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Entrevista EF. Rita Ribeiro: “sinto que não estou só a resgatar a Gisberta, mas todas as Gisbertas”

Gisberta Júnior, conhecida como Gis, morreu em fevereiro de 2006, no Porto, vítima de um crime motivado por discriminação com base na orientação sexual. Sete anos depois, em maio de 2013, Rita Ribeiro e Eduardo Gaspar passam a história real para o teatro numa micro-peça de 15 minutos no Teatro Rápido. Nesse mesmo ano, em setembro, começam os ensaios da mesmo peça agora com uma hora e depois dá-se a estreia, e toda uma temporada de sucesso no Teatro Nacional São João. Agora, chegado o momento de apresentar a peça completa em Lisboa, o Espalha-Factos esteve à conversa coma a atriz Rita Ribeiro. Gisberta estreia hoje, dia 17 de julho, no Cinema São Jorge.

Espalha-Factos (EF): Hoje (dia 15), o Sociedade Civil da RTP2 reservou o programa ao tema da transsexualidade. Acha que este tema é cada vez mais atual e, por isso, é pertinente trazer a Gisberta aqui a Lisboa?

Rita Ribeiro (RR): Sim, eu acho que é muito pertinente. Nós estamos a viver uma era de grande transmutação a nível global, a nível histórico e humano, e penso que o que nós temos de viver é a verdade. E a transsexualidade também é uma verdade. É uma verdade que há pessoas que nascem e não se sentem bem na sua pele. Eu quando há um ano comecei a fazer este espectáculo – há um ano e meio quase – ainda tinha a impressão que a transsexualidade era uma coisa que se escolhia. Então houve vários transsexuais com quem eu falei, e que me lembraram que a transsexualidade não é uma coisa que se escolhe. Nasce-se assim, na pele errada, digamos. E é dramático não só para quem vive isso, mas principalmente mais dramática pela aceitação de quem está ao nosso lado: a família, os amigos…

Portanto, esse estigma existe, continua a existir. Existe não só ao nível da transsexualidade, mas também da homossexualidade ou como de alguém que fuja à dita normalidade que nós não sabemos o que é. É um conceito… a normalidade depende da perceção de cada um. E essa verdade de que nós ao fim ao cabo somos todos uma consciência, que não temos nem sexo, nem país, nem idade, eu já vivo há muito tempo. Eu já vivo há muitos anos assim. Quase que me atrevo a dizer que nasci assim. Nasci com esta abertura de espírito de saber e sentir – de saber não sei, mas de sentir sim – que as pessoas são sobretudo uma consciência e que o resto são tudo caminhos que as pessoas vão trilhando. E que não é por isso que as devemos aceitar e deixar de amar.

Gisberta

EF: Mas o que falta na sociedade portuguesa, em específico, para aceitar estas diferentes normalidades?

RR: As pessoas agarram-se muito ao passado e falam dessa tal normalidade. É uma coisa diferente, e como é diferente há uma enorme contestação. Mas o ser humano sempre fez isso. Se não houvesse pessoas diferentes, se as pessoas não avançassem, não ousassem, para outros caminhos, nós hoje em dia ainda vivíamos com candeeiros de petróleo porque realmente foi por haver pessoas – loucos, génios – que inventam coisas, e que são contestados… o próprio Einstein era uma criança que diziam que era uma atrasada mental, nem sequer sabia estudar, e no entanto era o Einstein.

As pessoas com uma mente muito aberta, e que ousam muito na vida não têm o problema de errar porque é depois de errar muitas vezes que se consegue chegar lá. Porque os nossos erros, no fundo, não são erros, são experiências. Vão experimentando, experimentando, até conseguir. São visionários! Pessoas que são visionárias e que estão ao serviço dos outros. Esses sim são aqueles que vêm com a consciência descarnada e que são pessoas iluminadas que fazem aquilo que todos nós que estamos cá poderíamos fazer: sermos úteis uns aos outros. E nos aceitarmos com as nossas diferenças, com os nossos caminhos diferentes, mas amar incondicionalmente. Este espectáculo fala disso.

