A comédia dramática de 2013 Un Château en Italie chega hoje, dia 17, ao Cinema Monumental. Um Castelo na Itália traz-nos Valeria Bruni Tedeschi em dois papéis principais: o de protagonista e o de realizadora deste filme de 104 minutos. Um casting a roçar o perfeito conjugado com o ambiente italiano eficazmente construído desde o início fazem deste filme uma importante obra cinematográfica. Escorregando entre o italiano, o francês e até o inglês, Um Castelo em Itália consegue cativar qualquer cidadão do mundo porque este é um filme de relações.

Mete-se uma família burguesa a desmoronar-se, uma mulher com má sorte no amor mas com grande vontade de ter filhos, uma mãe preocupada e atenta, e ainda um irmão – que foge aos padrões do comportamento socialmente aceite – que está doente: assim fica formada a trama inicial de Um Castelo em Itália. O ritmo desta comédia dramática é marcado pela mudança das estações do ano – o que fornece belos momentos paisagísticos ao espectador – e por uma banda sonora marcante, criadora do ambiente certo para acompanhar este nivelamento entre drama e comédia.

Chegados à sala, o ambiente está criado mesmo sem o filme estar na tela. As teclas do piano preenchem o vazio e a espera pela película italiana. Começa aqui a atuação do piano que se prolonga a todo o filme, principalmente nos momentos dramáticos onde assume o papel de protagonista. E só um piano consegue dar a carga dramática à batalha contra o desmoronar de uma família burguesa italiana que se vê com bastante problemas (até de ordem moral), e escassas soluções.

O início de Um Castelo em Itália desenrola-se no inverno entre as florestas de folhas caídas, e a gélida e branca neve. Louise Rossi Levi (Valeria Bruni Tedeschi) é a protagonista, atrasada para o comboio, que vai a um mosteiro comprar um terço. Surpreendida por um monge, vê-se de seguida a rezar, de joelhos (“é como fazer ginástica”, diz-lhe), já fora da loja. Esta é a primeira de muitas situações caricatas e, ao mesmo tempo, que fazem refletir do filme. Num outro inverno fictício estava Nathan (Louis Garrel), um jovem ator que gravava naquela altura um filme com o pai cineasta. Com a cena fabricada terminada, Nathan caminha em direção à floresta e é aí que conhece Louise, num encontro marcadamente estranho. Nathan reconhece Louise, a atriz de há 10 anos, mas que não existe mais. “Como é que se deixa de ser ator? Também quero”, questiona Nathan.

Em poucos minutos, logo percebemos como a atriz Valeria Bruni Tedeschi transpõe uma certa infantilidade – principalmente notada no andar – para uma personagem adulta, mas ainda depende da sua família. Ainda muito ligada ao irmão e à mãe, Louise não tem nenhuma relação mas esconde uma vontade: ter filhos. Paralelamente, o irmão Ludovico (Filippo Timi) – com quem tem uma relação peculiar, como se pode ver logo na primeira cena em que estão juntos e onde se beijam suavemente (falso alarme, não é incesto) – está doente e as finanças desta família burguesa estão arruinadas. A mãe (Marisa Bruni Tedeschi), muito italiana, preocupa-se com o quadro familiar geral ao mesmo tempo que mantém um humor divertido e renovador.

Um Castelo em Itália vagueia entre vários assuntos, todos eles suficientemente fortes para não nos fazerem beliscar os olhos. Todos os pormenores são necessários: os diálogos inacabados, os vários momentos de plot twist que deixam o espectador sem chão, os incríveis cenários, a banda sonora que faz um excelente acompanhamento da narrativa, e ainda as mudanças bruscas de planos. A religião, a natalidade, a crença (ou a falta dela), as doenças, a morte e, claro, o amor. São estes os temas que dominam Um Castelo em Itália e é com eles que Valeria Bruni Tedeschi compõe um filme não só inspirador, mas que também serve de catarse para cada um de nós.

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Aqui não há monotonia. Da cena em que se anuncia um casamento que afinal não vai acontecer até ao momento em que Nathan aparece no escuro surpresa a Louise, pelos piores motivos, passando pela cena em que a mãe de Nathan fala do pénis do seu filho em pequeno a Louise… constrangedor, no mínimo. O cúmulo é atingido quando vemos Louise a mergulhar o terço numa pia baptismal e a esfrega-lo de seguida na sua barriga; ou então naquele momento em que Louise invade um Convento de freiras, beijando até uma, só para se sentar na cadeira milagrosa.

O limbo entre a comédia e o drama é bem aproveitado pela realizadora e argumentista Valeria, deixando o próprio espectador inconsciente do que se está a rir ou a chorar. Uma mistura mais do que bem feita, eficaz e – sem dúvida – vitoriosa. “Acreditas em Jesus?”, perguntam à protagonista. “Depende dos dias”, responde. Nós acreditamos em Um Castelo em Itália. O fim, esse, é sangrento mas simultaneamente revitalizador. Que este sentimento alegre-nostálgico bem italiano perdure no cinema.

9.5/10

Ficha Técnica:

Título: Um Castelo na Itália

Realizadora: Valeria Bruni Tedeschi

Argumento: Noémie Lvovsky, Agnès de Sacy e Valeria Bruni Tedeschi.

Elenco: Valeria Bruni Tedeschi, Louis Garrel, Filippo Timi e Marisa Bruni Tedeschi.

Género: Comédia, Drama

Duração: 104 minutos