexicana que promoveu a campanha que conseguiu trazer Julia Pastrana de volta ao seu país, a qual culminou numa acesa batalha judicial, dado que o corpo embalsamado da Mulher-Macaco deambulava pela Europa, de exposição em exposição, há décadas. Barbata alega que o retorno de Julia Pastrana ao México era imperativo, já que, segundo a Declaração dos Direitos do Homem, nenhum ser deve ser descriminado, independentemente do seu género, raça, nacionalidade, religião ou características físicas.

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Julia Pastrana, a protagonista, interpretada por Sofia Portugal, é uma mulher que nasceu com hipertricose, uma doença que faz com que toda a sua pele seja excessivamente revestida por pelos, conferindo-lhe uma aparência animalesca, semelhante a um orangotango. Apesar de, por dentro, Julia ser uma mulher normal (com sentimentos, paixões e aspirações), era considerada por todos uma aberração. Casou com um empresário artístico, Theodore Lent, que a expôs em espetáculos ambulantes pelo mundo, onde era apresentada como a “Mulher-Macaco”, uma criatura selvagem e perigosa.

O espectador da peça passa aqui a ser espectador do circo da Mulher-Macaco. E nesta comédia bizarra, é Theodore Lent quem nos vai apresentando as estranhas criaturas que compõem o freakshow. E que bem que o faz!  Fernando Cunha, ator e um dos encenadores, constrói um “boneco” fabuloso, trazendo uma grande componente cómica a um personagem que, à partida, seria detestável. Desde os anões que «comem pedras, comem carne humana e comem-se uns aos outros», se for preciso; passando pelo Garrafiel, o homem que prevê o futuro e julga viver preso dentro de uma garrafa (mas na verdade é só irremediavelmente bêbedo) – um dos momentos que arrancou mais gargalhadas, mas também mais arrepios, à plateia presente – e até à consagração de uma deliciosa cerimónia matrimonial onde são trocadas bananas em vez de alianças; tudo até chegar ao número-final, um milagre que acontece «Só today! Só today!»: o nascimento do filho da mulher-macaco.

«Se fosse hoje em dia, ela concorria para a Casa dos Segredos e aceitavam-na logo!», ouvimos alguém brincar à saída da peça. Comentário oportuno.

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Apesar de ser uma comédia, Eu, a Mulher-Macaco tratou questões complexas, nomeadamente a multidimensionalidade ou a desumanização do Ser Humano e até as implicações do show business.

Espetáculo versus realidade (Julia Pastrana, a mulher-macaco, por oposição a Julia Pastrana, a mulher) é a questão permanentemente em cima da mesa. Levar o espectador a distinguir ambas e repulsar-se consigo próprio se alguma vez as confundiu e aglutinou, nesta ou em qualquer outra “mulher-macaco” deste mundo.

Dois atores, um conjunto de marionetas e um músico que toca uma série de instrumentos que proporcionaram momentos acústicos, acompanhando e valorizando, em muito, a performance. É tudo o que é preciso. Se há algo a retirar do DRAMA 2014 é que o teatro associativo, o teatro amador, é teatro com valor.