«era quase impossível não aceitar fazer este espectáculo»

EF: Este espectáculo é útil para falar sobre isso, e para a própria sociedade? Porquê?

RR: É. Precisamente porque fala na aceitação e no amor incondicional, e como está num discurso que é uma mãe – e não há ninguém que não tenha uma mãe, não há ninguém que não se identifique com um discurso da mãe – foi de uma grande sensibilidade a maneira como o Eduardo Gaspar, autor e encenador, trabalhou este texto. Aliás, ele é uma pessoa extremamente sensível e um grande amigo que ao fim deste tempo todo foi das pessoas que realmente me deu um dos textos que eu mais sinto dentro de mim… quando eu li este texto pela primeira vez ainda tinha 15 minutos para se fazer no Teatro Rápido no ano passado, eu li e ele ficou colado a mim, como se nascesse dentro de mim. E era quase impossível não aceitar fazer este espectáculo. Tive muito medo, tenho já a dizer. Eu avancei, mas avancei com muito medo.

EF: Mas teve medo na peça de 15 minutos ou depois?

RR: Logo no princípio porque era sair muito da minha zona de conforto. Mas durante a minha vida as melhores coisas que me aconteceram foi sempre quando eu saí da minha zona de conforto, e que eu me atrevo a aventurar e a avançar… Senti que este texto ficou pegado a mim. Eu sou uma pessoa de causas: gosto de justiça, gosto de vestir esse género de coisas.

EF: (interrompe) Ser um pouco uma advogada?

RR: Talvez, sim. Desde miúda que sou assim: não tem que ver com o ser atriz ou não ser atriz; tem a ver com a minha essência.

EF: Foi por isso que aceitou fazer a peça apesar do medo?

RR: Na altura ainda não era consciente… foi por paixão ao texto, por paixão ao desafio – uma coisa tão nova – e que bom voltar ao fim de 40 anos àquela novidade da adolescência, voltar outra vez… “não sei o que vai acontecer”. Isso renova-nos, quase a nível celular. Foi uma entrega incrível. Os 20 dias de ensaios que tive com ele [Eduardo Gaspar], a descoberta minuciosa de todos os pormenores porque este é um texto subtil. As pessoas dizem: “ah, fala-se de um assassinato”. Sim, tudo bem, fala-se realmente de um assunto muito dramático, mas fala-se muito mais de outras coisas. Muitos sentimentos, muitas emoções, da vida, da morte, do arrependimento, daquilo que se podia dizer e que não se disse…

«A maior parte das pessoas não enfrenta as suas emoções»

EF: Vai para lá da transsexualidade?

RR: Vai muito, muito para lá. Quando nós começamos a ter essa noção foi no Teatro Rápido: fazia cinco vezes espectáculo. Parava 15 minutos e fazia 15 minutos. E durante esse tempo eu nunca saía da sala. Portanto, eu estava enfiada naquela sala desde as 17h30 às 21h30. O Eduardo esteve sempre comigo. Nós fizemos produção deste espectáculo, ele fazia a parte técnica… foi uma grande entrega de nós os dois. Eu comecei a ter a noção da importância social que este espectáculo tinha a nível social, como mexia nas pessoas, pelo feedback das pessoas no fim do espectáculo, pela maneira como as pessoas reagiam, dos abraços que se davam, das lágrimas que se deitavam, do desbloquear… daquilo que eu me apercebia que as pessoas conseguiam às vezes purgar emoções que estavam absolutamente cristalizadas dentro delas.

Então aí eu disse: realmente, este espectáculo é teatro mas não é só teatro. O teatro também é para isso, para mexer com as pessoas, abrir a mente das pessoas e fazê-las refletir, e às vezes mudar. Eu já tive vários comentários, mas houve um de uma menina no Porto que no final do espectáulo esperou por mim e disse para mim: “tenho muito a agradecer-lhe porque este espectáculo mudou a minha vida”.

EF: E disse-lhe em que sentido?

