“As a young girl she wanted to be a florist, but soon she took the liberty to lead a life of «misery, gutter and rock ‘n’ roll»”. É assim que começa a história de Mariana Ramos dos Santos ou, mais precisamente, o génio por detrás da Mariana a miserável.

Mariana a miserável, um alter-ego com jeito para a ilustração, fala-nos da vizinha do lado, de gente má como as cobras, de flores que não podem ser cheiradas, de amor e desamor, do adeus, de bizarrias e desassossego, de finais felizes ou finais apenas, de citologias do coração e de homens feios, porcos e maus. Ilustrações imprecisas e choramingas, estranhas e divertidas, únicas e originais: um mundo mágico, repleto de arte e emoção, pronto a ser descoberto.

Nascida em Leiria em 1986, Mariana Santos requentou a Escola Superior de Artes e Design e o mestrado em Design Gráfico e Projetos Editoriais na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Contudo, declara frequentemente que não sabe desenhar o real, mas “um dia (talvez uma noite) descobriu que gostava de desenhar coisas estranhas – de desconstruir o mundo para construir outros, não necessariamente melhores, mas que aos seus olhos fizessem mais sentido”.

As suas ilustração possuem realmente traços rudes e corpos desproporcionais. As histórias que conta são muitas vezes lamechas, telenovelescas, inspiradas em desgostos amorosos (também ela, miserável, se vê envolvida em “triângulos amorosos e coisas ainda mais quadradas”), com frases que completam e enriquecem o seu trabalho, celebrando a ironia da vida e rindo-se “do azar e das expetativas frustradas”.

É de um quinto andar no Porto que trabalha, com a companhia do seu gato Virgílio, e sobre ser miserável diz que “é conseguir convencer os meus pais que não tenho vocação para medicina e que é isto que eu quero fazer custe o que custar”. O Espalha-Factos decidiu que queria saber mais, por isso bombardeou Mariana a miserável com uma série de perguntas, que agora orgulhosamente partilha com os seus leitores.

Espalha-Factos: Mariana Santos e Mariana a miserável, metades de uma mesma moeda. Como é que as distingues?

Mariana Santos: Uma delas diz o que pensa. A outra é tímida e prefere ficar em casa a desenhar.

EF: Ouvi dizer que quando eras miúda querias ser florista. Porquê?

MS: Primeiro porque nasci nos anos 80 e era uma criança pirosa, depois porque tinha uma florista perto de casa e achava que a pessoa que lá trabalhava parecia feliz. A florista fechou.

EF: Fala-me de uma peculiaridade que tenhas.

MS: Dificuldade em fazer cambalhota atrás.

EF: Tens formação em ilustração?

MS: No papel sou designer, fora do papel sou o que sou. Tive aulas de ilustração durante a licenciatura e mestrado e fiz também alguns workshops depois de vir para o Porto.

EF: Lembras-te quando é que começaste a ilustrar? Quando apareceu a paixão, se deu o “clique”?

MS: Todos nós começamos quando somos pequenos, uns param e outros não.

EF: Qual é o teu projeto atual?

MS: O meu projeto agora é conseguir manter-me só a fazer coisas que gosto, é bastante ambicioso, mas não tem sido impossível.

EF: Até agora, qual foi aquele que mais gostaste de criar e/ou participar?

MS: Normalmente tenho como favoritos os meus trabalhos mais recentes.

EF: Quanto ao teu estilo de ilustração, não é nada perfeitinho e há muita choraminguice. Como é que tu o defines? 

MS: O mundo visto pela pessoa que perdeu a última fatia do bolo de chocolate (quem esteve no lançamento do livro da Raquel Caldevilla, em Lisboa, vai perceber).

EF: Começam a aparecer muitos artistas que deixam o conceito de perfeição de lado para imprimirem outra dimensão ao ser humano, como se as falhas interiores se exteriorizassem nas formas. É por acaso ou achas que há outra razão por detrás do fenómeno?

MS: Não faço ideia, normalmente atribuo causas místicas a todos os fenómenos.

EF: Como é o processo criativo? Onde é que trabalhas?

MS: Na maior parte das vezes trabalho em casa mas, nem sempre estar sozinha me ajuda, por isso há dias em que combino com amigos freelancers num café qualquer. Gostava de ter um atelier mas por enquanto a minha secretária 100 x 70 está bem.

EF: Tem sido difícil ser ilustradora? Ou as oportunidades têm surgido no tempo certo?

MS: Não é muito fácil ser ilustrador, pelo menos aqui em Portugal, pelos emails que tenho recebido com propostas de trabalho sem qualquer retorno financeiro, prometendo apenas divulgação como se isso fosse uma grande coisa. Ainda há muito a mudar na mentalidade de muita gente, o nosso trabalho é bastante subvalorizado, há alturas em que temos de defender a nossa profissão e saber negociar (coisa que nunca ninguém nos ensinou na escola), quando muitas vezes desejávamos apenas desenhar enquanto alguém tratava dessa parte por nós.

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EF: Como é que tem sido trabalhar com a ó! Galeria?

MS: A ó! Galeria é uma segunda casa, é por lá que acabam por passar todos os meus trabalhos. É um projecto no qual acredito muito e que vai ser sempre muito especial, porque pertence à minha amiga Ema que me ajudou desde que cheguei ao Porto há quase cinco anos.

EF: O teu mais recente projecto foi ilustrar o livro da Raquel Caldevilla. Como foi a experiência? 

MS: A experiência foi positiva, há muito tempo que aguardava que me caísse nas mãos um livro para ilustrar e nada melhor que realizar esse sonho com a Raquel. Primeiro porque é minha amiga e este livro é o seu primeiro e muito importante para ela e depois porque confiou totalmente em mim e no meu trabalho.

EF: Como é ilustrar os livros dos outros? 

MS: Isto de ilustrar livros ainda é novo para mim porque a primeira vez aconteceu ainda este ano com o 12. Podes ver tudo aqui.

EF: Fala-me de Todas as cartas de amor de Paulo José Miranda. Qual foi a receita para um trabalho de ilustração tão bonito e único?

MS: Textos que fazem recuperar a fé no amor até às pedrinhas da calçada, foi esse o truque. Não posso deixar de agradecer ao João Paulo Cotrim da abysmo esta honra.

EF: Como é que acontecem as colaborações, por convite formal ou sentados à mesa?

9904_564902423562626_983907412_nMS: Até agora as colaborações têm acontecido com amigos, sentados com os pés em cima da mesa.

EF: Tens uma loja no society6. Quais são os produtos à venda e a média de preços?

MS: O society6 é uma plataforma online americana de venda e produção de t-shirts, prints, almofadas, tapetes, cortinas de banho, tote-bags, etc. São eles que tratam de tudo, eu apenas fiz o upload dos meus desenhos. É uma maneira de ter disponível para venda merchandising que não tenho capacidade económica para produzir agora.

EF: Quais os projectos futuros em mente?

MS: Continuar a alimentar a indústria de auto-ajuda com os Little Miserable Books e continuar a experimentar coisas novas.

EF: Uma mensagem para todos os artistas e aqueles que o aspiram?

MS: Diverte-te.

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