O novo filme de Kelly Reichardt, uma das vozes mais influentes do actual cinema independente norte americano, é no fim de contas uma grande surpresa: Night Moves pode não ser para todos os gostos, mas sem dúvida que abalará o sentido cívico e ético de qualquer espectador.

É a história de três ambientalistas radicais (Jesse Eisenberg, Dakota Fanning e Peter Sarsgaard), que se juntam para levar a cabo um incidente que tenta responder às ideias ecológicas que tão acerrimamente defendem. Eles planeiam fazer explodir uma barragem hidroelétrica, fonte e símbolo da cultura industrial que tanto desprezam, já que é ela a responsável pelo estado do planeta e a constante degradação e escassez de recursos naturais, por ser uma grande consumidora de energia e um perigo para a preservação do planeta. Porém, as consequências do “atentado” serão maiores do que eles poderiam imaginar, e transcenderão, até, a própria dimensão social dos interesses ambientais e sociais que estão em jogo…

Night Moves acaba por se tornar numa espécie de heist movie ecológico e psicológico, através de uma divagação filosófica com o seu quê de contemplativa e introspetiva, sobre a condição humana numa situação extremamente delicada. A história de Kelly Reichardt está dividida em duas partes: a primeira diz respeito ao plano de execução do crime ambiental pelos três jovens que protagonizam o filme, e todos os passos que detalhadamente elaboram para conseguirem cumprir o seu objetivo da maneira mais eficaz, perturbante (para o establishment) e impactante possível; a segunda revela um outro lado, mais negro e profundo, de uma narrativa que parecia clara e objetiva, já que a cineasta começa, aqui, a explorar as consequências que traz a execução do crime – e que se escapam das mãos dos protagonistas, num desesperante confronto com a realidade que criaram e que da qual já não podem escapar.

É aqui, então, que a fita ganha o lado de thriller, criando-se um volte face psicológico e dramático no destino das peças deste xadrez fatalista: de um filme “certinho”, no que concerne ao facto de retratar uma temática e uma filosofia de vida cada vez mais presente no quotidiano dos seres humanos, Night Moves embrenha-se em caminhos mais labirínticos e difíceis, porque começa a explorar a mente humana e as reações mais ou menos irracionais que os culpados do crime acabam por sentir, na pele, ao saberem das terríveis e imprevisíveis consequências que a sua ação acabou por trazer àquela reserva natural tão maltratada pelas indústrias. Porque se o objetivo do trio era o de condenar as “maldades” das grandes empresas destruidoras da natureza, o castigo que lhe dão passa assim a ser, de igual forma, um castigo para os três, mas com outros contornos, mais psicológicos e menos temporários.

Ao punirem uma entidade que se aproveita das comunidades inocentes que dela necessitam para sobreviver, eles vão também causar uma série de dramas humanos que lhes são incontroláveis, por julgarem estar a agir da melhor maneira, ou por outras palavras, da maneira que a sociedade pede  que se aja: lutando contra todos aqueles que tentam, ainda, acabar com aquilo que resta dos recursos e potencialidades do planeta, mal utilizados e geridos ao longo de décadas, séculos e até, talvez, milénios.

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Em Night Moves o problema é o Homem, nas suas mais variadas categorias de “bode-expiatório”: tanto no que diz respeito às grandes companhias, sedentas de poder, lucro e ambição, que não olham a meios para atingir os seus fins (mesmo que esses meios possam, também, colocar em risco a sua sobrevivência), como também na outra face da medalha, a dos indivíduos que não estão escondidos por uma qualquer capa de interesses económicos, mas que são capazes, de outras formas mais ou menos destrutivas, de alimentar ainda mais o caos em que vivemos.

Kelly Reichardt, a autora do enorme bocejo dispensável Old Joy mostra, assim, ter “sofrido” uma evolução artística e criativa notável, já que tem criado, ao longo da estreia dos filmes que se sucederam a essa obra, uma imagem de marca e de culto no atual panorama indie do Cinema dos statesNight Moves mostra também um maior interesse da realizadora pelos caminhos mais psicológicos que podem gerar as suas narrativas contemplativas e sociais. Já que, ao transformar-se, de um retrato ambiental e de preocupações ecológicas cada vez mais agravantes, para uma (não menos interessante) desconstrução social e psicológica dos castigos que geram os seus próprios castigos e sentimentos de culpa, Night Moves assume também a função de questionar o papel do Homem na própria Humanidade.

E isto não é uma redundância despropositada, visto que o filme joga habilmente com a posição de vários grupos de opinião na sociedade que pretendem dominar, ou mudar, ou conquistar, traçando esse paralelo entre a responsabilidade do ser humano nas mais diversas situações, de escalas maiores ou menores. Por isso, não deixa de ser reveladora a forma que Reichardt utilizou para evidenciar como esta degradação do homem não se faz apenas por uma só “variante”, por toda a poluição que causa no ambiente, mas também pelos seus atos e pela intensidade das suas repercussões nos seus autores… e nas suas “vítimas”, previstas ou imprevistas.

Uma peça muito interessante de Cinema, com boas interpretações (destaque para Jesse Eisenberg num papel que não é tão eisenbergiano – isento de longos, demorados e velozes diálogos, o ator, ao falar menos, consegue ter mais espaço para mostrar as suas emoções e distanciar-se da persona descontrolada e desenfreada que o caracteriza genericamente) e uma direção segura e inteligente de Reichardt, que abandona a inocência artística para explorar esta outra inocência, de pendor humano e de desespero, centrando-se naqueles que não sabem ser ela o guia mais poderoso das suas delicadas existências. Faz-nos ficar ainda mais preocupados com a saúde do planeta… mas também com a crise degradante de valores e da falta de coragem da alma humana.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título: Night Moves

Realizador: Kelly Reichardt

Argumento: Jonathan Raymond e Kelly Reichardt

Elenco: Jesse EisenbergDakota Fanning e Peter Sarsgaard

Género: Drama, Thriller

Duração: 112 minutos