RR: Eu não lhe perguntei. Isso seria outra conversa. Nós muitas vezes fazemos conversas a seguir ao espectáculo quando há alunos, grupos de alunos, quando fazemos para as escolas…

EF: Como é que reagem essas camadas mais jovens?

RR: Muito bem. Toda a gente reage à sua maneira, mas não há ninguém que não reaja. É um espectáculo que não deixa ninguém indiferente.

EF: Nos diferentes públicos que ia tendo no Teatro Rápido foi notando diferenças no feedback? A peça toca sempre num sentido ou em vários?

RR: Em vários, conforme a perceção de cada um e conforme o que cada um tem dentro de si, às vezes por descobrir e por deitar fora. Eu tenho um curso de coaching que nunca pus em prática a não ser na minha vida pessoal e na minha profissão. A maior parte das pessoas não enfrenta as suas emoções. Eu própria durante muitos anos na minha vida não enfrentei as minhas emoções. Portanto, eu sei do que estou falar, estou a falar por experiência própria. Há muitas emoções que nos são benéficas, mas a maior parte delas ficam dentro de nós e bloqueiam a nossa vida. Criam-nos mágoas, raivas e frustrações, e até doenças.

gisberta

Eu comecei a perceber que este espectáculo obriga as pessoas a reconhecer as suas emoções que às vezes estão completamente presas a elas e que as deixam presas. Portanto, o teatro neste momento, quando se assiste a um espectáculo deste género, tem aquela função terapêutica que eu sempre achei que o teatro tinha. Mesmo quando tinha a minha escola de teatro, quando dou aulas e mesmo quando sou atriz… não é terapêutico só para quem vê, também o é para mim. Este espectáculo para mim acaba por ser um catalisador para a minha vida se tornar melhor.

EF: Este espectáculo foi, de certeza, sair da sua zona de conforto, mas em que medida é que evoluiu enquanto atriz com a Gisberta?

RR: Para já, o Teatro Rápido era uma salinha como se eu estivesse numa sala de jantar a fazer teatro para um grupo restritíssimo de pessoas. Tínhamos 20 pessoas. Nós batemos recorde de bilheteiras no Teatro Rápido, tivemos as salas cheias…

EF: Em maio de 2013, certo?

RR: Sim, houve dias em que tivemos seis espectáculos! Com muito gosto…

EF: Como é que foi esta transição entre a peça de 15 minutos e a de uma hora? A vontade partiu de quem?

RR: Dos dois. Quando nós estávamos no Teatro Rápido, olhamos um para o outro e eu comecei a dizer-lhe: “Eduardo, não sei se já percebeste mas estamos a fazer uma coisa importante, e que isto é importante para as pessoas, para todos nós”. Portanto, ficar por aqui é uma pena. Ainda há tanto para fazer, tanta estrada para fazer. Então ficou ali um pacto para fazermos. Passou um verão e nós estivemos sempre em contacto um com o outro. Em setembro recomeçamos a (re)ensaiar o espectáculo de uma hora. Tem todo o espectáculo dos 15 minutos, princípio, meio e fim com uma situação que é esta: não há nada na vida que tenha consequência sem ter tido uma causa primeiro.

«sinto que não estou só a resgatar a Gisberta, mas todas as Gisbertas»

Nós conversamos muito acerca disso, eu e o Eduardo, e na verdade ele foi muito sagaz quando foi buscar a infância da Gisberta. Isto é um espectáculo ficcionado inspirado num facto real, mas na verdade a nossa infância marca toda a nossa vida. E essa é a causa do que depois nós trilhámos na nossa vida. Ele foi habilmente à causa para depois nós nos apercebermos que nunca há uma consequência sem uma causa. A lei da causa-efeito. Então é contada mais em pormenor a relação entre esta mãe e este filho, desde que nasceu. No dia-a-dia da vida deles. Fica mais claro porque há certas coisas que acontecem na nossa vida.

EF: Teve livre-arbítrio para preparar a peça ou sentiu-se de certa forma condicionada por esta ser uma história real e por esta mãe realmente existir?

RR: Não, isto foi muito ficcionado. A mãe existe, tem 92 anos…

EF: Falou com ela?

