O segundo dia do Super Bock Super Rock previa enchente com um dos nomes mais antecipados do festival agendado para tocar. Falamos obviamente de Eddie Vedder, imortal líder dos Pearl Jam, que devido a um atraso, chegou a deixar os milhares de festivaleiros numa ânsia mais aflitiva. Isto num dia que também foi marcado por algumas trocas e adiamentos inesperados devido à chuva que se fez sentir.

Os espetáculos neste dia começaram bastante mais tarde do que normalmente se espera num festival de verão. A primeira atividade musical estava agendada no palco EDP às 18h40, cortesia dos lusos For Pete’s Sake. Com um estilo que vagueia entre a dream pop e um rock mais standard, o conjunto soube animar a generosa plateia com que foram recebidos. Com um desfile dos seus primeiros temas, foi um início deveras morno.

E morno continuaria o dia, mas ligeiramente mais pesado e distorcido com os também portugueses Keep Razors Sharp. Este grupo constituído por membros de Riding Pânico e Sean Riley and The Slow Riders, Capitão Fantasma e The Poppers ofereceu ao palco Antena 3 uma descarga elétrica de um rock que ora roçava o psicadélico, ora piscava o olho à vertente mais pesada e espalhafatosa do género. Uma prestação sólida de uma banda discreta que valerá a pena manter à vista no futuro.

Cults 7

Os concertos iniciaram-se no palco principal com os nova-iorquinos Cults, que se estrearam no nosso país, como a própria vocalista Madeline Follin sublinhou. Se em disco (contam com dois registos, Cults de 2011 e Static de 2013) as músicas são agradáveis para acompanhar uma viagem ou um jantar entre amigos, ao vivo tornam-se pouco interessantes e a espaços até entediantes. Temos pena.

Já no cair do sol e pela noite dentro surge aquele que é dos nomes mais barulhentos deste cartaz. Os Pulled Apart By Horses são de Leeds (tal como orgulhosamente mencionaram durante o concerto) e não estão para brincadeiras (já que até o soundcheck envolveu gritos e palavrões. Assim que soa o primeiro acorde rapidamente percebemos que os rapazes estão nisto de corpo e alma. Por cima do grito agudo e estridente do vocalista, temos James Brown, o homem do machado, a pular desenfreadamente e a espernear-se no chão enquanto se toca o punk mais agressivo que o Meco ouviu este ano.

Back to The Fuck Yeah, I Punched a Lion in The Throat e o novo single Lizard Baby foram muitos dos brindes que o grupo presenteou a uma plateia que ao início era reduzida e pouco entusiasmada. Mérito aqui para a banda, que muito fez (referindo até estórias da sua primeira passagem por Portugal em 2008) para levantar a energia do público, que rapidamente se fundiu num turbilhão de saltos e empurrões. Tudo isto debaixo de uma chuva progressivamente maior.

Acabaria por ser a chuva a obrigar a banda a retirar-se antecipadamente, mas não sem uma dose de crowdsurfing por parte de Tom Hudson. Uma das prestações mais sólidas do festival. Essa mesma chuva acabou por adiar os restantes concertos no Palco EDP: Sleigh Bells e Cat Power. Infelizmente devido a algumas informações incoerentes sobre os novos horários, a redação acabou por não conseguir assistir ao primeiro dos acima mencionados espetáculos.

Cat Power 2

Era perto da 1h00 e Cat Power apresentou-se em palco com a ajuda de uma banda e reinterpretou os seus temas. Logo a abrir The Greatest, e de seguida Cherokee, seguindo-se Lord Help The Poor and Needy, que abriu o espaço às covers, que Cat Power tanto gosta de fazer. Num concerto claramente dado “à pressa”, Chan Marshall mais gordinha e claramente de bem com a vida, não deixou de fazer juras de amor aos portuguesesm distribuindo coraçõezinhos com os dedos das mãos e até flores. Dali a bocado haveria de se juntar a Eddie Vedder em palco.

