Gonçalo Cadilhe é um viajante, jornalista e cronista português. As crónicas das suas viagens foram posteriormente, depois de publicadas semanalmente na revista Única, publicadas em livro, de que são exemplo Planisfério Pessoal, A Lua Pode Esperar, África Acima e Nos Passos de Magalhães“Oito meses, quinze países, 27 000 quilómetros e 50 000 palavras” constituem África Acima. Uma travessia pelo continente africano, sem transporte aéreo, sem facilidades. Gonçalo diz que “voar sobre África não é viajar por África. Aliás, voar não é viajar”. Um livro de crónicas sobre uma longa e imprevisível viagem, desde o cabo da Boa Esperança, no extremo Sul, até ao Estreito de Gibraltar, no extremo Norte.

Seguimos o jornalista e cronista português na sua viagem debaixo de um sol abrasador, de bicicleta, a pé com a mochila às costas, de autocarro, de comboio, de jangada ou à boleia em camiões, por estradas em condições miseráveis. Numa linguagem simples e direta, com espaço para diálogos e para uma descrição inesquecível das paisagens, dos cheiros e das envolvências: a descrição da atual cidade angolana de Lubango, o Fish River Canion na Namíbia, os embodeiros.

“A península do Cabo da Boa Esperança (…). Aqui teve origem Portugal, penso. Não aquele dos portugueses, mas o país do resto do mundo. Se não fora por este Adamastor por fim domado, o que nos faria aparecer no percurso comum da humanidade? Que espaço nos seria dedicado na enciclopédia? Quantas linhas, que assunto, nos livros de história? Uma nota de pé de página sobre a pesca do bacalhau?”

É fácil fechar o livro, depois de lidas 200 e tal maravilhosas páginas, e lembrarmos-nos do cabo Agulhas, do Eduardo Jaime, do Brian, da paisagem e do hotel sem fins lucrativos que existe num sítio cujo nome agora não sou capaz de reproduzir, mas sei que lá existe um rapaz chamado Palm que graças ao autor sabe que em Portugal se pode ver futebol “face a face”, isto é, ao vivo. É fácil, e foi fácil para mim chorar, assim de vez em quando, durante as primeiras 36 folhas repletas de histórias (e depois, se calhar, isso é que já não me lembro). De qualquer maneira, quero saber se é normal ter acessos de choro enquanto leio um livro de viagens. Se fosse um romance, seria compreensível, suponho. Se fosse um livro de poemas, também. Agora, com um livro de viagens é caso raro ou talvez, ouso dizer, inédito. Nem sei porque chorei, pouco, pouquinho, volto a repetir, mas ainda assim foram lágrimas, ainda que tímidas e enfezadas, que rolaram pelo meu rosto. Talvez seja porque também eu quero ser jornalista, como o Gonçalo (embora ele tenha dito, para obter vistos, que é chefe de manutenções). Talvez seja porque também eu não me importava nada de viajar África acima, Ásia acima, América acima, tudo acima, se for possível. Também eu gostava de escrever sobre os meus dias em terras que não me pertencem. Sobre pessoas que encontro no caminho. Sobre comidas novas que experimento. Sobre diarreias e dores de barriga e boleias que ganho e perco. Sobre o que mais há de belo e extraordinário neste mundo: que são as viagens, que é a vida, porque a vida é feita de viagens. E também eu não me importo que chorem com o que escrevo, mesmo que seja com um livro de viagens e 36 páginas mais à frente.

“A solidão do viajante é a solidão do palhaço: a de reservar para si toda a tristeza que lhe vai na alma, e de entregar aos outros a máscara da alegria.”

África Acima partilha histórias caricatas, a maioria com polícias ou transportes ou com ambos; hóteis ao ar livre como sinónimo de noites poéticas que prometem nostalgia para mais tarde, mesmo com os mosquitos a tentar atacar (em vão, felizmente); atrasos e dias desesperantes de espera, que afinal oferecem nada mais nada menos do que tempo para conhecer o muito que ainda resta; olhares indiscretos, fascinados com o europeu e os seus costumes; fome, cantárida e ataques hipocondríacos reprimidos. Nomes, muitos, muitos e soltos que os recordo assim: a voar no espaço e no tempo. E descobertas, tão dignas como as dos Descobrimentos: gastronómicas, geográficas, culturais e pessoais. Uma travessia, não só pelo continente africano, mas pelas nuances da vida e do homem.