A Viagem do Elefante de José Saramago, baseado em factos históricos, é um romance ficcionado (ou um conto, segundo o autor) sobre a jornada épica do elefante Salomão e do seu conarca Subhro (ou Solimão e Fritz para os austríacos). Uma longa e extraordinária viagem de Lisboa até Viena, de inutilidade para o Rei de Portugal, D. João III, a presente inesquecível para o Arquiduque de Áustria, Maximiliano II.

Entendida como uma metáfora da vida humana, esta história revela o fim último de todas as coisas, o chegar onde nos esperam, a morte, não deixando de nos ensinar que durante o caminho existem experiências maravilhosas à espera de serem vividas. Fazendo uso do seu fino humor e da ironia, Saramago aproveita para criticar não só os homens e Deus, como a burocracia do Estado, representada por Salomão (que deu tanto trabalho na preparação para a viagem), e a corrupção inerente ao indivíduo, encontrada em Subhro, que, conhecendo as manhas e artimanhas de Salomão, é contratado em nome do bem-estar do elefante, mas acaba por fazer uso dele quando vende os seus pêlos para obter lucros em benefício próprio.

Subhro, personagem complexo, sobressai assim por representar a essência do povo, mas revelar-se simultaneamente culto e inteligente, uma vez que, submetendo-se à vontade dos seus soberanos, nunca deixa de expor as suas ideias, mostrando uma capacidade incrível de jogar com as palavras ou de deixar que elas joguem com ele, evitando ferir susceptibilidades.

A história do Deus Elefante, Ganeisha, aborda um tema teológico bastante interessante, dando a conhecer uma nuance da cultura hindu e originando um dos momentos mais cómicos da obra. Mas não posso deixar ainda de referir a amizade entre Salomão e Subhro, a belissíma reflexão sobre a condição humana, o confronto entre culturas e estratos sociais distintos e as disputas religiosas, assim como Saramago desmonta frases feitas e como narra de tal maneira que nos faz acreditar que nos conta a história de viva voz.

Um livro que vale a pena ler, sem pretensiosismos, com calma porque “quando o cérebro divaga, quando nos arrebata nas asas do devaneio, nem damos pelas distâncias percorridas, sobretudo quando os pés que nos levam não são os nossos”.