Com isto, ainda tivemos tempo de ir ao palco Antena 3, onde Capicua dominava o espaço completamente preenchido e a rebentar pelas costuras num dos ambientes mais feel good e divertidos vistos até agora neste festival. O público, ultra receptivo aos apelos da rapper do Norte, acompanhava de peito cheio os temas de Sereia Louca e Capicua, enquanto era brindado com ilustrações bastante interessantes no ecrã atrás. Após afirmar que nunca esqueceria aquela noite, nós mesmo podemos afirmar: Tão cedo não nos esquecemos nós também. Excelente trabalho.

No vai-vem das trocas e baldrocas para saber o que aconteceria no Palco EDP, Woodkid recriava o ambiente único que protagonizara no Vodafone Mexefest. Com um conceito original, Woodkid mete a carne toda no assador: fortes instrumentos de percussão, uma potente secção de metais, projecção de imagens quase sagradas e uma permanente incitação ao estrilho na plateia. Marcaram presença os temas de Golden Age com forte aclamação para I Love You, mas houve também espaço para apresentação de novos temas. Visual e sonoramente Woodkid é uma aposta mais que ganha para ambiente de festival.

Antes The Legendary Tigerman mostrou que Paulo Furtado continua a fazer das suas, e bem. Com convidados especiais (quarteto de cordas, D’Alva, Filipe Melo ou João Cabrita) fez levantar a poeira que a chuva forçara a assentar. A verdade é que os aguaceiros que caíram durante o concerto de Tigerman não fizeram arredar pé do Palco Super Bock a maior parte do presentes, que com todas as estratégias possíveis foram resistindo e dançando ao som de temas como Naked Blues, Gone ou These Boots Were Made For Walking.

Tigerman 7
A bonança depois da chuvada

São cerca de 4 e meia da manhã e Eddie Vedder abandona pela terceira vez (e definitivamente) o Palco Super Bock Super Rock debaixo de fortes aplausos, sorrisos rasgados e até algumas lágrimas. À medida que as pessoas se afastam, um tapete de copos de cerveja e cabeleiras alusivas a uma das marcas presente no festival acolchoam aquele chão onde muitas pessoas desde as 8 da noite reservaram o melhor lugar para ver o líder dos Pearl Jam.

Nas últimas duas horas e meia Eddie (cujo nome foi aclamado pela audiência vezes sem conta) desfiou um repertório que todos tinham na ponta da língua e que foi desde as músicas da sua banda de Seattle, passando pelas Ukelele Songs e até aos temas de Into the Wild que escreveu a solo. Pelo meio, falou-nos das suas memórias na Chicago onde nasceu, do tio que faleceu há pouco tempo e que lhe ensinou muita coisa, de que como era fumar charros e depois ser adulto e voltar a fumar charros, do surf, do memorável concerto no Dramático de Cascais, da guerra, da paz, do amor…

Mas pelo meio houve muita música tocada com a alma e o afinco de um homem que celebra a vida e que compôs algumas das músicas mais marcantes dos anos noventa: Corduroy, SometimesImmortality ou Better Man, só para citar algumasnão faltaram e demonstraram como aquelas pessoas cansadas de esperar (o concerto começou uma hora depois do previsto) estavam de gargantas afinadas – e mais tarde roucas – para cantar temas que as foram acompanhando ao longo da vida.

Eddie 8

Houve também, como não poderia deixar de acontecer, Hard Sun, covers de Neil Young (The Needle and the Damage Done ou Keep on Rockin a acabar), de John Lennon (com Imagine após um forte discurso e cartazes empunhados contra a guerra) e Bob Dylan, aqui com a presença especialíssima de The Legendary Tigerman em palco.

Mas não foi o único convidado: Cat Power também se juntou ao seu amigo Eddie para cantar Tonight You Belong to Me, de Ukelele Songs, protagonizando um belíssimo momento de partilha e da amizade de ambos. Apesar do atraso, a plateia encontrava-se visivelmente encantada pela presença do artista que neste palco protagonizou um concerto intenso, caloroso e cativante do início ao fim. Um dos grandes heróis do Meco este ano e dono do maior sing along registado nesta edição do Super Bock Super Rock. Fomos todos dormir contentes.

Alexandra Silva e André Franco
Fotografia: Cátia Duarte Silva