Ver uma série por completo não tem de ser um compromisso estético-afetivo de longo prazo. O Verão é um período apetecível para te envolveres com o pequeno ecrã e, por isso, o que o Espalha-Factos te sugere são cinco excelentes séries terminadas que poderás experienciar integralmente em pouco tempo.

Nenhuma delas vai além dos 30 episódios e, em comum, têm a criação de nichos de fãs dedicados à sua volta. Aclamadas pela crítica, sucumbiram, no entanto, perante um mercado televisivo competitivo em que a falta de audiências – conjugada com os elevados custos de produção no caso da quinta série aqui apresentada – ditou o seu cancelamento. Finais precoces resultaram em cliffhangers eternos potencialmente frustrantes, mas a qualidade destas obras sobrepõe-se à irresolução.

1. My So Called Life (1994-1995)

Nº de episódios: 19

Antes de encarnar com destreza a loira Carrie Mathison em Homeland, Claire Danes foi a ruiva Angela Chase. Uma obra dos anos 90 que tem a sua década escrita na testa, através de camisas de flanela ou da presença sonora de ícones como os R.E.M. e os The Cranberries. My So Called Life é um hino à adolescência, aos gumes emocionais e às novas experiências que a tornam um período tão especial.

http://youtu.be/SC_zgYzeLOk

Há um bocado de Angela Chase em cada um de nós, do seu melodrama, das suas paixões e dos seus devaneios – expressos em voice-overs de poesia simples. A série conta ainda com Jared Leto (30 Seconds To Mars) como interesse romântico de Claire Danes. Se já te esqueceste do que é sentir tudo com toda a violência do mundo, prepara-te para um doce-amargo cupido de nostalgia.

2. Awake (2012)

Nº de episódios: 13

Depois de um grave acidente de automóvel – em que seguia com a esposa e com o filho -, o detetive Michael Britten (interpretado por Jason Isaacs; o Lucius Malfoy da saga Harry Potter) vive em duas realidades separadas. Numa perdeu o filho, noutra foi a esposa a não resistir aos ferimentos. De forma inteligente, a série distingue as duas dimensões através da caraterização cromática, predominando o vermelho na da esposa viva e o verde na oposta. Dentro do próprio universo da ficção, Michael orienta-se pelo uso de um pulseira ora vermelha ora verde.

http://youtu.be/7cdKnX0z2XQ

Awake é um complexo thriller psicológico que vai apelar à tua própria alma de espectador-detetive, atento ao detalhe. A série adopta um formato híbrido (na senda de The X-Files ou Fringe), tendo casos da semana em concomitância com o desenvolvimento de uma mitologia (sobretudo na segunda metade). Acaba no topo das suas qualidades.

3. Twin Peaks (1990-1991)

Nº de episódios: 30 (+ Twin Peaks: Fire Walk With Me, filme que deve ser visto depois da série)

Se não acreditas em deuses da televisão, Twin Peaks anda por aí para provar que estás errado. Uma das obras mais geniais da história do meio, “desbravou terreno” para a era de ouro da televisão estadunidense. É difícil imaginar séries como The Sopranos ou Lost sem a influência deste clássico de David Lynch e Mark Frost.

Twin Peaks é uma telenovela surrealista, situada numa pequena cidade homónima, que tem como premissa “Quem matou Laura Palmer?”. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) é o agente do FBI designado para o caso, chegando a Twin Peaks para a investigação do mesmo. O banal é invadido por idiossincrasias “lynchianas”, concretizadas, por exemplo, num anão bizarro a dançar num salão com cortinas vermelhas ou numa mulher que afirma falar com um tronco, o qual transporta como se de um bebé se tratasse.

http://youtu.be/UXjTEw9Qm0k

É uma série com imensas personagens de fácil empatia, com muito humor e de finais em suspenso que te deixam sempre a pedir por mais. Os cenários florestais noturnos e a divina banda sonora de Angelo Badalamenti são outras imagens de marca de um trabalho que, como as maiores obras-primas, não tem tempo nem lugar. Também termina no seu age, com um episódio positivamente chocante.

4. Firefly (2002-2003)

Nº de episódios: 14 (+ Serenity, filme que deve ser visto depois da série)

Não é difícil perceber o porquê da relação profícua entre Joss Whedon e a Marvel. A boa gestão de tempo entre personagens, o seu desenvolvimento humano, o compromisso indivíduo-coletivo, o fator badass e as one-liners que ficam no ouvido encontravam-se em Firefly, uma década antes de The Avengers bater recordes de bilheteira como quem muda de roupa interior. Faltou à FOX perceber como promover o diamante em bruto que tinha nas mãos (e transmitir os episódios na ordem planeada por Whedon).

http://youtu.be/g0O29rZiIRA

Firefly é uma série anacrónica que mistura a ficção científica (o novo) com o western (o velho). Situada no ano de 2517, centra-se nas aventuras espaciais dos nove tripulantes da nave Serenity, capitaneada por Malcolm Reynolds (Nathan Fillion; Castle). A tripulação dedica-se a missões perigosas para cobrir os custos de manutenção da nave, tendo ainda que enfrentar a corrupta força de segurança denominada Alliance. É uma série peculiar, de grande entretenimento, com iguais quantias de coração e cérebro.

5. Carnivàle (2003-2005)

Nº de episódios: 24

Um claro descendente de Twin Peaks com o selo de qualidade da HBO. No âmago de Carnivàle estão os sempre eternos conflitos entre bem e mal, e entre livre-arbítrio e destino. Situada nuns EUA assolados pelo crash financeiro de 1929 e pelas tempestades de areia da década de 30, a série começa com duas linhas narrativas que só colidem perto do fim. Numa, o jovem Ben Hawkins junta-se a um parque de diversões móvel, noutra o padre Justin Crowe tenta seguir mensagens que acredita serem de Deus. Ambos são apoquentados por pesadelos sinistros que os guiarão a um embate e os dois têm poderes estranhos, se bem que de natureza oposta.

http://youtu.be/Io3qEXfuc2s

Carnivàle é uma série cujos elevados valores de produção só serão equiparáveis aos de Game of Thrones. Demora a assentar, revelando grande preocupação em estabelecer uma ambiência desértica, de escassez, sombria e surrealista. A mitologia é densa, filosófica e críptica. Se souberes esperar, serás recompensado com uma segunda temporada mais acelerada, empolgante e imersiva.

Ilustração: Carla Gonçalves