RR: Não, não. Ela não fala com ninguém. É uma pessoa com muita idade, vive lá nos confins do Brasil. Não falei…

EF: Então como foi retratar esta perspetiva da mãe sem nunca ter tido contacto com ela? E o próprio texto…

RR: Eu sou mãe. O texto fez ressonância dentro de mim. Um ator, pelo menos eu faço assim – é a minha maneira de gerir, de ir ao encontro das personagens -, tenta arranjar alguma coisa similar comigo e, na verdade, existiram coisas muito similares. Ir buscar às gavetas das minhas emoções, emprestar as minhas emoções, e ao fim ao cabo quase depois me sentir como se fossemos a mesma pessoa. Depois é aquele exercício de observar porque é um espectáculo visceral, é um espectáculo que não o posso fazer sem o sentir profundamente, mas ao mesmo tempo há um exercício de observação, de eu não deixar de estar lá mas ao mesmo tempo de a Rita estar a observar aquela mãe. E oferecer-lhe tudo o que a Rita tem para oferecer àquela mãe. Depois, no fim, sacode a poeira e dá-se mais valor às coisas que temos na vida. Felizmente, nunca tive um drama como este na minha vida.

«Somos os timoneiros do nosso barco»

EF: Esta peça é também uma forma de honrar e de manter viva a memória da Gisberta?

RR: É completamente. É resgatar a memória da Gisberta. Eu sei que ela está contente por aquilo que eu estou a fazer. (…) Eu sou muito sensível ao mistério e ao drama do seu humano e tenho uma enorme compaixão pelas pessoas que são tristes e infelizes. Isso faz com que eu os compreenda tão bem, uma empatia tão forte… talvez porque eu sou uma pessoa muito forte e muito frágil, e os compreenda tão bem. Gosto sempre de estar ao lado dessas causas e sinto que não estou só a resgatar a Gisberta, mas todas as Gisbertas. Não é só aquela Gisberta, mas todas as Gisbertas que eu fui conhecendo ao longo da minha vida… conheci muitas e fui amiga de muitas, e também ao mesmo tempo ajudar aos pais, aos amigos, aos irmãos a compreenderem de outra maneira, a terem outra perspetiva das coisas, e é assim: muita gente fala do amor incondicional, do amor de mãe…

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Há muitas mães que não conseguem ter amor incondicional. O amor incondicional é a coisa mais difícil de se alcançar na vida porque é querer para os outros aquilo que eles querem para si próprios. E nós não fomos educados assim. Portanto, está na hora de nós começarmos a ter amor incondicional por nós próprios, de nos aceitarmos como somos, com os nossos defeitos, ninguém é perfeito. Só assim nós conseguimos algum bem-estar na vida. E os outros também aceitarem-nos incondicionalmente porque isso é que é o verdadeiro amor. Isso é querer para nós o que nós queremos para nós. Não é querer mudar os outros.

EF: Há uma temática que se cruza nesta peça: a religião. De certa forma, a mãe nega a Deus, põe tudo em causa… como foi lidar com essa questão?

RR: Eu sou uma pessoa com muita fé, mas fé na energia do cosmos. Há uma energia realmente. Tudo é energia. É uma energia superior, mas essa energia superior todos temos dentro de nós. Eu não acredito muito na instituição Igreja. Não me foi muito difícil pôr em causa a instituição. Tem graves problemas, tiveram situações durante a história gravíssimas, os fracos foram muitas vezes abandonados pela Igreja e assassinados e, portanto, não me foi muito difícil, mas sou uma mulher de fé… uma mulher de fé que a vida está toda organizada e que nós temos de estar atentos para coordenarmos as coisas.

EF: Esta questão é algo que fica muito em aberto?

RR: É porque as pessoas põem sempre a responsabilidade no exterior, e a responsabilidade da nossa vida é 100% nossa. Somos os timoneiros do nosso barco. Somos nós que estamos a comandar a nossa vida com respeito por tudo e com muita atenção, mas nós é que somos os timoneiros do nosso barco.

Créditos Fotográficos: EKA 

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