É a história de uma mulher ímpar na História da Literatura Francesa, que foi contemporânea de Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Albert Camus. No entanto, a sua existência permanece desconhecida de muita gente, e Violette pretende ressuscitar a vida e obra de uma escritora revolucionária. 

Realizado por Martin Provost, o filme conta a história de Violette Leduc (Emmanuelle Devos), uma mulher instável que começa a encontrar-se com Simone de Beauvoir (Sandrine Kimberlain), o seu ídolo literário, em Paris. A autora, ao descobrir um romance escrito por Leduc, A Asfixia, começa a admirar a sua escrita e convence-a a fazer da arte a sua carreira. O filme traça a evolução e rupturas da amizade entre estas duas mulheres, que durou até ao final das suas vidas. Esta relação simboliza toda a revolução literária que se criou no país com estas autoras e outros nomes incontornáveis.

Talvez o nome de Violette Leduc seja desconhecido para a maioria dos portugueses. Contudo, foi uma autora que partilhou a sua época com muitos grandes escritores que não foram tão esquecidos pela História, com os quais tomou contacto e que admiraram a sua obra – e no nosso país encontramos alguns dos seus livros traduzidos, como A Bastarda (o mais icónico) e Teresa e Isabel. O filme de Provost faz justiça a uma figura que está mais na “sombra” desses tempos culturais gloriosos, apesar de Leduc ter conseguido obter tanto impacto e controvérsia como Beauvoir, a sua inspiração, no que toca ao papel da Mulher moderna na sociedade contemporânea e no combate à análise do sexo feminino através de uma visão machista.

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Trata-se de um filme interessante que tem como único defeito assinalável, talvez, o de ser um pouco longo demais, o que faz com que o ritmo da película se perca em virtude de certas pequenas situações que são filmadas de forma descontextualizada do resto da história. Mas uma fita assim não deixa de ser relevante, por tratar de uma pessoa que não associamos, à partida, à época cultural filmada. Porque o tempo pode tê-la apagado do campo mediático da literatura, mas o impacto da sua escrita foi inigualável e continua a gerar repercussões.

É invulgar encontrarmos um ambiente assim tão bem desconstruído no Cinema, captando a essência da busca incessante dessa geração de autores por novas tendências e novos sentimentos, que renovaram a literatura e a maneira como olhamos para o mundo e nos autocensuramos. Violette Leduc inovou ao mostrar a sexualidade com outras palavras e emoções, num espelho da sua vida difícil e acidentada que está retratada com delicadeza, choque e frontalidade.

Realizado com suavidade e detalhe, e muito bem interpretado pelo formidável elenco que o compõe (um destaque especial para o protagonismo de Emmanuelle Devos), Violette funciona porque, ao contrário de outros biopics, não se fica apenas pela função de contar esta história de maneira superficial e cronológica, com princípio, meio e fim. Não: o argumento de Provost, Marc Abdelnour e René de Ceccaty vai mais longe e centra-se nas questões que realmente interessam para se compreender a psicologia desta mulher, e as razões que levaram a que a sua escrita se tornasse naquilo que hoje podemos contemplar nos seus livros.

Violette não tenta compactar a vida da personalidade em causa, mas pega nas suas incertezas e mostra como ela era instável e perturbada, sendo mais um fruto de uma época descontente que clamava por mudança. Uma boa surpresa que sabe pintar, através da arte cinematográfica, um panorama literário revolucionário (nos livros e  nos seus autores) que continua a inspirar gerações de escritores – e que é fundamental para compreendermos a condição humana no século XXI.

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Violette

Realizador: Martin Provost

Argumento: Martin Provost, Marc Abdelnour e René de Ceccaty

Elenco: Emmanuelle DevosSandrine Kimberlain, Olivier Gourmet

Género: Biografia, Drama

Duração: 132 minutos