SBSR, dia 19: O melhor ficou definitivamente para o fim

Dia 19 de julho de 2014: o derradeiro dia do festival do Meco lança as suas cartas para a reta final: os seus trunfos mais fortes surgem em forma de The Kills, Dead Combo, Foals e os todos poderosos Kasabian. Não houve Massive Attack, mas o último dia do Super Bock Super Rock foi sem dúvida o mais coeso e elevado em termos de qualidade.

Num fim de tarde que parece claramente despido de gente, vir-se-ia a confirmar mais tarde que este terá sido o dia com menos público, Albert Hammond Jr. surge de guitarra em punho e parece estranhar isso mesmo: “Wow this intimate“. Longe da enchente que ali viu quando atuou com os The Strokes, o guitarrista, agora sem caracóis, desfiou alguns dos temas dos seus únicos discos a solo até à data – Yours to Keep (2006) e Como te Lhama? (2008) – e do mais recente EP AHJ.

Aqui e ali com pontos altos, nomeadamente nos temas Scared ou In Transit mas sobretudo nas covers de Buzzcocks (Ever Fallen in Love) e The Misfits (Last Caress), para o bem e para o mal, Albert Hammond Jr. nunca se distanciará das guitarradas caraterísticas dos The Strokes, fazendo-nos sempre ter saudades do coletivo original. Ainda assim, note-se a dedicação, o esforço e o talento de Hammond Jr. e dos músicos que o acompanharam, que serviram uma boa entrada para o rock n’roll que marcou a última noite no Meco.

Albert Hammond 8

Às 21h10, no palco EDP, o quinteto nova-iorquino chamado Skaters faz a sua estreia em Portugal. Na bagagem trazem Manhattan, o disco de estreia de qual se serviram para debitar os temas do seu alinhamento. Deadbolt, Band Breaker, I Wanna Dance (But I Don’t Know How) e a inevitável Schemers foram alguns dos altos de um concerto de uma banda jovial e animada com bastante pinta, mas que acabou por tocar para uma plateia algo interessada mas maioritariamente estática e pouco envolvida. A estreia dos Skaters não deixou mossa.

Skaters 7

Um pouco mais tarde no palco maior do evento, Alison Mosshart e Jamie Hince, duo maravilha que responde pelo nome The Kills, encantariam uma plateia generosa com o seu rock de garagem muito inspirado no blues. Donos dos melhores dance moves do festival inteiro, o par deu o concerto que toda a gente pedia. Mosshart prova porque é que é uma das melhores (se não a derradeira) frontwoman do rock contemporâneo com a sua incrível voz e a presença inconfundível que dá toda uma nova alma aos temas dos norte-americanos.

No Meco foi possível ouvir a velhinhas No Wow, Monkey 23, bem como os já clássicos Future Starts Slow e Black Balloon. Uma prestação dedicada, perfecionista e sobretudo a transbordar de confiança. Os The Kills não são tolos nenhuns e sabem bem o que fazem. Uma dose de rock n’ roll do mais puro que se pode ter atualmente.

The Kills 14

E é logo a seguir que chega um dos concertos mais antecipados pelos festivaleiros que por aqui têm passado. Os britânicos Foals voltam a Portugal pela segunda vez na tour Holy Fire e prometem converter toda a gente ao seu math rock ornamentado com um brilhante espetáculo de luzes e lasers.

A intro do terceiro disco dá o mote ao início de um concerto lotado, com milhares de fãs desejosos de pular ao som das guitarras acutilantes e rigorosas da banda liderada pelo vocalista Yannis Phillipakis. Seguem-se temas do aclamado disco de estreia, Antidotes, como Olympic Airways (incrível rendição ao vivo) aliado a temas mais recentes como Milk and Black Spiders, Late Night, o “hit” My Number e o inevitável Spanish Sahara.

Destaque especial para o público que mostrou durante todo o concerto uma dedicação enorme na receção à banda, cantando em uníssono não só com Yannis mas também com os teclados e os riffs eletrizados daquilo que é provavelmente um dos grupos britânicos recentes mais promissores da nova cena musical. É fácil imaginar estes Foals a liderarem o alinhamento de edições futuras de qualquer festival. A energia e a garra demonstradas por este quinteto colocou este concerto na história da edição de 2014 do SBSR. Um dos melhores da noite e um dos melhores do ano. Para terminar, One Step, Two Steps, numa versão ao vivo épica que encerrou um dos espetáculos com o melhor ambiente. Intenso é a palavra que procuramos.

Foals 10

A madrugada já está a iniciar-se e no fundo do palco e já é visível o “48:13” gigante. Os Kasabian ficaram com a tarefa de encerrar o palco principal e souberam fazer bem o seu trabalho. O número anteriormente referido é obviamente o título do mais recente álbum, de onde desfilaram alguns dos momentos mais elétricos e insanos de um set que durou quase duas horas e foi ao encontro do melhor que há na generosa carreira de uma década ostentada por estes britânicos.

Com um chapéu estiloso, calças com pernas de esqueleto e uma t-shirt a dizer 100 ml (os rapazes sabem onde vieram tocar), Serge Pizzorno apresenta-se com o carisma do costume. Ao lado, o espalhafatoso Tom Meighan inaugura o barulho com Bubblebee, do mais recente álbum. O público não se ressentiu da euforia de Foals e salta efusivamente, obedecendo com rigor aos “jumps” de Pizzorno. Segue-se um alinhamento que passa por Club Foot, Shoot The Runner, Underdog e Days Are Forgotten, temas que rapidamente conquistam o público e colocam dezenas de milhares aos pulos.

Estes Kasabian continuam com a mesma atitude confiante e perigosa com que se apresentaram nas suas últimas passagens por terras lusas, mas claramente são uma banda que está diferente e está a sonhar numa escala cada vez maior. Com um espetáculo de luzes elaboradíssimo e uma química incrível entre o guitarrista e o vocalista (que muitas vezes premutam a função de mestre de cerimónias, com Meighan a afastar-se em algumas ocasiões), os Kasabian ofereceram ao Meco a sua melhor prestação nacional até à data. Tudo o que já era incrível em palco foi ampliado para dimensões bíblicas.

Kasabian 4

Os britânicos são o exemplo perfeito de como se dá uma festa e um espetáculo sólido e com substância ao mesmo tempo. O que se viveu nesta noite foi um exemplo demonstrativo de um grande concerto de rock (e ocasionalmente de hip-hop e EDM). Com todo o dramatismo que precedeu Empire (“Lisbon, you are an Empire“, declara Meighan) e o momento David Guetta que foi eez-eh, os Kasabian equilibraram perfeitamente a dicotomia agressividade/flow. Não faltou nem sequer uma reprodução de Black Skinhead, do controverso Kanye West e um grande momento de clubbing com Treat, faixa que por muitas vezes pisca ao olho aos melhores momentos do hip-hop atual.

 Existiram momentos mais contemplativos e sonhadores como ID e Stevie, aliados à festa que são canções como Re-Wired e Lost Souls Forever. Mas o melhor ficou definitivamente para o fim: Após uma curta ausência, já depois da “despedida”, a banda entra ao som dos teclados ácidos de Switchblade Smiles. O público endoidece e a doença fica ainda pior quando soam os primeiros acordes de Vlad The Impaler (onde nem faltou a ignição de um flare de sinalização). Para encerrar, o imortal coro que é Fire soa nas vozes de toda a gente e coloca o ponto final numa setlist muito inteligente. Está feito, a plateia está rendida aos pés dos ingleses e encontra-se arrasada mas feliz. Foi “Eez-eh“.

Alexandra Silva e André Franco
Fotografia: Cátia Duarte Silva

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